À flor da pele

Terça-feira, 8 Janeiro, 2008 at 11:56 | In Giselle Silvério | 5 Comments
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A importância da cultura africana na formação do brasileiro

Um lugar longínquo, numa área de difícil acesso, perdido no tempo e no espaço, habitado por descendentes de escravos negros fugidos imersos numa estrutura social à margem da vigente. Seu símbolo? O Quilombo dos Palmares, liderado pelo famoso Zumbi. Essa é a idéia que a maioria dos brasileiros tem do que é uma área quilombola. A visão senso comum ensinada na escola pelo professor de história, que os escravos rebelados isolavam-se nessa região, permanece viva na mente das pessoas mesmo passado mais de um século após a assinatura da Lei Áurea, que pôs “fim” à escravidão no Brasil.

Atualmente, mais de mil comunidades quilombolas sobrevivem no país, acesas e atuantes, respaldadas pela Constituição Federal de 1988, a qual reconheceu a área habitada pelos descendentes de escravos como “remanescente das comunidades dos quilombos”. Uma denominação que mostra como a questão é encarada no país: algo nostálgico, distante. Vide dicionário remanescente é resto. Uma zona quilombola seria então um resíduo de algo que já existiu.

Um fato que muitos desconhecem é que, na época em que o sistema escravocrata era adotado no Brasil, havia quilombos nascidos não do desejo de se ocultar dos senhores de engenho por meio do isolamento, mas fomentados por uma identidade étnica partilhada por um grupo que possui uma ancestralidade comum, elementos religiosos e lingüísticos afins.

No Engenho Trapiche, no Cabo de Santo Agostinho, região metropolitana do Recife, é isso que se vê. Pessoas ligadas pela cultura, pela ideologia, que se autodefinem pertencentes a uma camada distinta da sociedade. É quase impossível a quem nunca foi a um quilombo, não possuir uma noção pré-concebida errônea da comunidade. Mas, Trapiche desmistifica a associação entre quilombo e afastamento. É um local que surpreende pela sensação de acolhimento, um daqueles lugares aonde a gente vai e se sente em casa. Os sorrisos brilhantes no rosto dos moradores, o andar ritmado das mulheres, as trancinhas na cabeça das crianças, as conversas espontâneas, o chão de terra, tudo faz quem visita Trapiche sentir-se também um pouco parte dele.

Os crespos cabelos brancos e a voz experiente de quem muito já viveu e aprendeu não negam que Dona Ceça é uma das moradoras mais antigas da comunidade quilombola. Ela repassa aos menores um pouco da história dos seus antepassados. Conta as histórias dos bisavós africanos, fala com alegria das “belíssimas angolanas” enquanto faz trancinhas no cabelo da menina que se prepara para uma festinha na escola. Trapiche possui creche, escola e vários cursos, como culinária, dança e capoeira que relembram e mantêm vivas as tradições dos bisavós de Dona Ceça.

Os antepassados da velha senhora foram arrancados de sua terra, colocados em um navio sem nenhuma higiene, submetidos a castigos, obrigados a adaptar-se a uma nova cultura, como nossos ancestrais também o foram. Nossos sim, afinal, como canta Sandra de Sá “todo brasileiro tem sangue crioulo”.

Apesar de o brasileiro ter uma história marcada pela tentativa de afastamento de suas raízes africanas e aproximação com a Europa, o Brasil herdou muito dos costumes dos escravos negros. Não é nenhum mistério o “embraquecimento” da população promovido pela vinda de colonos italianos ao país entre 1880 e 1930 ou o fato de os times, há um tempo atrás, aceitarem apenas brancos como jogadores. A seleção brasileira de futebol campeã da Copa de 1958 é um exemplo. Liderada por Bellini, que mais parecia um ator hollywoodiano, dava vez aos negros quando não havia brancos para ocupar a posição. Uma polêmica no país é o sistema de classificação de cor promovido pelo IBGE, no qual muitos brasileiros não se declaram como negros.

Contudo, como se identificar com um ancestral mostrado como submisso, ou com o índio preguiçoso? Evidentemente, quando ensinam nas escolas que o nosso país é formado na união de três raças principais, vamos pender para a européia, para o herói desbravador, conhecedor do nosso idioma e pertencente à “civilização”. O brasileiro cresce sem conhecer a história e a cultura da África, construindo um preconceito consolidado na ignorância e na prática eurocêntrica de ensino. Espera-se que o panorama se modifique com a Lei 10639/03, a qual torna obrigatório o ensino de História e Cultura Afro-brasileira e as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana.

