Malu e Alice no épico dos exotismos
Terça-feira, 8 Janeiro, 2008 at 11:57 | In Luís Fernando Moura | 2 CommentsTags: Alice, Conceição, das, Malu, maravilhas, morro, país
À 1h da manhã do domingo, na Galeria do Ritmo, pudemos enfim compreender o que se passava ali. As quatro paredes do salão gigante, sem janelas, e quase sempre nuas deixavam sobressair, sobre qualquer juízo, o universo dionisíaco que nos inundava. Notei, acima das cabeças, quase todas dançando, as inscrições “Palácio do Samba”, em letras garrafais, e logo me senti num templo grego cheio de perversões. Acho que as quis. A divindade representada era Miguel Arraes, com seu rosto gravado, em largas dimensões, na parede que tangenciava o palco. No seu centro, pastores-DJs lançavam música brega e cubana sobre a pista. Por pouco não esqueci que a estrela da rádio pop daquela semana era uma santa católica.
Do lado de fora, eu e o resto da equipe prosseguíamos no deslumbre. A festa decisiva é a que alguns chamam de profana, outros de pagã. Outros, provavelmente, de simplesmente festa, ou de cachaça, ou de cerveja, ou de brega, ou de pagode. O pagode da Santa. É difícil escolher a palavra certa para dizer o que vê um olhar preconceituoso. Naquele momento, depois de um dia e meio morando naquele lugar, à estranheza se juntou um certo nível de apego. Mas, quando o morro tornou-se um pouco família e a festa embebedou toda a equipe, já era quase hora de ir embora e deixar aquele terreiro com a lembrança de uma experiência antropológica, de um tom fantástico quase sempre culpado por reforçar o exotismo das distinções.
Novembro, Mercado da Boa Vista. À mesa de bar, de onde se escutava um samba clássico de rádio e um programa de auditório local em um aparelho de TV qualquer, eu devia mastigar um pedaço de galinha quando alguém, de sopetão, sugeriu que fôssemos ao Morro da Conceição no dia 8 de dezembro para produzir um vídeo. A vontade era de articular uma operação-relâmpago e registrar a Festa de Nossa Senhora da Conceição sob um tratamento autoral. Já sabíamos que a festividade guardava toda espécie de contraste. No morro, as vozes contraditórias e o teor controverso dos rituais parecem mais se completar que se anular. De toda forma, Deus e o Diabo discutem vorazmente com a intimidade de dois amantes. Não é loucura, talvez somente uma espécie ingênua de heresia.
A festa reúne centenas de milhares de pessoas, entre fiéis, devotos, penitentes, cristãos praticantes e não praticantes. Àquelas ladeiras e escadarias – o local tem vários acessos – também convergem devotos de religiões afro-brasileiras, que têm, na imagem da Virgem da Conceição, o símbolo de Iemanjá. Mas o paradoxismo ainda surgirá. A mistura tipicamente brasileira das religiões, entre crentes em qualquer quê, um espiritualismo polissêmico e uma oração que guarda diversas acepções, não vive sozinha naquele espaço. Toda boa festa cristã tem seu carnaval atrelado. A todo seguidor de Moisés cabe um pouco de ouro e de vinho. No Morro da Conceição, à novena de missas intermitentes e louvor católico, segue um furor mundano do prazer.
Estivemos no morro dias antes da festa para conhecer as vias, as paisagens, os espaços e as pessoas. Teríamos de filmar por várias horas seguidas, com pausa apenas para refeições e repouso, o que demandou esforço na articulação da equipe de produção. Conseguimos alojamento para passar a noite dos dias 7 e 8, além de pontos de apoio em casas de moradores e estabelecimentos comerciais. O set de filmagem estava enfim montado, e o que seria documental se tornara um imenso estúdio industrial. No Morro da Conceição, a inscrição Hollywood é uma possível maravilha contemporânea. Do Bar de Seu Cazuza vê-se, lá embaixo, a Los Angeles pernambucana e suas regiões claramente delineadas. Espaços onde o mar de casas se amontoa são interrompidos pelos imensos edifícios residenciais. No oceano metropolitano, aquele local se revelaria um mundo fantástico onde Lewis Carroll perdeu sua Alice negra e católica. Naquela festa, além de freira, ela poderia ser também travesti. E o mise em scène tinha um quê de neo-realismo.
