Memórias da Copa de 1950 em Pernambuco
Terça-feira, 8 Janeiro, 2008 at 22:50 | In Breno Pires | Leave a CommentTags: 1950, Breno, copa, futebol, Lemos
A cada quatro translações completas da Terra em torno do Sol, acontece um fenômeno que encanta todo o planeta. Constelações de cinco galáxias distintas se alinham, e a humanidade contempla o bailar das mais resplandecentes estrelas. Essa congregação de astros leva cerca de um mês para chegar ao seu ápice, que é assistido em tempo real por mais de um bilhão de pessoas em todo o mundo. Ocasionalmente, esse espetáculo é apontado como o maior da Terra. Trata-se da Copa do Mundo de Futebol – é claro.
Recentemente, o Brasil foi escolhido para sediar a Copa do Mundo de Futebol de 2014. As expectativas sobre ela já começam a povoar a imaginação do brasileiro. Feitas no presente, as projeções para esse futuro razoavelmente próximo nos remetem ao passado distante de 1950, quando o Brasil recebeu o torneio pela primeira vez. O interesse pelas memórias da Copa do Mundo de 1950 – tempo em que ela ainda não era tão mundial, tampouco este era o “País do Futebol” – volta à tona, forte. E, para satisfazê-lo – ou talvez fomentá-lo -, nesta série de reportagens especial, o leitor vai encontrar relatos e lembranças da melhor fonte possível: gente que viveu aquela época. Época que marcou o Brasil e um sem-número de brasileiros, como Lucídio, Therezinha, Lenivaldo e Fernando.
Pernambuco. Santa Cruz do Capibaribe, Bonito e Recife. 1950. Três homens fortemente vinculados ao futebol, de maneiras particulares; uma mulher que presenciou o transtorno que o desfecho da Copa causou. Memórias. Lembranças que, de uma forma ou de outra, marcaram as vidas desses indivíduos. Lucídio Oliveira, Lenivaldo Aragão, Fernando Menezes, Therezinha Navarro.
No agreste pernambucano, as ondas do rádio semearam frutos jornalísticos e literários. Lenivaldo e Lucídio: um jornalista, outro médico. Dois escritores e contadores de história de primeira qualidade. Dois dos maiores expoentes da literatura futebolística nordestina. Na capital, Fernando desfrutou da oportunidade ímpar de acompanhar – com os próprios olhos – uma partida de Copa do Mundo. Mais do que isso: colaborou na concretização desse sonho pernambucano. Já Therezinha, apesar de não ter uma relação forte com o futebol, vivenciou – em decorrência da derrota do Brasil para o Uruguai – um acontecimento que jamais poderia esquecer.
Hoje senhores e senhora, Lenivaldo, Lucídio, Fernando e Therezinha contam em que medida o evento lhes marcou a vida. Cada um à sua maneira, todos tiveram experiências muito significativas e fazem um relato daquele tempo sob sua ótica particular, além de trazerem uma interessante reflexão sobre o papel do futebol na sociedade brasileira.
O Futebol, Lenivaldo e o título que “foi sem ter sido”
A Copa do Mundo de Futebol é, em todo o planeta, um símbolo de união – tanto nacional quanto internacional. No Brasil, a sua função de vetor da unidade nacional é ainda mais relevante. Aqui, quando se pensa em Copa, imaginam-se trajes e bandeiras das cores verde e amarela, grande quantidade de torcedores reunidos e ruas completamente desertas, com exceção das guarnecidas de telão. Em se tratando de futebol, no entanto, não é só em torno da seleção nacional e do time do coração que as pessoas se reúnem e compartilham experiências importantes. Seja numa Copa do Mundo, seja numa pelada de rua, o futebol, em si, é, por excelência, um mecanismo de integração pessoal.
