Arte é fazer barulho
Segunda-feira, 7 Janeiro, 2008 at 22:14 | In Bruno Bastos | 2 CommentsTags: arte, arte-educação, Bastos, Bruno, educação
Muitas histórias falam sobre perdas, dos mais variados tipos de perdas. Pode-se perder alguém que se ama, algo que se quer, alguma esperança alentada talvez por anos a fio. A história de Mário* e mais ou menos como essa, com a diferença de que o que se perdeu nessa história foi boa parte de sua própria história.
O primeiro contato que eu tive com a história de Mário se deu já na primeira entrevista que fiz com Eron Villar, do Centro de Pesquisa Teatral do Recife(CPT). Encontrei-me com ele em uma das mesas do café São Braz, no Paço Alfândega, próximo ao CPT; como eu esperava, ele me recebeu com o sorriso enorme de quem estava bolando algo grande: “tou cheio de trabalho com umas iluminações para o Festival de Teatro [10º Festival Recife do Teatro Nacional, realizado entre 8 e 18 de novembro de 2007]“. Eron, que faz de tudo – a lista vai de, obviamente, atuar a dirigir, iluminar, promover e produzir os espetáculos teatrais – desde que começou a estudar teatro no Curso de Formação de Atores do Sesc e, depois, na graduação em Artes Cênicas da UFPE, mostrou que também era bom no papel de entrevistado. Passou rapidamente as mãos para ajeitar o cabelo em vias de ser um black power e sentou-se à mesa.
Conversamos sobre as experiências de Eron no trabalho com alunos de escolas públicas e projetos sociais do Recife. Ele deixou bem claro que o ensino de arte tem um papel fundamental para os alunos desenvolverem o interesse pela escola e pelo espaço de interação com os professores e colegas. Quando perguntei sobre a necessidade da arte para a formação dos alunos, ele rebateu de pronto “não é nem uma questão de formação, é de fazer os meninos virem à escola sem que isso seja uma obrigação. E as aulas de arte como música, dança e teatro são importantíssimas para eles porque são diferentes”. Ele ainda ressaltou que o trabalho com as crianças tinha uma diferença fundamental, que era a possibilidade de trabalhar com a criatividade e o imaginário que só elas possuem. Dentre as várias histórias que Eron me contou, uma delas foi a de Mário.
Mário foi acolhido pelo Recicriar – projeto que atende a crianças de 7 a 17 em situação de vulnerabilidade social – por volta dos dez anos e, como toda criança desconfiada, não falava muito. Era, porém, um menino que sempre se destacou por ser inteligente e por se concentrar nas atividades que fazia. O próprio Eron me disse que não tinha muito como saber o que ele e os outros meninos faziam na parte do dia em que não estavam no Recicriar. Ele contou que houve um dia em que foi encontrado um celular dentro da instituição que tinha sido trazido por alguma das crianças, embora fosse proibido aos jovens entrar no Recicriar com qualquer objeto furtado. Depois que foram reunidos todos os alunos, sem ter havido ninguém assumido a culpa, Eron perguntou, interpretando um pequeno fantoche de mão dos que usava nas atividades e pediu para que quem tivesse roubado o celular o devolvesse. “Na mesma hora o pirraia veio bem devagarzinho e pegou o celular dizendo que tinha sido ele que tinha pegado. Ele botou o telefone na mesa e depois voltou pra o meio dos outros meninos”, relatou Eron. “E eu fui atrás dele e ele me disse que não ia mentir para o boneco porque o boneco nunca tinha mentido para ele”. Logo em seguida, voltamos a falar sobre Mário.
Logo a história do menino me chamou a atenção. Mário conheceu Eron e outros membros do Recicriar e rapidamente pegou gosto por um brinquedo em especial. “Um daqueles jogos de quebra-cabeça, de ir formando as coisas. E ele foi mexendo, mesmo não entendendo as letras, que eram o tema do jogo”, detalhou Eron. A partir desse brinquedo os educadores do Recicriar ensinaram a Mário, aos poucos, as letras, uma de cada vez, para que ele aprendesse o som das letras e fosse montando na própria cabeça as muitas estruturas da linguagem. Com um brilho nos olhos Eron descreveu o momento em que o menino, timidamente, escreveu o próprio nome com as letras do brinquedo e perguntou se estava correto. “Na mesma hora a gente foi olhar e ele tinha feito o nome direitinho, e com o tempo foi aprendendo mais e mais palavras”, disse Eron.
