É TROCA-TROCA, É CARNAVAL!

Segunda-feira, 7 Janeiro, 2008 at 23:26 | In Manoel Medeiros Neto | Leave a Comment
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Do Rio ao Recife, de Recife ao Rio – samba e frevo cruzam terras, ultrapassam fronteiras e produzem intercâmbios culturais

Imagine mulatas, baianas e mestres-salas sambando nas margens do Capibaribe. O cenário reluzente da Rua da Aurora, de tantos carnavais, poesias e paixões, de um Recife que se foi e não volta mais, em mistura com o gingado do samba carioca. Mais além, léguas adiante, nas terras da Cidade Maravilhosa, a Baía da Guanabara recebendo, como grande anfitriã, os frevos imortais da cultura pernambucana. Tem Capiba no Redentor e Cartola no Marco Zero. Delírios carnavalescos?

O intercâmbio entre os ritmos, iniciado desde que o carnaval tomou forma, é um movimento em ascensão nessas duas sedes da folia de Momo. No entanto, essa aproximação vem se estreitando paulatinamente e terá, no carnaval que se aproxima, momentos de glórias. Shows com escolas de samba cariocas no Recife e o desfile da Estação Primeira de Mangueira, homenageando o centenário do frevo na Sapucaí, reforçam a idéia de que, para essas culturas, as fronteiras são tão tênues que por pouco inexistem.

A cultura brasileira, de conteúdos complexos, ricos e diversificados tem o carnaval como sua marca registrada. No país, o clima de euforia toma conta das ruas e as fantasias, literais e metafóricas, expõem-se avenidas afora. Muito mais antiga do que a história do ‘Brasil civilizado’, essa tradição foi importada dos colonizadores portugueses que, diferentemente das pessoas de cá, comportavam-se quase que recatadamente na ‘festa da carne’. A miscelânia dos povos presentes no território tupiniquim no tempo da colonização, principalmente indígenas e negros, provocou uma produção de danças e manifestações folclóricas até então desconhecidas. Daí veio o samba, veio o frevo. Emergia o país do carnaval.

A proximidade histórica dos dois ritmos, ícones da folia brasileira, é mais um motivo que leva os estudiosos da cultura e da música a acreditarem que um intercâmbio entre eles não é apenas possível, mas também sinônimo de sucesso. Para o coordenador do setor de som, imagem e microfilmagem da Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj), Renato Phaelante, a união dessas duas manifestações é uma excelente idéia. Ele destaca a importância da divulgação do frevo mundo afora: “uma cultura tão rica precisa ser mais reconhecida e admirada”.

Segundo o crítico de carnaval Maurício Barbosa, que intercala os poucos dias da folia entre Rio e Recife, o samba tem nas raízes africanas a sua principal fonte de inspiração. Originário do vocábulo angolano semba, o samba é um produto musical de meados do século XIX, quando a umbigada, dança religiosa negra, unia-se às melodias do maxixe, do jongo e da modinha. Também derivado do maxixe, e com influência da marcha, o frevo faz ferver as ruas do Recife. Em nove de fevereiro comemora-se o aniversário do ritmo, que fez do carnaval pernambucano, sobretudo de Olinda e Recife, uma apoteose de vibração e alegria, reconhecida nos quatro cantos do país.

O apelo popular, o chamado arrastão da massa, é outro elemento que faz unir essas duas manifestações da cultura brasileira. Mesmo com a utilização de alguns procedimentos separatistas no desfile das escolas de samba da Marquês de Sapucaí (ingressos e fantasias cobrando preços absurdos), ainda é naquele espaço que o indivíduo, elemento do morro, sofrido e mal pago durante grande parte do ano, transforma-se em figura da ‘alta nobreza da corte dos foliões’. De acordo com o jornalista e comentarista do carnaval da TV Globo, Haroldo Costa, autor de livros como 100 anos de Carnaval no Rio de Janeiro e Salgueiro- 50 anos de glória, o carnaval carioca é essencialmente democrático, pois suas características mais profundas ainda vigoram como antigamente. Segundo Costa, para entrar numa ala de uma escola de samba, não se questionam o credo, a religião e nem a classe social. Só basta o ‘burucutu’ – a animação na veia.

Diferente da triste realidade presente no carnaval baiano, quando trios elétricos envoltos em cordões de isolamento suprimem os menos abastados, numa manifestação cada vez mais entregue ao lucro e reduzido na grandiloqüência cultural, é no Recife que a voz do povo clama como protagonista social. Os versos do samba da verde e rosa para o carnaval de 2008 “a majestade é o povo, sem o povo, história não há”, refletem essa característica. Uma festa do povo para o povo.