“Um ponto de convergência, um ponto de aglutinação” – é assim como o jornalista Lenivaldo Aragão começa a falar sobre o futebol. “O garoto com cinco anos (muitas vezes menos) começa a jogar com os coleginhas… Ele vai crescendo, vai jogando bola na escola, às vezes passa por uma escolinha infantil”, relata. “E aí já se tem esse lado congregador, de sociabilidade, de congraçamento, dos intercâmbios”, observa. Lenivaldo é um exemplo do que ele fala. Quando criança, em Santa Cruz do Capibaribe, no agreste pernambucano, esse jornalista celebrizado no estado pela admirável capacidade de contar histórias do passado, os famosos causos do futebol, sempre com bom humor e talento, também cresceu batendo bola. E era sempre o “chefe do time”, quem organizava tudo, embora admita que não era grande coisa jogando bola. “Mas dava pro gasto”, alega, sorrindo.
Foi em sua terra natal que acompanhou a Copa do Mundo de 1950. Na verdade, mal a acompanhou: garoto de dez anos numa pequena cidade interiorana, via o futebol como pura diversão – ainda que a levasse a sério. Só mesmo no dia da final entre Brasil e Uruguai, o futebol passou a fazer parte da vida de Lenivaldo enquanto esporte profissional. “Eu tinha uns primos mais velhos, e eles estavam comentando: ‘A essa hora já deve estar cheio… Muita gente…’, e eu fiquei curioso: ‘Deve estar cheio o quê?’. Eles disseram que o Brasil ia disputar a Copa do Mundo com o Uruguai, e eu fiquei interessado”, conta.
Como Santa Cruz do Capibaribe era um lugar muito atrasado, onde “contava-se a dedo” gente que tinha rádio (“três pessoas ou quatro, no máximo”), Lenivaldo teve de se mexer para ouvir a partida. “Fiquei numa loja onde tinha um rádio, um rádio grande (um antigo rádio Philips a válvula), e algumas pessoas escutando”, lembra-se disso, mencionando um problema: “de vez em quando, a onda ia embora”. Depois da derrota inesperada, o Brasil inteiro caiu em tristeza. Mas a pequena Santa Cruz do Capibaribe não… E ninguém melhor que Lenivaldo para contar esta história.
“Preparou-se uma girândola para soltar comemorando o título de campeão do mundo pelo Brasil, e, terminado o jogo, ficou aquela pergunta no ar: ‘o que é que vai fazer com essa girândola, com estes fogos?’”, começa Lenivaldo a narrar o ocorrido. “Quer saber? Bota fogo nisso aí. Já que trouxe e não vai adiantar, vai fazer o que com esses fogos? Bota logo fogo aí!”, disse alguém, resolvido. E botaram. “Daqui a pouco começou a pipocar! Eu nem sabia se ia pra rua comemorar… Todo mundo pulando, pensando que era vitória”, relembra, com um enorme sorriso no rosto e os pequenos olhos ainda mais fechados. “Ou seja, Santa Cruz do Capibaribe foi a única cidade que terminou comemorando o vice-campeonato. A cidade para que o Brasil foi campeão sem ter sido”, conclui, com a voz levemente exaltada dado o poder da lembrança dessa história que ele próprio classifica como “tragicômica”.
Essa e outras histórias estão presentes em seus dois livros de “causos do futebol” – No Pé da Conversa, de 2003, e Comigo ou Sem Migo, de 2006. Esse trabalho de resgatar deliciosas histórias que poderiam ser esquecidas pelo tempo iniciou-se no final da década de 1980, quando Lenivaldo trabalhava no Jornal do Commercio. Ele tratou de reviver a coluna No Pé da Conversa, que mantivera por algum tempo no Diario de Pernambuco, quando retratava o lado de dentro do jogo, os comentários elogiosos ou desaforados de jogadores, técnicos e juízes dentro do gramado, algo que os torcedores não podiam ver. No Jornal do Commercio, porém, a coluna teve conteúdo diferente: os causos do futebol que o têm consagrado até hoje. O texto leve e bastante agradável trazendo fatos pitorescos do futebol – e até de outros esportes – tornou-se marca registrada desse guardião da memória esportiva pernambucana. Lenivaldo, como jornalista, trabalha com o factual e com a novidade; como escritor, no entanto, tem o dom de eternizar o passado.