O menino era um dos mais aplicados nas atividades em que participava e Eron destacou a sua capacidade de raciocínio; descreveu rapidamente como Mário ficava uns bons minutos olhando brinquedos que o levassem a resolver problemas e o jeito como ele foi aprendendo a escrever palavras primeiro com as letras do brinquedo, a adaptação dos movimentos delicados de pegar um lápis e fazê-lo deslizar grafite desenhando as letras desajeitadas no papel, indo e melhorando aos poucos.
Comparando com o que eu já tinha ouvido, o professor Jahilton Filho foi espantosamente consonante com o que disse Eron Villar. Eu já conhecia o professor de alemão Jahilton, bem peculiar por vários motivos, como a altura e os longos cabelos cacheados que o faziam parecer terrivelmente mais magro do que ele já era, além da bem-vinda habilidade de fazer sushis em casa e emprestar CDs de bandas européias das quais ninguém nunca ouviu falar. Mas além dessa pessoa, também havia o educador, que eu descobri relativamente por acaso.
No meio da aula de alemão em que, como sempre, o pobre professor era bombardeado com perguntas sobre os esquisitos hábitos dos alemães, ele soltou a palavra-chave: “eu já trabalhei antes de dar aula de alemão dando aula de artes e capacitação de arte-educação para professores da Prefeitura…”. Embora tenha sido em uma experiência diferente, Jahilton abordou necessidades semelhantes às que Eron já havia me falado.
O trabalho com os educadores baseava-se na delimitação do conceito de arte, numa iniciativa planejada para proporcionar ao próprio professor a capacidade de estimular nos alunos o pensamento sobre a arte. “O objetivo é que os professores percebam, e transmitam isso aos alunos, que a arte é uma manifestação que emana do próprio ser humano e que faz parte de todos os aspectos da nossa vida. Assim, quando esse aluno vir uma novela, ele vai perceber que além do programa de televisão aquela produção envolveu uma direção responsável pelas artes cênicas, um escritor que fez o enredo e outros trabalhadores como iluminadores, figurinistas e maquiadores, e que cada uma dessas pessoas está fazendo arte”, explicitou Jahilton. Segundo ele, muitas vezes a aula de educação artística é a única que possibilita aos estudantes um aprendizado mais livre, que não segue a forma autoritária e chata como são ensinadas as outras matérias. Incrivelmente, com outra formulação Jahilton disse o que Eron já tinha afirmado: “o cara vem pra escola com um estímulo, que pode ser a merenda, a aula de artes ou até mesmo a aula de matemática. O importante é que ele se envolva com a escola, e não apenas a visite”.
Envolvimento, como disse Jahilton, era o que mantinha Mário no Recicriar; o que não tem nome é o que o fez sair de lá. Como boa parte dos meninos, as vezes em que ele ia foram escasseando, como se ele por algum motivo tivesse consciência de que partir seria doloroso demais para ser feito de uma vez. Assim, aos poucos, os meninos que fazem parte do projeto vão mudando um a um, e de boa parte deles não se tem notícia. Às vezes é até bom não ter notícia do que ter uma notícia ruim. O fato é que só uma parte muito pequena da história de Mário ficou para nós. Ele não ficou nem dois anos no Recicriar. Ele não tinha sua história antes, e lá começou a sentir ter o poder de escrevê-la; se nunca soubemos de sua família, nem pouco mais que fragmentos do que ele já tinha visto, ou feito, ou tentado fazer, agora novamente o perdemos. E eu, assim como os que o conheceram, gostaríamos de saber até onde foi a história de Mário. Cabe a nós tentarmos não perder mais histórias por achar que não deveriam ser contadas.
