Flanelinhas do Recife

Terça-feira, 8 Janeiro, 2008 at 0:20 | In Camila Lima | Leave a Comment
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Eram quase 20h. Noite de espetáculo no Teatro Santa Isabel. Grande movimento nas redondezas. Chega mais um carro querendo estacionar. Era um gol preto, quatro portas. Ao volante, um homem barbudo, usando óculos, vestido com uma camisa de botões azul escura, calça e sapatos sociais. Parecia ser bastante sério. Ao seu lado, uma mulher bonita e no banco traseiro, três jovens que pareciam ser filhos do casal. O fluxo de carros era intenso. Esperava por uma brecha. Inicialmente parecia ter dúvida se o carro caberia ou não na vaga, mas não demorou muito para que ficasse claro que aquela baliza só seria possível suspendendo o carro e o encaixando entre os outros dois como se encaixa uma peça de Lego. O motorista continuava a tentar. Ao fundo ouvia-se os gritos dos jovens: “Não cabe!”, “Não cabe!”, “Vai bater.”, “Vai bater!”. Bateu.

Em poucos segundos – o motorista ainda tentava desencostar o seu carro do de trás – outro homem dá umas batinhas no vidro da porta dianteira esquerda. Este vestia uma regata azul clara e uma bermuda cinza, usava óculos, tênis e meias altas. Com a maior pose e um tom arrogante diz para o motorista: “O senhor quer ouvir as minhas instruções ou não? Se quiser… consegue sair fácil”. Por um instante acreditei que o motorista iria agredi-lo, mas o seu orgulho pareceu estar tão ferido por não ter conseguido fazer a baliza que não reagiu.

Se você mora no Recife certamente deve conhecer fatos semelhantes. Quem, nessa cidade, nunca se irritou com um flanelinha? As histórias são diversas. Motoristas que bateram por causa das indicações deles; pessoas que não puderam estacionar sem o pagamento prévio; que já sofreram ameaças ou tiveram seus carros danificados por não pagarem o que lhes foi exigido… Existem, também, aqueles que confiam piamente nos flanelinhas dos locais que costumam freqüentar, que deixam a chave do carro e objetos de valor no poder deles. Apesar de raro, tem até quem se sinta mais seguro estacionando na presença deles.

Lucas Cardim, estudante de jornalismo, 20 anos, por exemplo, assume que para estacionar a ajuda de outrem é sempre bem vinda, mas afirma que hoje em dia já não consegue confiar nos flanelinhas – “Não confio neles porque ajudar o motorista deixou de ser pré-requisito curricular. Então, qualquer um pode ser flanelinha… não tem mais aquela técnica, aquele gingado de ajudar o motô. Uma vez que eles só querem o dinheiro, é um assalto velado”. Já Filipe Fernandes, 19 anos, também estudante de jornalismo, tem uma relação de interesse com os flanelinhas – “Dependendo da situação da vaga, preciso deles… quando a vaga é difícil gosto deles, sim, mas quando a vaga é fácil e eles só querem meu dinheiro, não gosto, não”.

É verdade que existem flanelinhas honestos que precisam sustentar a família com a atividade e que realmente auxiliam os motoristas. Porém a grande questão é que cobrar pelo estacionamento em locais públicos pode se tornar um mecanismo de extorsão e, portanto, caracterizar-se como um crime. É ilícito utilizar o espaço público como privado. A dificuldade é estabelecer mecanismos eficazes para coibir essa prática. O soldado da Polícia Militar de Pernambuco, na ativa há quase dez anos, Antônio Vicente, que participou da “Operação Flanelinha” no carnaval do Recife de 2005, diz que essa questão é bem complicada. Configura-se crime a tentativa de extorsão por parte do flanelinha, mas para que ele seja detido é preciso a prova do crime – no caso o dinheiro – a queixa da vítima e ainda testemunhas. “Por se tratar de uma pessoa de classe inferior, se o flanelinha chegar numa delegacia com certeza vão achar alguma coisa para complicar a vida dele. É uma tarefa complicada para o policial, muitos companheiros em situações semelhantes vão dizer que é melhor deixar isso para lá, porque você prende um, vem mais dez. Muitas vezes, alguns flanelinhas desejam que outros sejam presos, pois só assim conseguirão os pontos que almejam.”