Fernando Menezes e a Copa do Mundo no Recife
Em 2 de julho de 1950, as seleções nacionais de Estados Unidos e Chile se enfrentaram na cidade do Recife no estádio Adelmar da Costa Carvalho, popularmente conhecido como Ilha do Retiro. O jogo – válido pela primeira fase da 4ª Copa do Mundo de Futebol, realizada no Brasil – foi um acontecimento singular tanto na história do futebol pernambucano, quanto na do futebol do Norte-Nordeste, por ser o único realizado nessas regiões brasileiras em uma Copa do Mundo. E foi histórico também para um certo Fernando, que teve o privilégio de assistir à partida – e de uma maneira especial.
Com quinze anos na época, o hoje respeitado jornalista e também escritor recifense Fernando Menezes presenciou o jogo e viu a vitória do Chile sobre os Estados Unidos por 5 x 2; mais do que isso, colaborou na reforma e ampliação do estádio, sem a qual a partida não poderia ser realizada. “A minha lembrança maior da Copa de 1950 no Recife é que eu fiz parte do grupo de voluntários do Sport Club do Recife (eu era torcedor do Sport) na remodelação da Ilha do Retiro, para que se pudesse fazer a Copa”, conta. “Eu me sentia parte, quer dizer, eu tinha alguma coisa a ver com isso”, diz, orgulhoso. “Isso me marcou muito”. A honra, entretanto, não foi só de Fernando. Viram-se muitos cidadãos carregarem tijolo, cimento, a ajudar. Torcedores – de pedreiros a diretores do Clube – formaram um verdadeiro batalhão para tornar concreto esse sonho pernambucano.
Fernando lembra bem do ambiente do Recife no contexto dessa partida especial. “A cidade estava ligada, atenta ao jogo. Havia uma grande expectativa, até porque era uma grande novidade”, rememora. O interesse se refletiu em um grande público: “Foi um jogo muito concorrido, tinha muita gente no estádio para a época”. Fernando não esconde que a partida em si não era das mais atraentes. “As pessoas foram ao jogo mais pelo orgulho de ter um jogo da Copa do Mundo aqui”, avalia ele, que guarda a lembrança mais pelo caráter participativo que pelo valor contemplativo.
Naquela época, no Recife, uma das únicas alternativas de entretenimento era o futebol, que – na visão de Fernando – já era popular. “Antigamente, o lazer era curto… Você ia pro cinema, pra matinê do Cinema São Luís, por exemplo, ou você ia pras regatas, em que havia uma disputa tão furiosa quanto era no futebol”, conta ele, com a mesma agilidade de memória que demonstra em seus livros, como Coisas do Recife e o recém-lançado As entranhas do domingo. Sua outra vertente profissional é o jornalismo esportivo, em que – como colunista do Jornal do Commercio – trabalha há algumas décadas. Embora alegue ter entrado “por acaso” nesse meio, sempre teve no esporte – principalmente no futebol – um aspecto fundamental em sua vida.
O futebol profissional começou a fazer parte da vida de Fernando desde cedo. Na ocasião do primeiro jogo a que assistiu – o clássico Náutico x Sport -, ele tinha entre 12 e 13 anos. “Já faz um bocado de janeiros”. O gosto pelo esporte foi herança de família, transmitido de geração em geração. Do mesmo modo, seus filhos e netos são rubro-negros de carteirinha. De origem humilde, em dia de jogo na Ilha do Retiro “ia andando e voltava andando e, com o dinheirinho do ônibus, tomava um picolé lá. Para aliviar o enorme calor das três da tarde”. Se, antes, tomava “um sol de arrombar”, tão logo se tornou homem de imprensa passou a chegar em cima da hora. “Aí tudo foi ficando mais sofisticado ainda, e eu acabava vendo pela televisão”. Alguns jogos, não: “é preciso que você vá lá pra sentir o clima”. Nada se compara à presença in loco: “futebol é pra ver no estádio”.
