História com quadrinhos

segunda-feira, 7 janeiro, 2008 às 22:44 | Publicado em Aristeu Portela | Deixe um comentário
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Inícios costumam ser simples…

– Quase todo mundo, quando se fala de quadrinhos, começa da mesma forma: é alguém oferecendo alguma coisa pra você ler.

Material jornalístico?

Objeto infantil?

Fonte educativa?

Mero entretenimento?

Objeto de estudo acadêmico?

Nona arte?

O que são os quadrinhos para as pessoas que se relacionam com eles?

 

… mas nem todos são iguais…

 

Juliana já tinha aprendido a ler. Folheara todos os livros infantis da sua casa – exceto um, que ficava sempre em cima da escrivaninha do quarto do irmão. Mas não era propriamente um livro. O que seria aquele objeto de poucas páginas, tamanho pequeno e capa colorida?

Quando a pequena menina, com toda a curiosidade que seus quatro anos lhe davam, pôs as mãos no que mais tarde ela chamaria de “gibi”, um novo mundo se abriu. E ela se viu envolvida nas aventuras de crianças que a acompanhariam ainda por muito tempo – “Mônica, Cebolinha, Magali, Cascão e todos os outros nunca deixaram de fazer parte da minha vida, até hoje”.

A história não terminava com aquela revista, descobriu com o tempo. Os personagens sempre voltavam em outras edições – que ela de repente encontrou espalhadas por todo o quarto do irmão, como um tesouro que havia permanecido escondido por tanto tempo sob o arco-íris.

E a menininha dentuça,

do vestido vermelho,

era muito brava – como ela!

E a que não parava de comer

usava um vestido amarelo

– sua cor predileta!

E por que o menino dos “l”

não namorava a dentuça?

Afinal, ele era

um amigo

emprestava-os para Paulo ler. Um primo, na verdade, que comprava e repassava pro resto da família – as crianças, claro. E embora essa seja uma época coberta pelas nuvens do tempo, há certas ocasiões bastante nítidas.

- Moço, quanto custa essa aqui?

O pequeno Paulo tinha sempre que ficar na ponta dos pés para conseguir ver os gibis nas bancas de revistas. Naquele dia, por influência do primo, Paulo apontava para um em cuja capa aparecia um homem prateado em cima de uma prancha de igual cor – “ele não tem cabelo?” – brigando com um loiro musculoso, que empunhava um martelo. Paulo ainda não conhecia personagens que fariam parte da sua vida – ele nada sabia sobre o Surfista Prateado e o Poderoso Thor. No topo da capa, em letras amarelas, ele lia o título “Heróis da TV”.

- 5 Cr$. – respondeu o homem da banca.

Na época ele ainda não sabia contar direito. Quanto sua mãe tinha lhe dado? Será que dava? Por que não perguntou antes de sair correndo de casa, ansioso pela expectativa de ter seu próprio gibi? E agora?

- Tome. – o homem disse, entregando a revista e pegando todo o dinheiro da mão de Paulo.

Se de fato havia dinheiro suficiente, ou mais do que suficiente – se o homem o havia enganado, sido justo ou beneficente, não importava. Paulo correu de volta para casa, trancou-se no quarto e começou a ler. Nunca mais deixaria de fazer isso na vida.

– Quase todo mundo, quando se fala de quadrinhos, começa da mesma forma: é alguém oferecendo alguma coisa pra você ler.

A frase pode ter um tom de verdade universal, mas carrega certa verdade. E pronunciá-la arranca sorrisos de Amaro, ao recordar de um tempo freqüentemente esquecido ou taxado de irrelevante. Mas essa não é a única verdade que ele carrega consigo.

No Brasil, diz, os que gostam de quadrinhos passaram necessariamente pelos gibis da Turma da Mônica, criados por Maurício de Souza em 1963 – e ele não foi exceção. Mas não havia monopólio, longe disso. Tinha sim uma divisão de atenções, entre a dentuça de vestido vermelho e os quadrinhos da Disney.

– Eu, particularmente, gostava muito de Margarida e Tio Patinhas. Ah! e também tinha as aventuras dos Duck Tales, que era aquela família pato que se envolvia em muitas histórias estranhas.

A lembrança parece ser particularmente agradável. Amaro gesticula e sorri desenfreadamente na mesa redonda em que conversava comigo. Os Duck Tales devem realmente ter empolgado sua infância. Mas aí, “como quase todo mundo na nossa região” – a terceira verdade da conversa – se envolveu com os quadrinhos dos super-heróis. E não quaisquer heróis.

