O Imaginário Pernambucano nas olarias do Cabo

terça-feira, 8 janeiro, 2008 às 23:03 | Publicado em Rafael Filipe | 1 comentário
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O elevador descia vagaroso. Era velho, não combinava com a nova fachada do prédio. O endereço era Avenida Boa Viagem, edifício Segóvia, 4700 – o trecho com o maior Índice de Desenvolvimento Humano do Recife, devido ao elevado padrão de vida comparado ao de países como a Noruega segundo a ONU. Quando se abriram as portas do elevador, entrei num salão com sofás e poltronas de couro e metal e mesas de centro com peças de vidro, um ambiente muito elegante. Por toda parte havia delicados vasos e bolas decorativas – tudo feito de cerâmica, inclusive as flores. Ao lado de cada peça, havia uma pequena etiqueta que trazia uma gravura de um homem trabalhado e as palavras “Cerâmica do Cabo”. No verso, havia a logomarca do projeto Imaginário Pernambucano. Assim que bati o olho, lembrei do encontro que tive com os artesãos que modelaram aquele barro, e com a equipe de designers que trabalhou com eles nas olarias para dar nascimento a cada peça daquelas.

Estive com os artesãos lá no Mauriti, bairro popular do município do Cabo de Santo Agostinho, Pernambuco. Quem me conduziu até as olarias foi própria a equipe do projeto Imaginário Pernambucano.

Cheguei por volta das nove horas no Centro Cultural Benfica, prédio anexo da Universidade federal de Pernambuco (UFPE), onde está a sede do Imaginário. Um táxi esperava. Uma mulher de cabelos muito vermelhos e cacheados e curtos e armados e soltos vinha trazendo seus olhos perspicazes, caminhando em minha direção. Usava um vestido justo, que mais tarde eu viria a saber que era habitual ao estilo dela, um colar grande, óculos largos, o rosto bem vermelho. Os movimentos rápidos dos braços curtos, das pernas curtas, da altura pouca do corpo firme, os movimentos diziam tudo sobre o quão enérgica era aquela mulher. Falava alto e sorria muito, livre. Veio com ela um homem magro de cabelos poucos e lisos e curtos e arrumados de lado e suaves. O seu tom de voz era firme. Usava uma calça com bolsos clara, uma camisa de uma cor só, um tênis. Tinha uns vinte e poucos anos, o jovem design, a metade do que aparentava ter a mulher que já esperava na porta do carro, rindo de alguma coisa. Nos cumprimentamos e entramos no táxi.

Ana Andrade tinha uma expressão preocupada. Estava indo ao Cabo naquele dia para uma reunião com a prefeitura. Iriam conversar sobre a relação entre o governo municipal e a associação de ceramistas. Enquanto ela resolvesse isso, Erimar iria conversar com os oleiros sobre a relação deles com o projeto Imaginário Pernambucano, depois desses anos todos de parceria.

Olhe, meu querido, veja bem, me acolheu Ana levando-me para a conversa, estamos muito ocupados com a inauguração do Centro de Artesanato que já foi construído, lá no Cabo mesmo, próximo à estrada. O prédio foi construído com as parcerias entre BNB (Banco do Nordeste do Brasil), a Prefeitura do Cabo, a Copergás (Companhia Pernambucana de Gás) e Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio à pequena e micro Empresa). Dentro do Centro foi possível a construção de um forno alimentado com gás natural. Esse forno vai melhorar muito a queima das peças de cerâmica e com ele será possível fazer a vitrificação sem o uso de chumbo. O apoio da Facepe viabilizou bolsas para entrada de jovens aprendizes no Centro, onde podem progredir nos estudos ao passo que auxiliam os artesãos nas atividades administrativas e gerenciais. Por sua vez, o Instituto de tecnologia de Pernambuco – ITEP realizou pesquisas sobre a argila e os esmaltes a fim de obter materiais com qualidade superior. Estamos indo lá hoje porque marcamos uma reunião com o pessoal da prefeitura para resolver algumas burocracias que viabilizarão a inauguração do espaço. Temos urgência porque o Centro dará mais visibilidade aos artesãos, e os produtos terão uma qualidade bem superior por conta da queima no forno com tecnologia mais avançada. Hoje estamos correndo com isso, mas já estamos sentindo falta de voltar a trabalhar mais as oficinas de elaboração de novos produtos e demandas de gestão do grupo. Esse era mais o nosso foco quando começamos o trabalho lá com os oleiros.

