Os alunos que formaram um grêmio e não sabiam.
Terça-feira, 8 Janeiro, 2008 at 22:35 | In Diogo Madruga | 12 CommentsTags: Alunos, Diogo, Grêmio, Madruga
“Doze talentosos jovens com um objetivo em comum unem-se a fim de realizarem seu sonho de tornarem-se os maiores astros de Holywood. E para isso terão que enfrentar vários obstáculos e traçarem um cominho árduo até o topo da fama e do sucesso.” Parece roteiro de filme americano, e poderia até ser. Porém, com as devidas alterações, a ficção e a realidade começam a fixar um ponto em comum. Na verdade, os 12 jovens não se uniram assim, do nada. Houve algo como uma “pré-seleção”, baseado principalmente na força de vontade de participar e afinidade com o tema. Houve até quem entrasse por mera casualidade. Algo como:
-Ei, e aí, tá sabendo do nosso grupo?
-Tô…
-Quer entrar?
-Hmm… ok, tô dentro.
Também o sonho desses jovens não é tornarem-se os maiores astros de Holywood (talvez seja, mas não foi o intuito da formação desse grupo), e os problemas enfrentados por eles provavelmente difere muito dos possivelmente enfrentados pelos atores da terra do Tio Sam. Nada de organizações, gangues de alunos, “aventuras da pesada” ou cachorros super-heróis (aliás, nem um, nem outro, nem ambos). Se trata apenas de alunos comuns, seres humanos, jovens, que tentam fazer a diferença.
Quem já viu filmes americanos ou japoneses que envolvam, nos pontos centrais de suas tramas, colégios já deve ter percebido que, nesses lugares, há uma cultura de grêmios estudantis, grupos de estudantes (e somente estudantes) reunidos com base num tema (uma atividade, normalmente) para trabalharem essa aptidão com a área, ou edificarem os conhecimentos que se tem dela. Todas as tarefas e projetos do grêmio são realizadas pelos próprios alunos, e a sua relação com o corpo docente e direção pedagógica é só a de reportar todas essas atividades, gastos e resultados. Eles são tão comuns nesses países que uma das primeiras decisões de um aluno ao entrar para uma nova escola é de qual grupo ele participará, seja música, teatro, basquete, laboratório ou até arco e flecha. Os estudantes que ficam de fora dos grêmios por opção geralmente sofrem preconceito e são classificados como os anti-sociais da escola. É assim que funciona lá fora.
No Brasil, as coisas, para variar, aparecem um pouco invertidas. A palavra grêmio, na verdade, pode se referir tanto a grupos estudantis como a clubes desportivos, e no país a segunda acepção parece ser a única. Os poucos grêmios estudantis que existem pelo país são de pouca importância e a participação é mínima. Além disso, os temas se limitam a duas áreas: leitura e esportes. São grupos de estudo do assunto das provas, de redação ou leitura de clássicos (esses bem raros) e as populares equipes de esportes (na maior parte das vezes, só os tradicionais futebol, basquete, vôlei, etc.). Ademais, o incentivo para a formação desses grupos é mínimo, sendo o próprio colégio organizador de todas as atividades, e competir com uma instituição de ensino inteira é impraticável para um pequeno conjunto de inexpressivos jovens, que acabam se tornando participantes passivos.
A maior parte dos alunos, influenciados pela filosofia martelada diariamente em suas cabeças, também não ajuda muito e trata com preconceito as empreitadas dos colegas inovadores. Sendo assim, criar grêmios estudantis no Brasil, e mantê-los na ativa é uma tarefa complicada. Manter o princípio de a responsabilidade ser quase que totalmente dos alunos é quase impraticável, e piora quanto mais jovem for o aluno. Mas felizmente, mesmo com todas as pressões e dificuldades, alguns ainda insistem e até persistem. O caso é aqui é do novo grupo de teatro (ou pelo menos é essa a pretensão) do Colégio Boa Viagem, em Recife, Pernambuco.