– Os da Marvel Comics. Eu lia muito “Heróis da TV”, aquele formatinho que tinha quase todos os super-heróis da Marvel incluídos lá.

E quais ele mais gostava, nessa miríade de personagens de colantes coloridos?

– Eu lembro que fiquei muito tempo com o Thor e o Homem de Ferro. Aí depois, como quase todo mundo

(quarta – sem comentários)

grudei até não poder mais nos

X-Men o meio pode ter algumas surpresas…

 

entraram na sua vida em 1997. Juliana tinha onze anos. Seu irmão – sempre ele – não estaria em casa pela manhã, e pediu a ela para gravar um desenho-animado da TV. Juliana sintoniza na TV Colosso e aguarda.

A familiaridade pega-a de surpresa. Ela já havia visto aquelas pessoas, aquelas roupas, em algum lugar. E o nome do desenho? “X-Men”. Não era um nome estranho. Enquanto o tempo corria e a fita gravava, Juliana percorria a casa tentando alcançar suas lembranças. Onde? Onde? Banheiro, não. Sala, não. Cozinha, não. Quarto do irmão, não.

Ops!

Ela entra no quarto do irmão – sempre lá – e perscruta o guarda-roupa dele. E vê. Ela sabia! Lá estava uma pilha enorme de formatinhos dos X-Men. Como que intuitivamente imitando um gesto de anos atrás, ela senta-se concentrada e começa a ler.

E a história se repete. Ali tinha drama, um amor impossível – uma moça que não podia tocar em ninguém, inclusive beijar, caso não quisesse ferir as pessoas – questões de aceitação social – “Sempre fui nerd, pobre, feinha…”.

- Com os X-men aprendi a abolir todo e qualquer preconceito que pudesse partir de mim. Sem contar que obtive informações literárias, artísticas, científicas, referências históricas e aprendi a grafia correta de algumas palavras.

Avancemos até 2001. Lá está Juliana, sentada na sala assistindo televisão, quando um boletim urgente irrompe na tela. Atônita, ela observa as duas torres do World Trade Center esfacelarem-se no chão. Corre imediatamente para o quarto e começa a folhear suas revistas. Ainda não tinha o costume de ler jornais, mas sabia que já havia visto aquelas torres em algum lugar.

Ahá!

Triunfante, ela levanta uma edição dos X-Men com o World Trade Center na capa. Começa a reler a revista, anotando mentalmente cada aparição das torres. Era um tipo de atividade bem mais interessante que qualquer pesquisa no Google.

A Internet, aliás, ainda engatinhava quando Amaro deixou os X-men, os “quadrinhos comerciais”, e passou a se envolver com leituras mais “alternativas, autorais”.

Havia no Parque Treze de Maio, em Recife, por volta do fim dos anos 90, um grupo que se reunia periodicamente para discutir quadrinhos. Chamava-se Nanquim – e com ele Amaro se envolveu.

Foi no grupo que Amaro aprendeu a ler os quadrinhos de uma nova forma, enxergar elementos que até então passavam despercebidos. Entrou em contato com as obras da Vertigo e de Alan Moore. Diferentemente de seus colegas, que tinham um perfil mais colecionista, tentava trabalhar os quadrinhos de forma mais direta, “com uma resposta mais nítida e rápida para a sociedade”. Empenhava-se principalmente, em conjunto com o grupo, em descaracterizar o termo gibi, “muito preconceituoso e infantilóide”.

- Para isso, ligávamos para as escolas oferecendo palestras. Fizemos milhares de palestras! – ele pára e olha para o teto por alguns segundos – Tá, eu posso estar exagerando um pouquinho… Dezenas, foram dezenas de palestras. Também contribuíamos com artigos para os suplementos culturais dos jornais locais, para fanzines nacionais… sempre tentando explicar para a população o que eram os quadrinhos.

Imagine que estivéssemos conversando sobre quadrinhos – como agora. Qual a primeira imagem que vem à sua cabeça? Amaro é bastante ilustrativo ao buscar nas suas memórias sua resposta-argumentação.

Era a primeira vez em que ele apresentava uma proposta pedagógica utilizando quadrinhos. No grupo da Nanquim misturavam-se gerentes de comunicação de empresas, acadêmicos doutorados, fãs e escritores. Amaro sugeriu adaptar uma obra literária consagrada para os quadrinhos, como forma de incentivo à leitura das crianças. A resposta dos intelectuais?

“Ótimo! Vamos fazer uma arte para as crianças pintarem!”.

A necessidade de esclarecer a população estava mais do que provada para Amaro.