A implementação da ação do Imaginário Pernambucano no Cabo, em 2003, se deu por meio de consultorias técnicas e oficinas com abordagens teóricas e práticas onde foram discutidos conceitos como a melhoria da qualidade e do processo produtivo, inclusive com a possibilidade de utilização de novas tecnologias. As oficinas realizadas no Cabo trabalharam cores e o uso de pigmentos naturais, a síntese da forma, acabamentos e texturas, entre outros, a fim de melhorar os produtos existentes e desenvolver novos. Paralelamente, eram feitas reuniões para avaliar o andamento das oficinas tanto com os artesãos quanto com o grupo de profissionais do projeto. Essas reuniões eram muito relevantes para troca de informações e discussões sobre os procedimentos utilizados para resolver as dificuldades dos grupos onde o projeto atuava.

Já houve tempo, há alguns anos, que o Imaginário Pernambucano tinha uma equipe de mais de vinte pessoas, porque eram atendidas várias comunidades simultaneamente. Atualmente, o trabalho está focado na cerâmica do Cabo de Santo Agostinho e na cestaria de cana-brava de Goiana. Alunos, professores e profissionais de design, história, comunicação, engenharia, administração, desde o início do projeto compõem a equipe. A rotatividade de pessoas é grande, e somente Ana Andrade e Virgínia Cavalcanti estão tocando as ações do Imaginário desde o início do projeto.

Ana é graduada em Arquitetura pela Universidade Federal de Pernambuco e, realizou nos Estados Unidos, mestrado em Educação pela Temple University (1988). Atualmente ela é professora adjunta da UFPE, no departamento de design, assim como Virgínia. Esta última se formou no curso de Desenho Industrial, também pela UFPE (1991) e possui o grau de doutora em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade de São Paulo (2001).

As duas professoras revelaram em poucas palavras o propósito de terem fundado, no ano 2000, o Imaginário Pernambucano: trabalhar a valorização da cultura e das tradições locais e oferecer uma oportunidade diferenciada, com o foco na atuação social do design, aos estudantes universitários. Assim, o projeto surgiu como uma realização da Pró-Reitoria de Extensão da UFPE para estreitar os laços entre a academia e a sociedade.

Tivemos que quebrar muito a cabeça, revelou Ana, para dar conta da diversidade de perfis que fomos encontrando no trabalho com tantas comunidades. No período de 2001 a 2007, foram realizados projetos junto aos centros artesanais de Alto do Moura, Caroalina, Cabo de Santo Agostinho, Conceição das Crioulas, Goiana, Gravatá, Jataúba, Kambiwá, Lagoa do Carro, Rio Formoso, Tacaratu, Timbaúba e Tracunhaém.