Na noite da sexta-feira, 7, as câmeras se fundiram àquele espaço dicotômico. Velas, santas sem castidade, devotos, espécimes estranhos carregados de um drama exageradamente humano, a missa pop. Num palco montado ali na praça central, a inscrição “Festa do Morro da Conceição” dividia o espaço com os balões publicitários dos patrocinadores. O rosto de Malu Mader, quase tão sacra quanto a santa?, era praticamente tão presente na paisagem quanto a imagem daquela, sob o suporte do Café Santa Clara. Perguntei-me sobre a identidade de um homem que, do palco, cantava para a multidão. Ali, músicos, padres, freiras e indefiníveis se reúnem para louvar a Nossa Senhora, durante dias seguidos. Mas a pirotecnia nos céus e a acrobacia do altar improvisado estruturam um tipo sofisticado de espetáculo da religião. Como que anunciando a desritualização do catolicismo tradicional, uma freira registrava o evento com uma câmera amadora, de cima do palco, ao passo em que sambava junto às canções interpretadas por uma equipe de padres, cantores e cantoras. De repente, uma outra freira desafinava ao arriscar um backing vocal. Usava aparelho nos dentes.
“Vem Maria vem!, Vem Maria vem!”, reverberava em ritmo de axé music uma canção. Por trás do palco, um muro cercava a região onde uma nova igreja será construída. Ao lado, a imagem imponente da santa sem compaixão, da qual os pés esmagam a serpente do pecado. Cinco metros e meio de altura, quase duas toneladas, Maria Santíssima repousa, de pé, sobre o globo terrestre, o semblante caridoso, observando as pessoas. A cobra em que pisa promete uma destruição dos males. O cinismo é bem-vindo, como a impressão megalomaníaca de que a fé permitirá que nos joguemos ao fogo do inferno na esquina ao lado, decorada com as cores da cachaça Pitú.
A equipe irrompe pelos corredores movimentados. O comércio é intenso e não pára. Se o evento começa ainda no dia 29 de novembro, nosso registro videográfico é o puro clímax das festividades, e é, portanto, o êxtase do público, o desabroche do comércio, a festa do consumismo informal. Cada plataforma tem seus estandes, barracas e mesas onde se compra de muita coisa. Uma senhora entusiasmada vende chapéus, cigarro na mão. “A partir de 5 reais, a partir de 5 reais”, repete. Mas a oferta é grande, a chapelaria tem o luxo de uma corte marginalizada e o acervo de quepes para os súditos. No mais, velas, terços, santas em miniatura, PP, P, M, G. Extragrande, apenas a original, portuguesa, que desembarcaria no Brasil do século XX, muitas décadas antes, em longas vestes em azul e branco, para reinar sobre o Recife, de bem alto. Durante todo o evento, desfilariam as réplicas forjadas de seu figurino, vestidas nos corpos cristãos de inúmeras mulheres.
“Hosana nas alturas”, cantou o padre, e a multidão seguiu. Do meu lado esquerdo, entre quadros emoldurados de Jesus Cristo e de Nossa Senhora, vislumbrei o rosto raro de Bruce Lee em meio aos ícones. Logo mais à frente, o Sagrado Coração de Jesus dividia espaço com uma Ferrari vermelha, mitológica. Malu reacendeu na minha memória. “Hosana nas alturas”, repetiu-se o refrão, e passou por mim um pagador de promessas, de joelhos, arrastado, caminhando em direção à santa. “Hosana nas alturas” e, andando de costas, uma mulher curiosamente sorriu para a câmera. Quando o verso ecoou pela última vez, um comprido recipiente queimava. Um homem, com um extintor de incêndio, atacou as chamas que morriam com os aplausos. Ali, perto da Santa, estavam fincadas duas construções de cimento onde os fiéis depositavam suas velas. Ao lado, o corpo de bombeiros fazia plantão à espera do corriqueiro incêndio. Nossas lentes quase queimaram junto à supersaturação de cera que o sacralismo da devoção consumia. Um desperdício, a olhos laicos. Ainda que sincero. A uns, pois, o puro fogo. A outros, o álcool já queimava o suficiente. Fogos dissimulavam a natureza do céu e do chão, nos altares, nas faíscas dos brinquedos no Parque de Diversões que ficava no pé do morro.