No geral, eles ignoram a presença da polícia e os motoristas não querem se dar o trabalho de prestar queixa e enfrentar toda a burocracia e o desgaste para denunciar a extorsão. Sabe-se da falta de estrutura das delegacias para prestar um serviço de qualidade. Assim, sob essa e outras justificativas, o cidadão, apesar de insatisfeito, alimenta o dito vício de extorsão.

A queixa mais recorrente relacionada a eles é o fato de se comportarem como donos das vias públicas ou como se fosse impossível estacionar sem a sua “ajuda”. Niara Tavares, psicóloga, conta que já foi vítima – “Certa vez fui à Exposição de Animais e tinha muita gente. Os flanelinhas estavam felizes, pois não tinha mais lugar para estacionar. Consegui um lugar, estacionei e o cara queria que eu pagasse dez reais adiantados para que ele guardasse o carro. Me recusei e discuti com ele, que não se paga serviço adiantado e pagaria quando saísse. Ele ficou aborrecido, mas aparentemente conformado. Quando voltei para pegar o carro já era noite e não reparei – digo, não dava para enxergar detalhes. Ao chegar em casa, vi que meu carro estava bastante arranhado na porta do meu lado. Senti-me refém. Além de caro, o pagamento teria que ser antecipado. Caso você não se submeta é punida. Existe uma diferença entre pedir e impor, não sou refém de bandidos. Corro os riscos, mas não pago. Desemprego eu entendo, necessidade eu entendo, mas abuso de poder como donos da rua não vou entender.”

O policial militar Antônio Vicente, que também já foi vítima da violência
praticada por flanelinhas, acrescenta que a sua experiência como policial o fez enxergá-los de uma outra maneira. Diz que os flanelinhas são excluídos socialmente e, em geral, têm um convívio constante com a violência e com atividades ilícitas nos locais onde moram. Portanto, mesmo optando pelo trabalho, ao invés de partilhar dessas atividades, tentem a ter um nível de agressividade diferenciado. Ele sabe da necessidade de compreender a história de vida deles. O fato de estarem praticando extorsão não pode ser isolado do contexto social em que estão inseridos. Mas, como policial, diz não poder ser responsabilizado por isso – “Não posso chegar num ambiente e deixar de proteger um cidadão de bem pra proteger um cara que, pela realidade de vida e pelo convívio social tá extorquindo, tá agredindo. Eu tenho que tomar uma atitude, infelizmente, a realidade é essa. A gente chega pra cumprir ordem. A realidade policial já mudou muito e a gente começa a pensar também no outro lado da questão… esse cara tá aqui… mas onde deve morar? No Campo do 11, em Santo Amaro, na Ilha de Joaneiro, na favela de João de Barros. Ele podia tá ali vendendo drogas e até atirando na gente, mas tá aqui, pedindo uma miséria, às vezes, para ver se come, se humilhando, se expondo e ainda podendo ser preso por causa de uma atitude ilícita dessa”. Enxerga os flanelinhas e os motoristas como duas classes ignorantes: os primeiros não entendem a situação daqueles que se sentem intimidados e extorquidos assim como estes não entendem a situação daqueles que extorquem e não têm condições dignas de trabalho – vítimas de privações extremas. No meio dessas duas “classes” fica a polícia para tomar atitudes. Em geral, os que pagam impostos são beneficiados em detrimento daqueles que não têm nenhum amparo legal para a atividade que executam.

Alguns possuem apoio de seguranças ou vigias de bares próximos aos seus locais de trabalho. Jenilson, de 21 anos, trabalha na rua transversal à do conhecido restaurante Tepan, na Encruzilhada. Ganha, em média, R$ 80,00 semanais e explica que se trabalhasse no fim de semana ou na própria rua do restaurante ganharia mais, porém seu ponto aos sábados e domingos pertence a outro e o da “rua principal” também já tem “dono”. Seu Marcos. Um senhor de 51 anos com aparência de mais de 60, que em mais um domingo de trabalho usava, além de bermuda, camiseta e chinelo, a tradicional flanela nos ombros. Cuidava de dois pontos – já que o menino que trabalha com ele havia faltado – e, apesar do movimento tranqüilo, estava “ocupado demais para qualquer conversa”.