E ele foi da Nanquim à Academia. Embarcou nas Ciências Sociais para estudar os quadrinhos de uma forma mais completa, não só como expressão artística e comunicacional, mas como – salve a linguagem acadêmica! – “veículo identitário, produção cultural e instrumento de reflexo da sociedade”.

Questiono-o sobre sua dissertação de Mestrado, que versava sobre Holy Avenger, a série de quadrinhos brasileira (excetuando-se a Turma da Mônica, claro) de maior longevidade (42 edições ininterruptas) até hoje. Havia enfrentado preconceitos para adotar os quadrinhos como objeto de estudo?

- (Rindo estrondosamente antes de responder) Se em Comunicação e em Design se encontra preconceito pra lidar com quadrinhos, imagine naquele ambiente seco que é a Sociologia! Tive que suar bastante pra mostrar que o objeto era válido, que podia ser utilizado para se examinar as mudanças sociais, que foi o que fiz com Holy Avanger. Fui o primeiro a trabalhar os quadrinhos como imagem cultural. (Pausa pra coçar o queixo). Sociólogos costumam ser muito chatos.

A opinião de Paulo é um tanto diversa. Integrante do Núcleo de Pesquisas de Histórias em Quadrinhos da Escola de Comunicação e Artes (ECA) da Universidade de São Paulo (USP), ele diz sentir pouco preconceito acadêmico, desde que iniciou pesquisas em nível de pós-graduação com temas ligados a quadrinhos, em 2001.

- O relato de colegas, no entanto, é unanimemente diferente do meu. Logo, devo ser exceção e o preconceito deve existir, sim.

A situação se altera um pouco no meio jornalístico. Paulo atuou na Folha de S. Paulo, na TV Tribuna (afiliada da Rede Globo no litoral sul de São Paulo) e na TV Cultura. Nas mídias impressa e televisiva, conta, ainda há resistência quanto a noticiar quadrinhos, embora isso esteja mudando de uns anos pra cá. Na Internet a aceitação é mais fácil, e não é por acaso que a mídia especializada no assunto se concentra predominantemente nesse meio.

- Mas há um ponto comum em todos os meios: cinema, literatura, teatro, artes plásticas e outras artes sempre foram vistas de forma mais prestigiada se comparadas aos quadrinhos. Isso é discriminatório e atende a necessidades de mercado. Ainda é assim.

 

…já o fim da história…

 

Juliana de Sousa Martins Cristo, 20 anos, lê poucos quadrinhos atualmente. As revistas estão mais caras – o preço médio é de sete reais – e o tempo, mais curto. Ela está no 3º período do curso de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais. Costumava participar de discussões no Fórum Mutação, um espaço virtual criado por fãs dos X-Men para trocar idéias sobre os personagens. As aventuras do grupo mutante renegado pela sociedade rendiam até fanfics, histórias criadas por fãs utilizando seus personagens favoritos. Juliana participou ativamente de uma, “Os Novos Mutantes” – e assim conheceu um garoto chamado Bruno, estudante de Filosofia, com o qual se envolveu por quatro anos. O namoro terminou há dois meses.

Amaro Xavier Braga Júnior recebeu este ano o HQ Mix – maior prêmio nacional na área de quadrinhos – pelo álbum “Passos Perdidos, História Desenhada: a presença judaica em Pernambuco”, na categoria Melhor Contribuição do Ano. Dedica-se atualmente ao projeto de adaptar, “não infantilizar”, trabalhos acadêmicos para os quadrinhos – “Precisamos levar aquele conhecimento que tá guardado, armazenado em gavetas, para um número maior de indivíduos”. Nesse sentido, há dois trabalhos em andamento: a adaptação dos trabalhos do historiador Antônio Gonçalves de Melo, sobre os heróis da revolução pernambucana, e a adaptação de um trabalho na área de antropologia sobre os povos indígenas de Pernambuco. O objetivo é distribuir essas adaptações em escolas públicas.

Paulo Eduardo Ramos, Doutor em Língua Portuguesa pela Universidade de São Paulo, mantém um dos espaços virtuais mais visitados pelos que se interessam pela chamada “nona arte”: o Blog dos Quadrinhos. Seus alunos, embora visitantes do blog, sentem sua falta. “Olá professor! Muito legal o seu blog, pena que eu não comentei antes! Gosto um pouco de quadrinhos, mas da forma que vi aqui, achei legal e não sou mais uma ‘perdida’ (risos). Aliás, quando você vai voltar a dar aulas de português para o pessoal de jornalismo da Metodista?”, questiona uma ex-aluna que se identifica apenas como Silvana. Bom, ele pode até voltar, mas torçamos para que não abandone os alunos que agora estão desse outro lado.

…talvez não exista.

Até a próxima edição.

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