Apesar das coincidências históricas e culturais entres os dois ritmos, poucos poderiam prever, tempos atrás, que tais transmigrações alcançariam tamanho sucesso. Devido ao bairrismo preconceituoso, muitos considerariam impossível o sucesso de shows de escolas de sambas nos territórios pertencentes aos guardiões do frevo. Grande engano.

SAMBA E RECIFE – O Projeto Na Roda de Samba, sob a coordenação do jornalista Jair Pereira, decidiu importar dos morros cariocas o samba de raiz das velhas guardas e a animação de uma bateria nota dez. O sucesso estrondoso das quatro edições promovidas no segundo semestre desse ano, abriu horizontes para a continuação dos eventos em 2008. O samba encantou os pernambucanos. As adesões do público e da crítica ratificam a idéia de ‘caldeirão cultural’ incubada nas raízes do povo daqui, propiciador de manifestações múltiplas e divergentes, adepto a distintas possibilidades culturais.

A intenção do Projeto era, inicialmente, promover a produção dos sambas autorais de Pernambuco, visto que essa é uma demanda musical pouco explorada pelo mercado local. Fazendo uma ponte com o samba do Rio de Janeiro, os objetivos ultrapassaram o esperado. Junto aos shows das velhas-guardas da Mangueira, Salgueiro e Vila Isabel e da bateria da Portela, ocorridas uma vez por mês, desde setembro, estavam artistas e escolas de samba pernambucanas. Subiram ao palco, entre outros, o Grupo Terra, Gerlane Lops, Papo de Samba e agremiações como a Galeria do Ritmo e a Gigantes do Samba. Poucos não se surpreenderam com a maestria e competência apresentadas. Amante do samba e do carnaval do Rio de Janeiro, Flávio Batista, 27 anos, declarou-se boquiaberto com o show de Lops e questionou “onde escondiam essa artista?”.

A ironia, que cutuca o mercado fonográfico, dá abertura a um debate mais amplo a respeito da triste realidade da música no país. Apesar da autenticidade de ritmos como o brega e o funk e o grande poder desses sobre o público ouvinte, faz-se presente o público que clama pela MPB de qualidade nas estações de rádios. Batista, que vai ao Rio todo ano assistir aos desfiles de escolas de samba, ainda destacou positivamente a oportunidade de curtir o samba da Portela a poucos quilômetros de sua casa. “Amo o frevo, tem um som magnífico e energiza qualquer um, mas acho que existe mercado para todos”, finalizou.

A imagem de uma senhora em prantos, em cima de uma cadeira, ao som de “Foi um rio que passou em minha vida”, de Paulinho da Viola, era o retrato emocionado do sucesso dos shows do Projeto, ocorridos, todos eles, na sede do Clube Líbano, no Pina. Ao som de “Mangueira teu cenário é uma beleza, que a natureza criou”, “Explode coração, na maior felicidade”, “Portela, eu nunca vi coisa tão bela”, entre tantos outros, os recifenses emocionaram-se, surpreenderam-se, conheceram novos sambistas, mataram a saudade de uma época de nostalgias, dos bailes de carnaval nos clubes municipais e fizeram sua parte: abriram alas para outras manifestações culturais riquíssimas, tal como o samba é.

FREVO E RIO – Do outro lado da partida, no Rio de Janeiro, frevo, Galo da Madrugada e Bloco das Flores preparam-se para invadir, literalmente, os recantos do samba. Nos bastidores da Cidade do Samba, no bairro da Gamboa, Zona Portuária do Rio, local onde são preparados os desfiles das escolas de samba do Grupo Especial do carnaval carioca, sombrinhas multicoloridas forram o chão do quarto andar do barracão da verde e rosa. Ainda se preparando para entrar em jogo, o frevo terá a festa de encerramento das comemorações do seu centenário comemoradas na Marquês de Sapucaí, no domingo de carnaval, dia 03 de fevereiro. Com o enredo “Cem anos de frevo: é de perder o sapato – Recife mandou me chamar”, sob a coordenação do carnavalesco Max Lopes, o mago das cores, a tradicional Estação Primeira cantará e contará a história e as tradições desse ritmo. E tem “frevo no samba”, como bem anuncia o samba da tradicionalíssima agremiação.

Quando os clarins anunciarem a presença da Estação Primeira de Mangueira na área de concentração da Sapucaí, local de onde se inicia o desfile das escolas de samba, milhões de espectadores aguardarão a abertura dos portões, afinal, o carnaval do Rio de Janeiro é um dos espetáculos mais divulgados no país e no mundo, sem medo de exagerar. Estará encerrada a fase de concepção da obra e, a partir daí, o jogo será iniciado. Com a verticalização dos desfiles (alegorias cada vez maiores) e a ênfase no caráter de espetáculo das apresentações, os gastos das agremiações do Grupo Especial atingem hoje valores exorbitantes. Apesar do auxílio da Prefeitura Municipal e do Governo Estadual, as administrações procuram outras saídas (que nem sempre prezam pela legalidade). Os patrocínios de empresas, municípios e governos foi uma opção encontrada que, por vezes, transforma o elemento carnaval num mero e simples ‘balcão de negócios’.