Até o fim da década de 1950, o grande carnaval do morro ocorria no alto, em meio às festividades religiosas. Mas o despotismo cristão deportou o paganismo para a planície, lá embaixo. Pegamos um ônibus no Terminal da Macaxeira, para onde tínhamos nos deslocado. Nossa chegada foi triunfal, sobre o piso do quase-subterrâneo inferno onde se aglutinava uma multidão medonha. Subiríamos as escadarias com as câmeras ligadas, aliviados porque neste céu não há porteiro. Fomos paparazzi de nosso próprio projeto célebre. Procurei logo bons coadjuvantes para co-estrelar o épico contemporâneo, e percebi que toda a população havia se engatado na fila para uma ponta. Após os trunfos de cada noite, fosse por reza ou por droga, o ópio de cada um fazia brotar uma extroversão de personagens de talk-show, uma inibição para reality shows e o poder mimético dos artificialismos em blockbusters. As objetivas de nossas câmeras tornaram-se públicas.
A Avenida Norte, principal via de alta circulação de acesso ao morro, estava tomada de gente. A poligamia nas dezenas de botecos inflava um arquétipo animalesco do ser humano, donde longe (ou não tão longe?) caminham os evangelhos. O som inflamado do pão e circo generalizado rompia qualquer espécie de silêncio, contra o qual se debatiam os comerciantes, gritando “espetinho, cerveja, hot dog”. Nas margens da avenida, e ao longo de quilômetros, rodas-gigantes, pula-pulas, trens-fantasma e toda sorte de brinquedos engenhosos formavam o celeiro circense da tecnologia. “Quem vai querer a minha periquita?”, gravava o microfone da câmera uma música de fundo, enquanto uma menina, provavelmente uns 8 anos de idade, rebolava perto do carrossel de caminhõezinhos. Não longe, um homem comia um cachorro-quente.
“Já foi melhor, já foi melhor”, disse para a câmera. A manhã do sábado se aproximava e o que se pode reportar, ali da praça principal, onde policiais traçavam uma vigilância falha e perdida sobre o acesso às arquibancadas do morro, era um misto de resto e de expectativa. Porque o sol do dia 8 enfim nasceria, e o crepúsculo ao avesso era a preparação para um clímax onisciente. Àquela altura, flagramos os transeuntes que iam já embora, muitos bêbados, os remanescentes e também os recém-chegados, ainda frescos, espertos. Garotos e garotas se amontoavam nas passagens, vendendo velas. Algumas pessoas compravam caixas inteiras, queimavam-nas inteiras, sem nem abrir a embalagem. Entregamos o microfone às crianças, e elas improvisavam propagandas de suas mercadorias. “Essa é a melhor vela, é a mais bonita, é a vela Santo Antônio”. O garoto sorridente demonstrava menos cansaço que sua mãe, sentada logo ali, semblante amargurado.
Seguindo o trajeto de volta às alturas, pelas escadarias ou rampas, havia mães, filhos, avós, em geral mais mulheres e crianças que homens adultos, sentados ou deitados ao longo das calçadas, neste ou naquele degrau. Por mais improvável?, talvez incrível, a lente das câmeras passou a ser objeto do fetichismo daquelas pessoas, na subversão da ordem do exotismo. A experiência do olhar se inverteu de alguma forma e, através do visor, percebi que eles me filmavam. O céu azul escuro, um pássaro inaudível cantava e uma senhora já despertava para procurar um pão duro em uma sacola de poliéster. O resto observava.
O reino dos mendigos é o reino das sacolas de poliéster. A verdade, aliás, é que sua política não tem rei, e sim a acomodação natural de líderes de um socialismo sem que haja o que dividir. Há a dinâmica bárbara de ser, vagando pelos espaços que lhes restam, rendendo quase sempre o choque moral das classes. Aqui, quando se implora pelo altruísmo alheio, é em busca do mínimo para que se estabeleça a sociedade. No morro, o mais do menos e o menos do mais se confudem através do comportamento libertário: há tudo o que se ver. Se impressionarem as diferenças, entenda-se: todo mundo quer pão. Todo mundo quer ver e ser visto.
Vista grossa, chamou atenção uma outra sacola, o céu já anil. O material era o mesmo, mas o conteúdo não. Um velho, mal posicionado nas escadas, resmungava. “Eu também sou cidadão. Quer ver meu documento? Deixa eu pegar meu documento”, sugeria. Após alguns minutos, reclamava mais, e mais angustiado, um “não acho, não acho”, enquanto o sol nascia.