Fernando destaca a importante presença, na única partida da Copa realizada no Norte-Nordeste, de figuras ilustres do mundo da bola, como o presidente da Fifa daquela época, o francês Jules Rimet, a quem se refere como “o homem que inventou a Copa do Mundo”. Seu próprio nome, a propósito, foi dado à taça que era entregue ao campeão de cada Copa até que, quando uma seleção alcançasse o primeiro tricampeonato mundial, receberia o troféu em definitivo – e foi o Brasil, em 1970. Além de Rimet, estiveram presentes Mário Pollo, o presidente da Confederação Brasileira de Desportos (CBD) – que antecedeu a CBF -, o governador de Pernambuco, Barbosa Lima Sobrinho, e o prefeito do Recife, Manoel César de Moraes Rego – que, a propósito, era um apaixonado por futebol, mais precisamente pelo Náutico, clube que presidiu em cinco mandatos. Tudo isso emoldurou o acontecimento, o jogo, no Recife, que – se não teve tão alto valor plástico e contemplativo – representou muito para parte da sociedade recifense e para a história do futebol em Pernambuco como um todo, especialmente para aqueles que colaboram para torná-lo uma realidade, que, até hoje, é motivo de orgulho.
Lucídio, a Copa e as lembranças
À partida Chile x Estados Unidos, diferentemente de Fernando Menezes, nem todos os interessados tiveram o privilégio de comparecer, de ver de perto. A solução, nesse caso, foi ouvir através do rádio. E era por esse meio que, em Pernambuco, se “assistia” aos distantes jogos da seleção brasileira, realizados no Centro-Sul nacional. Foi justamente “pelas ondas do rádio” – como diria o hoje médico aposentado Lucídio Oliveira – que a maioria dos brasileiros, ele inclusive, acompanhou a Copa.
Natural de Bonito, cidade que fica entre a Zona da Mata e o Agreste Setentrional de Pernambuco conhecida por suas belas cachoeiras, Lucídio relembra com grande precisão do dia em que o Brasil goleou a Espanha por 6 x 1 na semifinal da Copa do Mundo. Ele conta que, pelo fato de que pouca gente tinha acesso ao rádio em sua pequena cidade, ele e alguns amigos – “gente jovem ainda sem barba e sem dinheiro, mas com a paixão pelo futebol capaz de mover montanhas” – deram um jeito de esse jogo, que ficou conhecido como o das “touradas de Madri”, ser ouvido pelo maior número possível de moradores da cidade.
“Armamos um esquema rudimentar, mas ousado, precursor do ‘telão’, ou melhor um telão sem tela, somente áudio. Era o que bastava”, diz. “Um rádio possante daqueles grandões de antigamente foi levado para uma casa velha no centro da cidade, diante do aparelho um microfone encarregava-se de levar o que falava o locutor, porta-voz de nossas esperanças na caminhada em busca do título, a um alto-falante instalado num poste no meio da rua”, explica a engenhosidade. Ele conta que centenas de torcedores, “com os ouvidos bem abertos e os corações aos pulos”, escutaram a partida e vibravam a cada gol, perguntando se tinha sido mais um do centroavante Ademir Menezes, por quem tinham um carinho especial, já que ele também era pernambucano.
À partida inicial da fase decisiva da Copa – Brasil x Suécia -, todavia, Lucídio nem deu tanta atenção. Diz que até poderia ter ouvido o jogo na casa de alguma pessoa amiga, mas que não se sentia tentado. “É que na hora do jogo, a bola para mim estava rolando bem longe do Maracanã. Corria mansa, minha e à disposição dos companheiros de pelada, no campo que ficava nos arredores da cidade em meio a um cercado de vacas leiteiras, o campo de Dona Bela”. E vê isso como uma coisa impossível de acontecer nos dias de hoje. “Os apelos da mídia e a comoção nacional em torno da seleção canarinha não permitiriam tamanho disparate, verdadeira heresia. Eu e os amigos da pelada seríamos queimados em praça pública”.