No caso do desfile da Mangueira no ano que vem, a Prefeitura de Recife, capitaneada pelo prefeito João Paulo e pela secretária de Gestão Estratégica e Comunicação, Lygia Falcão, coordenadora das comemorações do centenário do frevo, fechou parceria com a agremiação e disponibilizou R$ 3 milhões de reais para a preparação do carnaval da escola. A opinião pública ficou dividida.

“É um absurdo. Enquanto pessoas agonizam nas encostas dos morros e necessitam de educação básica, o carnaval do Rio de Janeiro enche o cofre com nosso dinheiro”, definiu a empresária Maria Aparecida Álvares, de 42 anos. Por outro lado, muitos apoiaram a iniciativa que, segundo a Prefeitura, realizará uma divulgação da cultura do frevo como jamais acontecera. Segundo cálculos da instituição, será gerado o equivalente a, no mínimo, R$ 80 milhões de reais em mídia espontânea (matérias de jornal, telejornais, notas, etc.). De fato, assim como outros “empreendimentos” bem realizados, como o exemplo da Vale do Rio Doce, que patrocinou o enredo da Acadêmicos da Grande Rio, “O nosso Brasil que vale”, sobre as riquezas minerais, em 2003, é muito provável que, no âmbito econômico, os fins justifiquem os meios.

Nas rodas de discussão, que debatiam a escolha do enredo na Mangueira, surgiram algumas reclamações e acusações de que a Mangueira não estaria valorizando sua história. Polêmica no ar. A questão dizia respeito à comemoração de outro centenário em 2008, o de nascimento de Angenor de Oliveira, o Cartola, ícone do samba e fundador da Estação Primeira. Os mais tradicionais não admitiam a preferência pelo frevo e, reacionários, iniciaram uma campanha de rebaixamento do enredo escolhido.

Como o anúncio da decisão do enredo aconteceu em abril é provável que no momento do desfile boa parte desse preconceito tenha sido esvaziado. Ao contrário de outras escolas, que optam por temas nada carnavalescos e burocráticos apenas em busca das verbas (como a Tradição que, em 2005, homenageou a soja, num desfile “agro-técnico” que terminou rebaixando-a para o Grupo de Acesso), a Mangueira cantará a cultura carnavalesca de um dos principais pólos de animação do Brasil. Um ritmo que tem história, personagens e conteúdo. Se até do sapoti se fez samba (“O tititi do sapoti”, da Estácio de Sá em 1987), o frevo tem tudo para fazer sucesso e, literalmente, invadir a cabeça, o corpo e embalar os pés dos foliões. Aos preconceituosos, será uma lição de um bem sucedido intercâmbio cultural. Sem fronteiras e preconceitos.

 

 

O samba-enredo que animará o desfile da escola é de autoria dos compositores Lequinho, Júnior Fionda, Francisco do Pagode, Silvão e Aníbal e não é tido como poético. Segundo a crítica, entretanto, tem tudo para levantar a Marquês de Sapucaí, devido ao seu ritmo vibrante e à letra fácil. A inspiração, segundo o compositor Lequinho, foi justamente o frevo, que, segundo ele, não poderia ser homenageado num tom saudosista e nostálgico demais.

Por fim, está prevista para o sábado de carnaval, dia 01 de fevereiro, uma grande invasão (obviamente pacífica). Sem a utilização de caravelas e naus, como fizeram os portugueses da família real quando aportaram por aqui, duzentos anos atrás, os discípulos do frevo aportarão no Aeroporto Tom Jobim. Segundo informações extra-oficiais, cerca de mil pernambucanos desfilarão na Mangueira. Entretanto, de acordo com a assessora de imprensa da escola, Márcia Rosário, seria impossível contabilizar quantos serão os leões do norte presentes: “possivelmente muitos”, enfatizou. O desfile, que terá oito alegorias e cerca de quatro mil componentes, se caracterizará pela utilização de variados coloridos em meio ao verde e rosa, cores da bandeira mangueirense. Uma epopéia de formas, ritmos e passos que marcarão a passarela do samba.

“A Estação Primeira saúda o frevo”, diz o cartaz na entrada da quadra da escola. Sem cartaz, mas com animação, o povo recifense declara: – “queremos samba”! Metamorfoses rítmicas, sociais e culturais. Manifestações autênticas da cultura brasileira que fazem verdade um delírio de carnaval: Capiba no Rio, Cartola no Recife. Um sonho real. É troca-troca, é carnaval!

 

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