Já que falamos de histórias, conto ainda outra. Entre uma garfada e outra do, diga-se de passagem, enorme prato que comia durante o almoço que havia sido combinado após o último dia de aula de alemão da turma do Centro de Formação Profissional Jornalista Cristiano Donato – escola de línguas e informática mantida pela Prefeitura do Recife -, Jahilton fez ainda algumas ressalvas. Primeiro, deixou bem claro que não se podia pôr todos os méritos na arte-educação. “Não dá pra dizer que a arte é essa coisa mágica, que pega qualquer um e transforma o cara. A gente sabe, por exemplo, que [Pablo] Picasso batia na mulher e [Salvador] Dalí apoiou o franquismo na Espanha, então não é porque alguém é artista que vai ser uma boa pessoa. Então é importante ver que não é a arte em si a questão, mas dar ao jovem uma perspectiva que o envolva com atividades que o entusiasmem”, lembrou ele. O outro ponto que ele lembrou foi a importância de os arte-educadores quebrarem as barreiras entre as pessoas e a arte, mostrando aos alunos que todos podem e devem ser também produtores de trabalhos de arte. Enquanto conversávamos, surpreendentemente Jahilton terminou o pratão de almoço e emendou um chope; depois, ainda perguntou à turma se todos concordavam em pedir mais uma tábua de frios. E, sim, ele comeu tudo.
O que eu sempre ouvi com todos o que falei foi que os jovens que todos tinham muito mais experiência e maturidade que era de se esperar para suas idades e suas vidas. Era justamente de experiência que eu queria falar com o meu último entrevistado.
Foi ouvido ainda um pouco ao longe os batuques dos ensaios do carnaval que já está começando em Olinda que eu fiz minha última entrevista, com o educador Carlos Eduardo Sales de Araújo. A primeira pergunta que fiz foi sobre o local em que ele preferia falar comigo, e Carlos foi prático. “Alí no quintal tem duas redes, fica bom da gente conversar lá”? E em poucos minutos eu estava sentado na rede, de frente para ele, enquanto os pássaros que ele cria em uma gaiolinha suspensa se metiam num cantinho um pouco menos frio, tentando fugir da noite. Passei a mão na cabeça, reforçando o cacoete de sempre, e o questionei sobre o trabalho que ele desenvolveu durante o ano passado.
Carlos me explicou que o trabalho que fazia com as crianças e adolescentes em situação de risco acolhidos pelo CRIA (Centro de Referência à Criança e ao Adolescente) se baseava em usar a música como forma de expressão dos jovens. “Na oficina de percussão a gente começa com uma atividade bem simples: os meninos entram e encontram um monte de instrumentos, e a gente deixa eles tocando como eles sabem. Tem uns que já têm mais noção e sabem como pegar nos instrumentos, e a nossa vontade não é de, inicialmente, ensinar a tocar”, relatou Carlos. O trabalho com a música engloba vários aspectos da vida desses jovens. O primeiro e mais importante é saber que são parte de um mundo composto por indivíduos: “quando eles tocam, eles estão produzindo algo em conjunto, porque ao mesmo tempo estão tocando e prestando atenção no outro. E isso ajuda a construir nessas pessoas um conceito de cooperação e respeito ao outro, que na maioria das vezes não é respeitado na vida diária”, relatou Carlos.
A oficina também desenvolve as aptidões musicais dos alunos, dando a cada um deles a devida orientação e vivência para se aperfeiçoarem no trabalho com a música. Dar uma nova identidade e dignidade aos adolescentes oferendo-lhes ensinamento é um dos objetivos da oficina. Carlos, após alguns segundos pensando, identificou precisamente o ponto chave desse trabalho: “quando você vê uma dessas crianças na rua, suja e maltratada, você não imagina como ela pode virar outra pessoa se estiver com um banho tomado, bem alimentada, tocando aqui em Olinda, ou no Recife. Agora, o importante é que essa criança sente que, quando tá lá, tocando, pode se reconhecer como gente”.