Os 12 jovens, alguns experientes em artes cênicas variadas, já trabalharam juntos em duas pequenas peças infantis: “O Natal com Peter Pan” e “O Natal com o Sítio”, ambos pastiches de famosas obras infantis. E vêm, desde 2007 (o que não significa que começaram mês passado, na verdade o trabalho já conta meses) numa peça com roteiro escrito por eles. Essa será a primeira grande peça do grupo, e também é um dos motivos para a sua formação. O título é “Em suas mãos” e a trama é baseada num texto conhecido como “Carta Escrita no ano 2070″. Os alunos farão uma apresentação especial para uma comissão pedagógica (composta de professores, supervisores e diretores) que decidirá, por meio da avaliação do desempenho dos jovens atores, se oficializa o grupo de teatro permanentemente ou não. Pode parecer estranho que os alunos tenham conseguido essa eminência de sucesso com mais facilidade do que deveriam, porém, entre o grupo, a peça e a direção pedagógica, falta um elemento, um link, a peça-chave.
Claro, se os alunos decidissem de repente formar o grupo, sozinhos, seria muito difícil conseguirem o sinal verde da direção, pois as coisas aqui ainda funcionam assim. Então, eles precisavam de uma oportunidade, e ela surgiu. Entretanto, mais do que isso, era necessário alguém da alta hierarquia do colégio (ou pelo menos de posto mais que eles na instituição) que lhes conferissem algo como uma autoridade para, assim, enfrentarem sem medo os conceitos e preconceitos estabelecidos por aquela sociedade, propondo o mais difícil: mudança. Esse alguém também surgiu.
Gleide Silveira é como ela assina artisticamente, ou seja, é a sua assinatura para qualquer coisa. Não é que ela seja muito envolvida com a arte. Ela é envolvida pela arte. É como se houvesse uma aura ao redor da professora Gleide, e pudéssemos ver escrita a palavra “arte” por todo esse manto. Quando fala (e como fala!), as palavras vêm sempre acompanhadas de um tom de mágica, e sua criatividade parece inesgotável, tanto é assim que conversar com ela é uma tarefa a que se deve reservar um tempo. Sua formação é especificamente nas artes cênicas, ramo na qual ela vem atuando desde pequena, tendo, na 4ª série, escrito (!), produzido (!!) e dirigido (!!!) uma peça sobre a escravidão. Apesar dos “protestos” dos pais e da pouca perspectiva de lucro financeiro, Gleide ingressou na faculdade de artes cênicas e hoje trabalha como professora de artes.
Bem, a ligação entre “Ela” e “Eles” aconteceu mais ou menos assim: Certo dia, a professora Gleide e todo o corpo docente e comissão pedagógica do colégio encontravam-se agrupados numa reunião de praxe que acontece a cada início de novo ano letivo, onde são discutidos os temas a ser tratados pelo colégio ao longo do período de aulas. Dentre os temas dessa reunião, estavam os alertas sobre o aquecimento global e o esgotamento de recursos naturais (como a água). A professora Maria Aparecida, diretora pedagógica do CBV, mostrou um famoso texto do meio virtual, desses que roda em correntes de e-mail, que deixou a professora Gleide surpresa. Era a carta de 2070. Ao ouvir as palavras do homem de 50 anos que aparentava 85 e que precisava pagar pelo ar que consumia, raspar a cabeça e descartar suas roupas para economizar a pouca água que havia restado no planeta, a veia artística da professora pulsou mais forte. Emocionada com a beleza daquele testemunho fictício, ela pensou: “Isso dá uma boa peça.”. Porém, assim como a maioria dos professores no Brasil, a professora Gleide, apesar de não precisar pagar pelo ar que respira, não tem muito tempo para respirá-lo, tantas são os projetos em que se envolve, seja para ajudar financeiramente ou por obrigações do ofício. Assim, a sua idéia seria inviável de se colocar em prática e decidiu que a manteria em segredo.
Ledo engano. A tara por falar da professora falou mais alto e, conversando com um aluno, ela deixou escapar a idéia ao comentar que ele se encaixaria bem no papel principal da peça. Não imaginava ela o quanto se arrependeria disso depois. Pois o que veio a seguir foi que o garoto contou a outro que comentou com mais uns e, não satisfeito, ainda foi comunicar a professora que um grupo estava disposto e queria fazer a peça. A resposta da professora foi direta, e não poderia ser melhor: “O querer vai depender de vocês.”. Afinal, ela não possuía tempo nem disponibilidade para fazer uma peça, a menor que fosse (e essa não seria pequena). A equipe então aceitou o desafio e assim, com a professora apenas como supervisora, nasceu não só o grupo de teatro, mas também uma lógica bem similar à de grêmio estudantil, o que era preocupante para a “saúde” do conjunto.