Por isso, foi necessário ter versatilidade para construir uma alternativa eficaz de intervenção que contemplasse todas as comunidades. A solução que veio se apresentando foi a do trabalho multidisciplinar, através de uma metodologia que perpassa cinco eixos norteadores do projeto e mobiliza recursos humanos e financeiros para promover a inclusão social. Nesse sentido, o Imaginário promove a articulação, a formação e o fortalecimento de grupos, incentivando a construção de acordos coletivos e a busca da autonomia, o que atende ao eixo de gestão. A parir dos modos de produção e do ritmo de vida das comunidades, são otimizados os processos produtivos e pensadas melhorias nas condições de trabalho e uso sustentável dos recursos naturais, sendo, assim, contemplado o eixo de produção. O eixo de design se foca na valorização do saber popular, do reconhecimento das tradições, habilidades e uso dos materiais para que artesão e designers possam criar novas linhas de produtos em que formas, cores e texturas reflitam os valores culturais e sociais da comunidade. Fechando o ciclo dos cinco eixos do projeto, entram os trabalhos de comunicação e mercado. Para cada comunidade parceira são buscadas formas de gerar informações capazes de sensibilizar e informar a opinião pública para valorizar o artesanato e os direitos de seus criadores. Isso abarca a demanda do eixo de comunicação. Selando a perspectiva do trabalho, o eixo de mercado direciona a produção das comunidades para segmentos específicos do mercado capazes de reconhecer o valor agregado do produto, garantindo uma remuneração justa e a continuidade do fazer artesanal.

Desse modo, os espaços de ação articulados pelo projeto Imaginário Pernambucano têm permitido a prática da extensão universitária articulada ao ensino e a pesquisa. Mais do que isso, esses espaços de articulação são um notável diferencial do projeto. Dialogar com iniciativas públicas e privadas, como prefeitura, governo federal, Sebrae, escritórios de arquitetura e decoração, empresas privadas, a fim de galgar autonomia, apoio e financiamentos para as comunidades, tem sido um grande mérito daqueles que trabalham no Imaginário.

Ana Andrade, naquele momento, terminara de fazer uns rabiscos e passou o papel para que Erimar os lesse. Está faltando alguma coisa, Erimar, para a pauta da reunião? Acredito que não Ana. Estávamos já cruzando a entrada do Cabo, tínhamos percorrido os quarenta quilômetros da estrada que liga aquele município a Recife. Seguindo pela estrada, a uns 50 metros da beira do asfalto, vimos o Centro de Artesanato que tinha pautado boa parte de nossa conversa no carro. Descemos lá. Era como um armazém muito novo: um grande vão, de pintura branca e recente, com várias peças de cerâmica expostas pelo chão e em prateleiras, encostadas nas paredes. O portão dos fundos dava de frente para a porta larga e alta da entrada. Havia uns meninos jogando bola lá trás, no quintal, já fora do prédio. Alguns outros brincavam próximo ao forno a gás de que tínhamos falado – estava desativado ainda.

Voltamos ao carro e subimos para as olarias.

Passamos por uma ladeira muito íngreme, no meio da qual o carro parava, dava uma volta e entrava numa ruela que fazia uma curva no meio da subida, à direita.

Chegamos onde o coração pulsa, era essa a sensação. Onde se dá a atividade que alimenta todos os outros espaços de que nós havíamos falado ou onde havíamos estado, como a sede no Centro Cultural Benfica, e mesmo o prédio do centro lá embaixo. Havia muitos homens transeuntes, carregando coisas. Para muitos galpões de pau e barro.

Quando entrei no primeiro galpão, escutei o que estava sendo feito. Por fora e por dentro, havia amontoados de madeira e pedaços de vasos quebrados pelas portas, ou encostados por lá. A grande bagunça dava a impressão de sujeira. Isso se devia ao chão de terra muito desnivelado e entulhado, e aos cheiros dos homens. De qualquer forma, cheguei. E entrei.

Batemos palmas, Erimar estava comigo, e dissemos “ô de casa!”, mesmo sem se tratar de residência. Esse trejeito na fala era por causa do clima, da ambiência de interior. As coisas ali me remetiam a cidades pequenas do agreste ou do sertão de Pernambuco. As paredes se erguiam pequenas, de tijolos, às vezes. Muros de barro, sapé, quase pau a pique. A lembrança do interior era muito forte também por causa do jeito que os homens falavam, e pelo formato do corpo e da cabeça deles. Era impressionante como aquelas pessoas davam o tom do lugar. E, do mesmo modo que as coisas me remetiam à Carpina, Salgueiro, Serra Talhada, Araripina, eu trazia minhas próprias memórias do interior para aquele lugar. Por isso, eu falava daquele jeito, meio matuto.