A outra atividade em que Carlos Eduardo participa é a oficina de educação social, da qual também participam crianças e adolescentes que fugiram de diversas situações de violação de seus direitos; confrontando a opinião de Carlos com os outros entrevistados, percebi que cada um tocou, ao seu modo, no mesmo tema. O que para Eron era interesse e para Jahilton foi envolvimento ele chamou de vínculo. Segundo o educador, o jovem que abandona sua casa vive sem vínculos e, portanto, o trabalho do educador é primordialmente resgatar os vínculos desse jovem para consigo mesmo e, posteriormente, para as instituições como a família e a escola. Os temas trabalhados na oficina de educação social vão desde o cuidado com a higiene e o conhecimento de noções básicas de cidadania até a construção de conceitos que não fazem parte desses indivíduos, como, por exemplo, as atividades artísticas realizadas com os jovens, que o levam a redescobrir o seu mundo por meio das interpretações possíveis através da significação simbólica da construção de desenhos, músicas, poesias, esculturas e outras produções artesanais. “Isso é que faz a diferença pro mundo daquele cara, Bruno, porque o povo diz que eles são meninos de rua, ninguém é de rua. A pessoa é de uma família, de um lugar, tem a sua história, que pode ser muitas vezes traumática, com um parente agressor ou até mesmo a falta de qualquer familiar ou conhecido que estabeleça laços afetivos com essas pessoas, mas mesmo assim esse cara não tá boiando sozinho. E essa pessoa que tem muito pra dizer, como todo mundo tem, bota isso pra fora fazendo um desenho, tocando um maracatu, descobrindo a vida do lugar onde ele vive.”
História é uma palavra importante, principalmente no que diz respeito ao trabalho que Carlos faz em conjunto com seus alunos. E assim como há as boas, há as ruins, que representam um sem-número de dificuldades que existem para que esse trabalho seja continuado; Carlos expôs três deles: o primeiro é a falta de apoio de governos e da sociedade, razão pela qual muitos dos projetos são descontinuados e morrem sufocados, esvaziados e apagam assim, tendo esquentado alguém como uma fogueira que quase salvou uma vida. Os projetos que persistem ainda precisam lutar diariamente contra o preconceito que cerca os jovens, estigmatizados como autores e punidos como vítimas da violência. Além desses empecilhos, Carlos ainda acrescenta que há educadores que não se põem o compromisso de suscitar a mudança, o salto em direção a uma alternativa à realidade de exclusão em que vivem os jovens do Recife, de Olinda e de todo o Brasil. “Já vi menino dormindo em calçada com camisa de projeto social. E quem trabalha sério sabe que você não pode fazer uma ação pontual, nem solitária. Por isso é importante que as organizações do governo e da sociedade trabalhem em rede, buscando traçar estratégias de proteção não à miséria nem à exclusão, mas aos seres humanos que merecem ter a sua dignidade devolvida.”
Os poucos passos que eu dei ao falar com as pessoas que eu falei me trouxeram mais dúvidas e más notícias que boas novas sobre a situação dos nossos jovens; eles continuam passando por esquinas e cruzamentos como se fossem vultos, sombras de gente sem um colorido de dignidade. Escolhi terminar a entrevista com o que me disse Carlos já quando estávamos já terminando. Perguntei a ele qual era a solução que ele considerava viável para combater a exclusão e o preconceito que sofrem os menores esquecidos do Brasil. “Provocar. Se fazer ouvir. Batucar num tambor.”
*O adolescente teve seu nome trocado por um pseudônimo por ser menor de idade e estar envolvido em pequenos furtos.
2 Comentários »
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Caramba, Braune!
Esse foi um dos primeiros textos que falam sobre arte e o assistencialismo e não incorrem na idealização dessas atividades. O quadro é realmente muito dificil e essas atividades, por diversos problemas, acabam não melhorando definitivamente a injustiça que se deseja combater.
O conteúdo foi interessantíssimo e seu texto, formidável. A construção está agradabilíssima e, à excessão de alguns comentários que julguei desnecessários, a sua reportagem está perfeita!!
PARABENS!!!
Comentário por Diego — Domingo, 13 Janeiro, 2008 #
como era de se esperar… gostei muito !
nada mais a declarar.
Comentário por ariadne — Domingo, 13 Janeiro, 2008 #