O Brasil, como se sabe, perdeu a final tragicamente para o Uruguai, deixando escapar o primeiro título mundial. Apesar disso, Lucídio avalia como muito importante a experiência que o futebol brasileiro – seja no campo, seja na arquibancada – obteve graças a essa Copa. “A CBD – como se chamava a atual CBF – trouxe para o Brasil árbitros ingleses para apitar no Rio-São Paulo, nos anos de 48 e 49, para que os jogadores e o torcedor fossem se acostumando às arbitragens européias, que é o que iria acontecer na Copa do Mundo”. Alguns desses árbitros vieram para Pernambuco apitar jogos e finais de campeonato. “A final de 49, Sport e Santa Cruz, que era decidida numa melhor de três, contou com um inglês na decisão do campeonato, chamado Stanley Roberts”, conta, com memória impressionante. “Então houve uma mudança tremenda no futebol pernambucano”, observa.
Lucídio sabe lidar com as palavras. Para além do campo médico, é também escritor. Sua literatura é esportiva – e da melhor qualidade. É autor de dois livros sobre o futebol, um especificamente sobre o Náutico (O Náutico, a Bola e as Lembranças), outro sobre o esporte em Pernambuco (Paixão e Fidelidade). Seu estilo de escrita é sempre elogiado por quem tem o privilégio de conhecê-lo. Com uma memória penetrante, um texto bem-elaborado e clareza nos detalhes, Lucídio é um dos grandes responsáveis por manter vivas as lembranças dos gramados do passado. Um verdadeiro bastião da retaguarda intelectual que ampara o futebol do estado, principalmente o Clube Náutico Capibaribe.
O olhar de Therezinha sobre o Recife na Copa
No universo da bola naquela época, eram raros os sinais da presença feminina. “O futebol era majoritariamente um esporte de homem”, como lembra Fernando Menezes. Alheias ao futebol, as mulheres viviam um mundo bem diferente do dos homens. Entretanto, mesmo que de forma indireta, elas não deixavam de ter alguma espécie de relação com o esporte.
Testemunha, ou melhor, participante dessa realidade foi uma moça chamada Therezinha. Nascida em João Pessoa, no vizinho estado da Paraíba, mudou-se ainda criança para o Recife, onde fincou raízes e reside até hoje. O olhar que lança sobre o cotidiano, sobre o lazer e sobre as atividades culturais da cidade mostra-se importante para se compreender um pouco mais do Recife daquela época. Um contraponto ao Recife do futebol, do Santa Cruz, do Sport, do Náutico e do América, clube que ainda não havia sido extinto.
Therezinha tinha 18 anos em 1950. Morava em Casa Forte e considerava o bairro muito agradável. “A Praça de Casa Forte era bonita e bem-cuidada nessa época. As vitórias-régias eram bem bonitas”, diz. Ela lembra que estava num lento processo de transição da adolescência para a fase adulta. “Naquela época era tudo mais devagar”, começa a contar, em sua residência no bairro da Torre. “A gente tinha uma vida muito limitada, muito fechada. Casa, colégio, cinema, namorado, mas aquilo muito restrito. Minha vida era isso”, diz ela, que gostava tanto de ler que, no fim do ano, só pedia livro de presente.