Depois dos primeiros impactos de estranheza, vieram os impactos de sedução. Cheguei mais perto para ver, porque realmente não estava acreditando. O som que eu escutava desde que entrei no galpão era de alguma coisa rodando. A imagem que se via era a de um homem sentando dentro de um quadrado que lembrava um fogão à lenha gigante. Sem fogo, é claro. Na sua mão, uma peça de barro ia crescendo para cima, volteada e úmida. Mas aquele som, ainda não dava para saber de onde vinha. Quando quase coloquei a cabeça na altura dos joelhos do cidadão é que tive a revelação. Não era som de fala ou de mãos; era coisa que vinha dos pés.

Um homem girava uma roda de bicicleta coberta de madeira que estava sob seu pé, deitada na horizontal, apoiada em um eixo que a segurava bem no centro. O movimento que o pé fazia era como o dos meninos e meninas que andam de skate. Esse movimento dos pés, lá embaixo, fazia girar um outro disco de madeira que estava na altura da mão, lá em cima. Este, por sua vez, fazia girar a argila que o artesão ia moldando. A grande novidade para mim foi ver o artesanato sendo feito também com os pés. E ainda mais com aquela engenhoca (conhecida como “torno”) muito parecida, na proposta, com uma antiga máquina de costura: as mãos, os pés e os olhos atentos ao mesmo trabalho.

Tinha um quê ali de casa mal arrumada, como a casa dos meus avós. E aquelas engenhocas e os entulhos me tiravam dali e me jogavam direto em um quarto repleto de tralhas que havia na casa da minha falecida avó, onde havia também um fogão à lenha. O quartinho era exatamente um dos lugares que eu temia quando era criança. E por isso, vivia indo lá, pelas beiradas, para ver a luz entrando pouca, pelos caminhos que encontrava. Nas olarias, os feixes que conseguiam entrar eram, sobretudo, dourados. Tudo era meio amarelo, ou amarronzado, ou enlameado na confusão de tanto barro.

Erimar sugeriu que procurássemos logo Celé, disse que ele sabia de muita coisa sobre o lugar, que era o mais antigo de todos ali. A figura dele era como a de um mestre e a de um gerente, que organiza tudo, que resolve tudo. Sua aparência calma e séria se refletia no jeito da voz. Contou logo como ele havia chegado ao Mauriti, quando era bem pequeno. Veio com o pai e cresceu aprendendo com ele a arte do barro. Com o tempo, os meninos foram chegando, querendo aprender, e foi chegando também gente querendo as peças. O povo chegava aqui – Celé foi contando – com uma revista, e dizia: faça uma peça assim, fazia o desenho, e eu fazia. Fui criando, fui crescendo, tive necessidade de botar mais gente. Necessidade de ensinar. Entrava dinheiro todos os dias. Era uma época boa. Essas palavras poucas de Celé foram mesmo uma síntese da trajetória recente do próprio artesanato lá no Mauriti.

Segundo Celé, os utilitários como panelas e potes provêm do Engenho Massangana, onde as peças eram feitas através e modelagem manual (sem a utilização do torno) e conhecidas por cerâmica negra, assim chamada, porque teria sido um estilo de produção trazido pelos negros africanos, então escravos.

Por volta da década de 1950, um menino de 11 anos chamado Celestino iniciava seu aprendizado na olaria de José do Nascimento, burnindo (burnição é uma técnica que utiliza uma paleta metálica ou plástica para dar acabamento à cerâmica). No mesmo local, trabalhavam Abiud Trajano e Clementino Cândido, conhecido como Uca.