Questionado sobre o que aconteceria se alguém invadisse o ponto de um deles, Jenilson é enfático e direto na resposta: “Rolava pau!”. Explica que aquela área é organizada pelos seguranças do Tepan, que não deixam que nenhum flanelinha invada o ponto do outro em troca do apoio de todos eles em casos de assaltos ou confusões em torno do restaurante. Simpático, completa que não se incomoda quando os motoristas não pagam, fica chateado apenas quando o ignoram. Relata, ainda, que aquela velha história de “amigo, na próxima te pago por essa também” acontece realmente – “Às vezes nem lembrava da pessoa e ela diz: toma aí por essa e pela outra que fiquei te devendo”.

Marcelo Ignácio de Oliveira, homem gordo e alto, 28 anos, que palitava os dentes enquanto conversava, fortaleceu o que Jenilson havia dito. Apesar de trabalhar como segurança do Tepan há apenas quatro meses, diz que os flanelinhas daquela área são confiáveis. Tanto eles quanto os seguranças da noite trabalham ali há anos e têm uma relação de cumplicidade. Se virem alguém suspeito avisam aos seguranças para que fiquem atentos. “Ocasionalmente, cedem seu ponto por dois ou três dias para amigos, nessas situações não existe problema” – explica Marcelo. Ressalta haver uma credibilidade conquistada, contando casos de clientes do restaurante que esqueceram objetos de valor – como celular, chave do carro e bolsa – ou deixaram o carro aberto e não tiveram nada roubado e ainda foram alertados pelos flanelinhas. “Por isso é tão importante que a área não seja invadida por outros” – finaliza.

Em outro dia, em frente ao Tepan, estava Germano, homem forte de aparentes 40 anos, de cabeça achatada, sem um dos dentes da frente e com rugas na testa. Trabalha ali há seis anos. Tinha as mãos grossas de trabalhador braçal e dificuldade para se comunicar. Parecia ter alguma deficiência mental e falava com euforia, o que dificultava a compreensão. Se mostrou muito solícito, ofereceu o serviço de lavagem de carro, cobrando R$ 5,00, e disse possuir carteira de trabalho e reservista. Só ficou frustrado ao descobrir que não se tratava de uma proposta de emprego. “Eu largaria guardar carros por qualquer outro emprego” – disse ele pedindo para que lembrasse dele em caso de ofertas de trabalho.

Assim como Germano, Seu Antônio, que trabalha como segurança nas redondezas da Rua da Praia, parece não gostar muito do ofício de flanelinha. Devidamente uniformizado, com um colete preto e boné, tinha um olhar intimidador, uma expressão de poucos amigos e um tom ríspido. Fez questão de enfatizar que não era flanelinha, era segurança das lojas! Depois de alguns minutos de conversa – já havia até tirado as mãos do bolso – explica que apesar de não ser flanelinha, ganha dinheiro, também, estacionando carros. “Como o estacionamento está dentro do meu trabalho mermo… não eu ia perder uma colher dessas, né?” – fala com um sorriso largo e um aparente tom de orgulho por ser um cara tão esperto.

Como conseguem a “posse” das áreas em que trabalham não se sabe ao certo. Há histórias de pontos de estacionamento, que são passados por hereditariedade. O caso de Ednaldo Pereira, de 26 anos, é exemplo delas. Trabalha há seis anos em frente ao restaurante Caprinus, no bairro dos Aflitos, e ganha em média R$ 25,00 semanais. Fanho, tem certa dificuldade de comunicação, explica que aquele ponto um dia pertenceu a seu pai e agora, por direito, pertence a ele. Afirma não ter medo de perder a área, pois sabe que em caso de invasão os outros flanelinhas das ruas próximas o ajudariam a expulsar o invasor.

Já Pirese, que sustenta a família apenas com a atividade e trabalha há doze anos em uma rua por trás do Paço Alfândega, no Recife Antigo, diz não conseguir lembrar de como começou a trabalhar ali, pois as muitas noites acordado o deixaram com amnésia. Demonstra a credibilidade do trabalho que executa ao citar que ele e seus dois companheiros de trabalho são cadastrados pela Prefeitura da Cidade do Recife e, portanto, têm licença para atuar naquele local.