Mesmo com a claridade, os terraços das casas permaneciam lotados numa dimensão paralela. Qualquer música de rádio, um CD gravado no som alto. Sobre os muros, ou através das grades, pessoas assumiam um tom convidativo. “É da Globo, é?”, e ofereciam copos de cerveja. Coexistiam, na mesma composição fotográfica, a festa desvairada do álcool, crianças, velhas inertes, devotos sacrificados. Uma mulher subia os degraus com a pele cheia de chagas. Outra acompanhava um cego com cuidado. A calçada da fama resistia à disparidade das graças e dos sofrimentos, ou talvez só assim ela se consagrasse. No coração do morro, a missa prosseguia. “Maria, cheia de graça e consolo, venha caminhar com teu povo”, ouvi o pedido na canção. Descobri logo o rosto de Malu, ainda uma vez, entre os religiosos, e caminhei com a equipe para tentar dormir, na escola em que estávamos alojados. A missa infinita deixou-me acordado, morro não é dormitório.
A postos, ainda na manhã do sábado, Dona Carminha preparava o almoço para os seus netos. No terraço coberto, um menino e uma menina corriam de lá para cá. A garota segurava uma boneca loira, o garoto brincava com um gato, atiçando-o com um pedaço de plástico, a marca Visa inscrita. Carminha mora no morro há anos, a festa tornou-se parte da rotina. Despeito do movimento no entorno daquela casa, seu neto segura um boneco, o gato brinca com a lente da câmera, estranhando, a menina penteia os cabelos. A panela de pressão grita e a dona imerge no universo ínfimo de seu lar, oprimido por cercas de todos os lados. De suas janelas, vive uma das vistas mais bonitas do morro, donde se vê toda a cidade embaixo, entrecortada por mais retalhos de uma geografia irregular. Desta maneira, com a luz forte, as cores se tornam supersaturadas, e o clima carnavalesco reassume seu lugar com ainda mais vivacidade. As ladeiras, mais cheias, contornam o espaço repleto de concavidades, a arquitetura urbana contemporânea, um ar caótico, o clima quente, vermelhos fortes.
Assim seguem nossos personagens. Seu Severino estava em casa, a primeira da história de sua rua, ele afirma. “Subo e desço isso aqui todo dia. Fundei isso aqui há mais de 50 anos”. Das oito décadas de idade não críveis, um sorriso bonito, a disposição, o convite. Aceitamos um copo d’água, obrigado, e ele discursa em direção à objetiva. Atualmente, transformou sua casa humilde em pousada gratuita para amigos que vêm conhecer o evento. “Tem uns amigos do Ceará aqui, mas tá todo mundo na festa”. Há a viuvez, mas há também o pertencimento. Tom engraçado na voz de um homem não tão solitário.
Numa rua próxima, recebeu-nos a bisneta da mulher que, surgiam boatos, é a mais velha do morro. Não se sabe. A figura de 98 anos encalacrada em seu quarto meio escuro, inconsciente e quase despida não cumprimentou. Falou por ela sua família, várias crianças devastando os espaços do casebre, algumas, suas tataranetas. Uma menina pequena se assustou com a filmadora. Na sala minúscula, todos reunidos de pé assistindo a uma festa de aniversário de 15 anos, quiseram me mostrá-la. Pensei se eles acreditavam ser, aquela festa passada, num VHS carcomido, mais interessante que o evento que explodia lá fora. Fogos no céu. O almoço estava pronto. A missa prosseguia. A cerveja também. Tudo (fora do) (no) seu devido lugar.
“Elza! Elza! Elza!”, gritavam os clientes de um bar para uma transeunte. Era a negra Elza, sorrindo com a boca e com os olhos, acenando. A blusa feminina jogada sobre seu corpo, um ar maternal. Entrou logo no bar para cumprimentar seus fãs, a câmera atrás. Seria nosso show musical, o início de um espetáculo fantástico, um interlúdio, a Broadway interrompida pelo que é credível no espaço eclético do morro, rebocada para a diegese humana. Elza virou-se para a câmera e iniciou a apresentação, voz grave, o registro soturno de um Deus irônico, “Quem és tu? Quem foste tu? Não és nada! Se na vida fui errada, Tu foste errado também”: afirmou excitada na canção. Os aplausos pediam bis, mas Elza é feminina exata e, bolsa no ombro, agradeceu e partiu, com decência e glamour, sobre seus passos de mulher por opção do homem, e não do deus.
Na outra esquina, um tenor cego fazia, da gaita, ópera. Entre os mendigos, repousava tranqüilo numa calçada, observando o mundo com os ouvidos. Os globos oculares brancos e a pele enrugada, cheia de manchas, desviavam o olhar da criatura para revelar o que havia de mais precioso. Da rua inóspita, esquina de ladeira, podia-se escutar seu instrumento musical, regrado pelas harmonias que lhe faziam sentido. Não havia tristeza, teria por quê? Ali perto, meninos de rua berravam “roubaram a feira, ela é ladrona de feira”! À câmera, discorriam numa denúncia criminal: uma mulher roubara as sacolas de uma mendiga. Mas o homem cego não se compadeceu.