Ela confessa que tinha pouco interesse pelo futebol, mas nem por isso ele deixou de fazer parte da sua vida. Garante que costumava freqüentar o Clube Náutico Capibaribe: “Papai era sócio, e a gente ia sempre”. E não era pelo futebol… “Gostava do Náutico mais pelo clube social”, conta, aos risos. Ela refere-se às festas, aos bailes – principalmente os de carnaval – que aconteciam no clube do bairro dos Aflitos. Se ela era alvirrubra ocasionalmente, seu pai era um eterno fanático. Não perdia um jogo do Náutico nem deixava de ouvir os jogos da seleção. “Ele tinha um rádio daqueles grandes, deste tamanho, e ficava ali junto do rádio, escutando as partidas de futebol”. E vem dele a maior lembrança de Therezinha no que se refere à Copa de 50. Um fato que foi muito marcante para ela e representativo do crescente envolvimento dos cidadãos comuns com o futebol.
Era o dia 16 de julho de 1950. Para a historiografia esportiva, o dia da final da Copa – Brasil x Uruguai. Para Therezinha, o dia de Nossa Senhora do Carmo, que ela, sua mãe, suas três irmãs e o irmão foram celebrar numa procissão na Avenida Conde da Boa Vista. “O centro da cidade cheio de gente. Muita gente”, diz do evento, que, a cada ano, atraia milhares de devotos, e nem a final da Copa do Mundo pôde mudar isso. “Se fosse hoje em dia, a cidade não estaria cheia de gente numa procissão; estaria todo mundo colado nas televisões, assistindo ao jogo. Mas naquela época não tinha isso”, observa, apontando como principal motivo o fato de a Copa ainda não mobilizar tanto as pessoas naquela época. No entanto, o que Therezinha viveu de marcante naquele dia ainda estava por vir.
No caminho de volta da procissão para casa, ela ouviu comentários de que o Brasil, apesar do clima de vitória que precedeu a partida, havia sido derrotado pelo Uruguai. “Eu me lembro que minha mãe já ficou preocupada pelo fato de papai ter ficado sozinho em casa tomando cerveja, que ele gostava, e ouvindo o jogo”, conta. Chegando em casa, encontrou uma cena que jamais poderia esquecer. “Era pedaço de rádio pra todos os lados, e de cadeira também. Ele estava com raiva mesmo, uma irritação terrível. Ainda estava furioso quando nós chegamos. E já tinha quebrado tudo”, relata. “Não quebrou mais porque não pôde, porque o que ele podia quebrar ele quebrou. Móveis mais pesados ele não podia, mas cadeira e rádio…”, comenta, aos risos, que só são possíveis hoje, graças ao tempo, capaz de transformar traumas em lembranças curiosas e até engraçadas.
No Recife da época, Therezinha, sempre atraída por cultura, costumava visitar o Departamento de Cultura Popular (DPC), que ficava na Avenida Guararapes. “Eu ia muito com minha amiga Gracinha para lá, para ouvir música. A gente ia, e cada uma ficava numas cabines individuais, ouvindo a música que queria ouvir”, conta ela, que adorava música clássica e popular. Ela recorda a ótima acústica do ambiente, a confortável poltrona… “Tudo isso de graça, sem ninguém pagar nada”, ressalta. Passava meia hora, passava hora e meia, e se divertia demais.
O cinema era outra diversão para a juventude da época. E para Therezinha também. “Sempre gostei muito de cinema”, conta ela, que costumava assistir aos musicais da distribuidora cinematográfica americana Metro Goldwin Mayer. “Tinha o Cinema Moderno, tinha o São Luiz, o Parque, e, logo depois, vieram o Art Palácio e o Trianon”, enumera as opções de cinema na cidade, fazendo a observação de que o Parque – hoje Teatro do Parque – era um cinema naquela época, em que ir ao cinema era um programa de família e que, muitas vezes, depois dos filmes, ia para a sorveteria andando mesmo. “Com tranqüilidade, sem medo de violência ou assalto”.
Assim era a vida de Therezinha na época da Copa de 1950, em que o futebol, já bastante popular, caminhava para a consolidação como paixão nacional, fazendo parte da vida de todos, seja diretamente, como para Seu Aluísio, pai dela, seja indiretamente, como para ela mesma.
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