Esses poucos exemplos ratificam que o afro-brasileiro sempre foi marginalizado na nossa sociedade. Quando aqui chegaram, os parentes de Dona Ceça foram excluídos da riqueza, do prestígio social e até da dignidade. Mas não foi impossível impedir que os negros trouxessem suas crenças e seus sonhos à nova terra. Eles a carregavam na alma, único lugar onde podiam levar seus pertences. Em vez de se submeterem à posição de inferioridade a qual estavam destinados fizeram da cultura sua forma de expressão e resistência. Aprenderam um novo idioma e deram a ele “o remelexo melado melancólico” do nosso português. Tomamos cachaça, comemos quitutes, fazemos bagunça e dengo, usamos cacimba, cochilamos e não dormitamos como os portugueses. “Somos um país de cultura negra para o desespero dos racistas”, declara Sueli Carneiro, do Instituto da Mulher Negra.

Em Trapiche, muitas meninas dançam ritmos como o axé, por conta de um curso de dança existente na comunidade que as ensina a balançar ao som dos ritmos africanos. Elas movimentam o corpo como se ele estivesse impregnado por uma energia diferente, dando a cada parte um abalo distinto e harmônico. Além do axé, outros ritmos musicais africanos ou de influência africana são parte da cultura brasileira ou bastante difundidos aqui, como o maracatu, o lundu, o blues, o frevo, o samba, o rap, o mangue beat, o batuque, o coco, o soul, o pagode, o hip hop, as congadas, o calypso, o reggae e o jazz. A prática cultural brasileira de maior difusão em todo o mundo é a capoeira, um tipo de cultura corporal que é uma forma de luta, brincadeira, malícia, dança, expressão de fé e resistência. O pequenino morador do Trapiche, com apenas dois anos de idade, ao ouvir a palavra capoeira, tenta jogar, levantando os pés, ensaiando pulos, mexendo as mãozinhas, já demonstrando sua ginga característica.No âmbito da religião, o preconceito é muito forte devido ao desconhecimento da população acerca das religiões de matriz africana e da predominância do catolicismo no Brasil, o qual originalmente condenou os cultos dos escravos. Até hoje as crenças africanas são encaradas com estranhamento, medo, receio, incredulidade. Macumba, por exemplo, virou sinônimo de má sorte, coisa ruim. Na comunidade quilombola do Engenho Trapiche, várias religiões são cultuadas. Dona Ceça é católica praticante. No entanto, seus bisavós trouxeram com eles o culto dos orixás em conexão com as forças da natureza, denominado Candomblé, que é baseado nas religiões tribais africanas. O assunto é tão importante que a programação de novembro (mês comemorativa da consciência negra) em Pernambuco iniciou com uma passeata contra o preconceito religioso. A I Caminhada dos Povos de Religião de Matriz Africana e Afro-brasileira contra a Intolerância Religiosa, com a abordagem “Esta luta é nossa, vamos dizer não a discriminação e a intolerância religiosa”, realizada no dia 1/11/2007 na Praça Oswaldo Cruz, na Boa Vista.

Na culinária, o negro deixou a feijoada, o mungunzá, o vatapá, o cuscuz, a moqueca, a pamonha, o acarajé, a cocada, o caruru, o bolinho de estudante, o sarapatel. Todos os quitutes feitos a sua moda, que se tornou nossa: em panela de barro, com colher de pau. Fez com que seus temperos sobressaíssem e logo fez com que o brasileiro apreciasse o leite de coco, a manteiga de garrafa e o azeite de dendê, além de consolidar a preferência pela pimenta malagueta ao invés da do reino.

A recuperação dessa identidade cultural e étnica afro-brasileira é um dos principais objetivos dos movimentos negros no Brasil. Desde que os africanos chegaram ao país sofreram um processo de deculturação de suas tradições originais expresso no esforço para impedir a manifestação da sua cultura e bloquear sua transmissão. A identidade negra, muitas vezes, não é enfatizada por não ser considerada positiva. A maioria dos brasileiros se considera pardo, moreno, mulato e não negro. O racismo é muito presente no Brasil. Não um racismo explícito como em outros países, mas um racismo disfarçado, o qual é muito mais difícil de combater. A mídia valoriza e perpetua o modelo branco de pensamento. O problema é tão vivo, que em 1951, surge a Lei Afonso Arinos, estabelecendo penas para atos discriminatórios em público. A Constituição de 1988 considera o racismo um “crime inafiançável”.