Dez anos depois, no final da década de 60, Celestino (que hoje todos chamam de Celé), já casado e após retornar de Fortaleza-CE, onde morou por dois anos, adquiriu, juntamente com o pai, um galpão com a finalidade de abrir uma olaria. É a partir da década de 70 que começa a se espalhar o número de unidades de cerâmica no Cabo com a ajuda e os ensinamentos de Celé, que repassou sua técnica a outros moradores locais. A produção desta época consistia em objetos utilitários, como a moringa e o filtro de água, e de ornamentação.

Com a ampliação das olarias, passou a haver concorrência entre os oleiros liderados por José do Nascimento e por Celé, fato que se tornou mais evidente na disputa de um local para extrair a matéria-prima. A argila utilizada para a produção, inicialmente, era extraída do bairro Santa Cruz. Com o passar do tempo, a argila foi ficando escassa por causa das construções civis no local, passando a ser comprada numa propriedade que fazia parte do Engenho Massangana, antes do seu tombamento. A fim de neutralizar seu concorrente, José do Nascimento comprou a propriedade acima citada, deixando Celé sem ter onde extrair a argila.

Neste momento começava uma luta que continua nos dias atuais: ter a garantia de um local para a extração da argila. Essa situação só foi abrandada após a imprensa registrar as circunstâncias pelas quais os artesãos do grupo de Celé estavam passando. Por causa da reportagem nasceu a Associação dos Ceramistas do Cabo de Santo Agostinho, em 1985, cuja primeira medida, juntamente com o prefeito da época, foi redigir uma carta para ser entregue, ao então governador Roberto Magalhães, relatando a questão da extração da argila em Suape.

Através desse gesto, a Associação conseguiu um contrato para a exploração das terras durante dez anos. Findo o prazo, a diretoria do Porto de Suape não renovou o contrato e novamente os artesãos ficaram sem ter onde extrair a argila. Mais uma vez conseguiram, através do apoio de líderes políticos, o direito de explorar a área, mas os artesãos temiam nova proibição.

Hoje, a prática dos ceramistas no Cabo envolve, cerca de vinte e cinco unidades produtivas de pequeno e médio porte, além de, aproximadamente, dez produtores individuais. A Associação possui mais de cinqüenta inscritos, dos quais a maioria é de artesãos que trabalham exclusivamente com cerâmica artesanal, e desses, dez estão ligados ao Projeto Imaginário Pernambucano, inclusive Celé.

Sempre com um pedacinho de argila fresca em mãos, fui encontrando cada um dos artesãos, em cada um dos seus galpões. E a conversa foi fluindo. Os sonhos foram chegando, no meio do trabalho que se ia contando, na minha frente.

Clebe mesmo, disse que para o futuro pretendia mais dinheiro, pois com aquilo que ele ganhava, nunca ia sair do aluguel da casa. E a família, como ia ficar? Os filhos, os netos, a esposa… Sem ter onde morar? Sem ter um lugar tranqüilo, sem perigo de despejo? Já viajei muito, eu gosto muito de viajar. Rio, Fortaleza, Natal, Bahia, já andei muito já, trabalhei em vários estados. Isso, Clebe disse deixando claro que ainda gostaria de pôr o pé na estrada. Não vai por causa da família.

Leda falou do sonho de ter um ateliê. O seu galpão é o único que tem peças coloridas. E trabalhos que não são feitos no torno. Ela defendeu que a sua autoria é sua riqueza, que suas peças são muito originais e fazem sucesso. O ateliê seria o ponto de onde tudo poderia brotar com mais liberdade, porque no galpão, dividindo a matéria-prima com outros artesãos, dividindo as vendas, os lucros, pagando aluguel do espaço a Celé, há muitas limitações à artista.

No galpão colado ao de Leda, trabalhava Nena. Um homem. Contou que estava meio mal porque estava com um problema de pressão alta. Tontura, coração batendo mais forte. Mas mesmo assim não podia deixar de trabalhar. Ainda mais que ele era um dos poucos que fazia as peças elaboradas em parceria com o Imaginário. São peças mais finas, e diferentes, não é todo mundo que acerta fazer, e que tem visão para se dedicar a elas. Tem muitos aqui que acham essas peças muito caras e acreditam que não vão vender. Mas são peças pensadas para um público diferenciado, com mais dinheiro. Aquelas oficinas para criação de novos produtos mesmo, vinha aquele design lá do Imaginário e passava a tarde aqui criando com a gente.