Na era da tarde do sábado, o mundo todo costumava esperar pela procissão. Àquela época, os spots de luz incandesciam a paisagem na qual a multidão disputava espaços vazios. Uma miniatura da Santíssima Virgem chegaria, do Sítio da Trindade, através dos acessos da ladeira principal, para encontrar o arranjo de gente à espera ansiosa, no centro do morro, ao lado do palco. O padre anunciava, a corte se preparava, os guardas se dispunham no alerta sagrado, o exército de Deus pronto. Tradicional: a santa enfim chegou, a missa tomou rumos diferentes – exaltação, louvor e homenagem, ou o que os católicos chamavam a todo instante de amor. A procissão seguia, a imagem sagrada no alto, os fiéis atrás, na frente, dos lados, das janelas. Em meio ao êxtase generalizado, pude contemplar uma placa de metal onde vi exposto o anúncio do Café Santa Clara, na ocasião decisiva. Pouco atrás da santa, alguém o transportava, mãos ao alto, imagem exposta, para qualquer lugar. Malu estava lá, tão firme quanto Nossa Senhora, a mesma expressão fraterna, a mesma maternidade pulsiva. Era a síntese do sarcasmo pop, o auge de nosso vídeo exaltado. Malu Mother.
Articulei minhas impressões. Não olhei mais para a santa. O ritual que se prossegue é de uma devoção entregue, sem pudores. As missas se sucedem ainda por toda a madrugada. As pessoas rezam, amarram fitinhas com promessas no suporte da construção monumental – a santa portuguesa, abençoam crianças. Esqueci que algumas choravam, olhando em direção à câmera. Outras mais fechavam os olhos, e me constrangiam. Senti-me, enfim, exaurido. Batia uma espécie de cansaço em toda a equipe, mas poupava a disposição da curiosidade. Teríamos mais uma noite para nos debruçar sobre os paradoxos da Conceição, explorar o choque moral e desenvolver as posturas de nossa ética, desconstruir as identidades de tudo, de todos. Já havíamos dado bons passos.
Noite adentro, quase rastejamos pelas ruas, pré-meia-noite, à procura de um espaço para sentar e conversar. Na madrugada do domingo, o morro é completamente tomado pela profanidade, pela inserção banal do mundo na euforia, e o prazer é pesadamente honesto. De todo ângulo, os bares eram muitos, as casas estavam abertas ao comércio, mesmo no alto, naquelas ruas que desbravávamos, como que já acostumados. Desprovidos de câmeras, de repente nos integramos ao sistema. Sem procurar ninguém, fomos achados. O samba no Bar da Fátima brincava, arriscando nos maiores clássicos de gafieira. A galera aplaudia, derrubava maneirismos em performances arrebatadoras. Quando começou o funk, as mulheres quase se esfregaram no chão. O brega desbancou qualquer fineza frívola que restasse ali, e pensei que talvez pudesse acompanhar os créditos do nosso filme. Logo em seguida, aliás, derrubei o filtro cinematográfico por meio do qual me escondia de intimidades, abandonei a rigidez da análise, a frieza da investigação e resolvi admitir que aquilo me fascinava. Saindo de bar em bar, observei o letreiro “Galeria do Ritmo” à minha frente. Resolvemos entrar.
Alice, negra e católica, estava dançando.
2 Comentários »
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Entries and comments feeds.
malu quantos anos vc tem??
qual é a sua nacionalidade?
qual é a sua profissõs?
vc tem uma filha?
qual é o nome dela?
quantos anos ela tem?
aonde ela nasceu?
me responda pur favor!
isso é uma pesquisa da minha escola(educap)
Comentário por gabriella gorayb — Domingo, 21 Setembro, 2008 #
Olá,
Genial seu texto. Tenha certeza que, me transportei para o morro na narrativa. Farei um documentário acerca da festa do morro, o sagrado e profano que acontece lá. Assim como vc, obserei essa inter- relação que ocorre no morro, mundos divergentes que se conectam pela fé na Imaculada em um lado e pela fé em “Cecinha” do outro ponto.
Comentário por Simone Oliveira — Quinta-feira, 24 Setembro, 2009 #