As desigualdades sociais não são o único legado do sistema escravocrata para a sociedade brasileira. Quando não foram dadas oportunidades aos negros após sua libertação, eles tiveram que se sujeitar a todo tipo de trabalho e passaram a morar no que hoje são as favelas, destinados à periferia da sociedade, refletindo uma das características mais marcantes do Brasil: a exclusão social.

Até hoje o negro é excluído na sociedade brasileira. Essa questão é estrutural, vem desde a Lei Áurea, que libertou os escravos, mas não os incluiu na sociedade, não lhes ofereceu dignidade e trabalho. Nascia um povo livre, mas marginalizado. Os ex-escravos foram despejados numa sociedade preconceituosa e cheia de etiqueta. O resultado é a disparidade existente entre negros e brancos quanto ao salário, educação, criminalidade, tipo de trabalho, etc.

Movimentos, associações, instituições lutam por ações que beneficiem os afro-brasileiros, medidas que, de alguma forma, “repararem” a dívida social e histórica que o Estado brasileiro tem com os afros-descendentes. Em Pernambuco não poderia ser diferente, uma vez que é notável a presença viva da cultura afro-brasileira no Estado. Para se ter uma idéia, a economia açucareira pernambucana, na época do Brasil Holandês, absorvia anualmente cerca de 4000 negros trazidos de vários pontos da África. Há muitos locais em Pernambuco que contam um pouco da história negra ou consolidam-se como espaço de discussão sobre questões raciais. A Sociedade de Mulheres Negras de Pernambuco, a Associação Negra de Pernambuco, o Museu da Abolição e a ONG Daruê Malungo são alguns poucos exemplos.

O Museu da Abolição existe há 30 anos e é Centro de Referência da Cultura Afro-Brasileira vinculado à 5ª Superintendência Regional do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). O Museu conta com peças da época do sistema escravocrata, por meio das quais pretende transmitir ao visitante valores de outro tempo, num processo de revisão crítica, permitindo ao mesmo tempo, a relação com a situação atual do negro na sociedade. Apesar disso, o Museu permaneceu fechado no dia da Consciência Negra, 29 de novembro, data destinada a manifestações e reflexões sobre condições de vida dos afro-brasileiros e que fomenta ações em prol do respeito às diferenças e da igualdade social.

Perderam os pernambucanos e também perde todo o brasileiro que não procura conhecer a cultura e a história da África e que só sabe da miséria do continente africano noticiada pela mídia. Quem deixar a África de lado não conhecerá realmente o Brasil, pois, como disse Gilberto Freyre, todo brasileiro carrega na alma a influência direta ou vaga do africano.

5 Comentários »

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  1. os negros no brasil tem mutios pre comseito bjssss

  2. Parabéns pelo texto, Ele fala o que realmente é esse Brasil tão racista.Essa lei é um pouco contraditória em alguns casos, mas é o essencial para que os estudantes de hoje em dia, conheça a real história da Brasil, o seu real antepassado.
    Mais uma vez parabens..sempre que estiver coisas novas sobre esse assunto, adorarei receber!

  3. Parabéns pelo texto.Gostei muito.Pois nós brasileiros temos uma grande dívida com nossos irmãos afros e quando houver igualdade entre todos nós seremos um verdadeiro país.
    Gostaria muito de receber artigos históricos sobre a nossa Pátria, sou uma leitora assídua de tudo o que se refere ao meu país.

    Marlene

  4. Eu acho que o testo e dos negros mas fla dos brancos tambem,acho que as pessoas falao dos negras e os brancos descriminao o preto mas nao lenbran o que os pretos falao dos brancos isso tem que ser divulgado na internete.
    Eu sou branca mas eles tem que ver que tem preto que nao gosta da sua propia cor!
    Obrigado.

  5. we vao todos tamaren no cú por que eu nao li nada do testo!!!
    kkkkkkkkkkkkkkkkkkkk


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