As oficinas de design sempre aconteciam nas olarias com muito improviso por falta de infra-estrutura local. Mesmo planejando e formatando a oficina com antecedência, muitas coisas eram improvisadas na hora pelos oleiros que moravam mais próximos. Alguém arranjava as cadeiras, uma porta quebrada virava mesa, as bases dos filtros viravam assentos caso o número de cadeiras não fosse suficiente, colávamos os cartazes explicativos nos pilares. Sem falar na improvisação dos instrumentos e ferramentas de trabalho dos artesãos, configurando outra característica do artesanato tradicional bastante evidente: a improvisação. Um graveto fixo com argila servia para medir a altura das peças; o nylon servia para cortar; palitos, garfos para criar textura; paletas de garrafa plástica para dar polimento; tubos de caneta para vazar a peça, etc. Não se tinha equipamentos de medição precisos como réguas e compassos, nem gabaritos para fazer marcações nas peças. Faz parte do cotidiano do artesão usar a criatividade para elaborar soluções que o permitam executar a sua idéia.

Nena contou que seu sonho era trabalhar apenas com aquele tipo de criação e produto mais finos. Gostaria de ter uma vida mais calma, poder descansar mais, ganhar mais dinheiro, e dar melhores condições à sua família.

Próximas ou vizinhas às olarias ficavam as residências dos artesãos. Os galpões eram como extensões de suas casas. Assim como o espaço físico, as relações sociais e de trabalho também eram extensões das relações familiares. Muitos tinham vínculo de parentesco, como Celé, que era pai de Vânia e irmão de Clebe, que por sua vez casou-se com Leda, irmã de Anísio. Todos artesãos.

Naquelas conversas, o dia passou rápido. Falamos com todos os artesãos ligados ao Imaginário Pernambucano que estavam lá. A tarde chegava finalmente, trazendo a luz precisa que fazia tudo ali ser de uma cor ocre. Tudo finalmente enlameado como os galpões – os montes, as casas, as crianças que brincavam acolá, as pessoas que já começavam a passar para comprar pão, o galo, tudo amarelado como o barro.

Estávamos esperando Ana chegar com o carro. Quando chegou, foi logo contando meio afobada: não consegui resolver o que esperava. O pessoal da prefeitura esqueceu da reunião e não nos encontramos. Fui bater perna pela cidade para resolver outras coisas.

É essa disposição de dar viagem perdida e não desanimar que faz a diferença para o projeto já existir há oito anos, e colher tantos sucessos. Ao longo desse período, o Imaginário Pernambucano conquistou reconhecimentos como o I Prêmio Banco Mundial de cidadania – 2002 (recebido pela comunidade de Conceição das Crioulas na categoria experiências sociais inovadoras); II Salão Pernambuco Design (categoria design e artesanato); Prêmio Planeta Casa – 2005 (categoria ação social) e Prêmio Conselho Brasileiro de Desenvolvimento Sustentável – 2005 (categoria projetos acadêmicos). Como bem definiu Nena, improvisar e seguir em frente é como se faz, todo dia, arte e trabalho lá no Mauriti. Para a equipe do Imaginário, é uma arte que precisou ser aprendida e construída, passo a passo, com quinze comunidades espalhadas pelo estado de Pernambuco. O olho aberto e vivo, que é logomarca do projeto, fala da importância de enxergar possibilidades de atuação que estão além do convencional que está posto no mercado de trabalho tanto de designers, historiadores, jornalistas, publicitários, como de artesãos. É o olho aberto de pessoas que encontraram a sua alternativa de inserção mais positiva no mundo.

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  1. devia ter uma foto


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