Ainda de acordo com ele, há uma fiscalização do trabalho a partir do cadastro. Se acontecer algum problema com os carros que estão estacionados ali: arrombamento, roubo ou danificação, são chamados para dar explicações. Não tem muita clareza de como funciona essa fiscalização ou como aconteceu o cadastramento. Sua única certeza visível é serem os responsáveis por aquela rua.

Ao entrar em contato com as Assessorias de Comunicação da Prefeitura da Cidade do Recife e da Secretaria de Defesa Social do Estado de Pernambuco (SDS) ficou claro que não é apenas Pirese que não tem muita clareza sobre o funcionamento dessa atividade. A Assessoria de Comunicação alega que a prefeitura realmente participou do cadastramento em 2005, mas que a fiscalização e o prosseguimento da operação ficaram a cargo da SDS. Por sua vez, apesar da boa vontade explícita dos atendentes da Assessoria de Imprensa da SDS, não é possível, “nessa época” – final do ano, conseguir informações sobre a política relacionada aos flanelinhas. De acordo com Denise Benvindo, responsável pelo setor de Cartas, o único que, provavelmente, poderia esclarecer questões relacionadas ao assunto seria Manoel Caetano, o Gerente Geral de Articulação Institucional, que anda “muitíssimo ocupado. A assessoria de Imprensa não tem tido condições de atender todas as demandas de fim de ano nos prazos esperados” – diz ela.

Os próprios jornais da época não publicaram detalhes sobre o cadastramento e fiscalização dos flanelinhas. De acordo com matérias do Diário de Pernambuco e do JC-On line e do próprio Diário Oficial do Estado de Pernambuco a iniciativa de cadastrá-los para atuarem no Recife Antigo partiu de uma idéia do então Secretário de Defesa Social, João Braga. Os guardadores de carros foram inscritos pela Polícia Militar e cadastrados no Instituto Tavares Buril (ITB). João Braga afirmou ter encontrado uma solução criativa para os flanelinhas ao fazer o cadastramento e obrigar a exposição do crachá. Explicou que a medida não era uma formalização da função de guardador de carros, mas uma forma de a sociedade fiscalizar esse tipo de atividade. Os que estivessem atuando sem o crachá de identificação seriam levados para averiguação e poderiam pegar de seis a dez meses de prisão. Enfim, a iniciativa visava a identificar os trabalhadores informais para o caso de transtornos com os motoristas.

Não existia um perfil prévio traçado para que fossem cadastrados, bastava apenas não ter antecedentes criminais. Já a fiscalização da atividade era atribuição da Polícia Militar. Hoje, na gestão Eduardo Campos, não há a continuidade dessa política de cadastramento e fiscalização, também não há registros, segundo a Assessoria de Imprensa da SDS, de qualquer outra política relacionada ao assunto.

Impor os limites nas atuações dos flanelinhas do Recife não é tarefa fácil. Já houve até discussão na Câmara de Vereadores, em 2001, sobre um projeto que pretendia disciplinar a atuação deles nos estacionamentos da cidade, mas até hoje nunca houve uma implantação efetiva, pela prefeitura, de uma política nesse sentido.

O próprio João Braga admitiu, na época do cadastramento, que apesar de existirem muitos pais de família entre os flanelinhas havia também entre eles um número elevado de criminosos. O limite entre a legalidade e a ilegalidade nessa atividade é muito tênue. Não é crime auxiliar motoristas ou pedir dinheiro por isso, mas é ilegal constrangê-los ou ameaçá-los no intuído de receber pagamento por um serviço, não oficializado, e muitas vezes não requerido.

Pela longa história de falta segurança e de estrutura para se estacionar com tranqüilidade no Recife, os motoristas se conformaram em pagar para que os flanelinhas executem, ou finjam executar, um serviço muitas vezes desnecessário. Eles não têm a menor condição de garantir a segurança dos veículos, e os motoristas sabem disso. Na verdade, proprietários de carros no Recife têm duas opções: ou se preparam para ter um gasto adicional significativo com a segurança, deixando-os sempre em estacionamentos privados com credibilidade no mercado – que dependendo do bairro são bastante raros – ou vivem em uma constante negociação com os flanelinhas para conseguir convencê-los a não danificarem seus carros, pagando o menor preço possível por isso.

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