A formação do grupo não poderia ser mais eclética, e nem mais típica. Estão presentes todo tipo de estereótipo, ou pelo menos foi o que pensaram cada um dos 12, a princípio, pois poucos se conheciam bem. Há desde a patricinha, passando pelo brincalhão, pelo casalzinho de alunos prodígio (para a infelicidade de Gleide, somente amigos, e não um casal de verdade), até pelas “coadjuvantes” (afinal, são contra-regras) e chegando até as “entendidas do assunto” (que fizeram curso de teatro e tudo). São 12 pensamentos diversos, confrontando-se a cada segundo no palco, nos ensaios, no dia-a-dia, o que não faz da convivência algo fácil; já houve brigas e até quase desistências. Só a paixão pelo teatro não seria capaz de segurar o grupo junto por tanto tempo, porém, esses meses de convivências transformaram o time de 12 jovens atores em algo maior, um grupo, um conjunto, e essa é uma de suas armas mais fortes: a amizade.
Mal parecem amigos de meses, mais parecem anos, vidas. São daqueles que só de se olharem são tomados por uma incontrolável vontade de rir, de gargalhar, às vezes por conta de boas lembranças (não antigas, mas intensas), outras, por pura felicidade em estarem ali, juntos. Isso se reflete no palco onde a sincronia é visível, e a determinação digna de elogios. Mas o principal trunfo desses jovens é o senso de responsabilidade. A lógica de grêmios cada vez mais é visível na forma como eles trabalham, sempre trazendo para si as obrigações, e a professora Gleide já deixou de ser a “madrinha” do grupo para tornar-se mais um 13º membro, de tão franca e eqüipotente que é a relação entre eles.
Talvez eles não saibam, mas a importância que esse e sua forma de pensamento têm para o âmbito escolar é bem maior do que eles pensam. A influência deles nos outros alunos já é visível e a perspectiva de mobilização para a formação de novos grupos é grande, afinal “se eles podem, por que nós também não?” deve ter passado pela cabeça de mais de um estudante já. Começando assim, futuramente pode-se ter vários grupos vinculados ao colégio, todos formados apenas por alunos, e chamá-los de grêmios.
O que parecia ser só mais um projeto virou algo muito maior. A frase proferida por um dos membros e que virou o lema do grupo já adquiriu uma conotação de uma abrangência maior: “O que não era nada, virou bastante.” Muito mais do que se referir ao que o grupo representava e passou a representar para eles, o mote cabe também ao valor deles para o meio onde estão inseridos e, mais ainda, à amizade surgida e à crescente cumplicidade entre esses jovens talentos.
Todas essas características são a base de um grêmio estudantil. Os garotos têm tudo para realizar aquele sonho de fazer a diferença, de se tornarem os astros de Holywood do filme americano (mantidas as proporções). E de mostrarem a que vieram e, principalmente, quem são. A propósito, são eles: Ana Letícia “Baixinha” Veras, Clara Pacheco, Débora Madruga, Eduarda Cadena, Fernanda Lauar, Gregório Perman, Karla Manuela, Luís Charamba, Luzinete de Andrade, Marcela Almeida, Pedro Cabral e Rafael Cadena. Nomes a serem destaque em seja qual for o meio que atuarem, pois talento e ousadia lhes sobram. “Os alunos que formaram um grêmio e não sabiam”, isso dá roteiro de filme, ou de peça de teatro. E apesar de hoje não parecer nada, ainda será muito, ou melhor dizendo, bastante.
12 Comentários »
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Poxa, ficou muuito massa a matéria, e não fala nada mais que a verdade!
Parabéns, Diogo!
e o que era nada, virou bastante sim!! ficou bem grandinha, pô!
hahaha
Comentário por Eduarda Cadena — Quarta-feira, 9 Janeiro, 2008 #
Muito legal!
Valeu Diogo!
Comentário por Rafael Cadena — Quarta-feira, 9 Janeiro, 2008 #
Muito massa!! Adorei
Não dá pra dizer “Falou pouco, mas falou bonito”, então irei substituir por “Falou muito, mas falou bonito” hhehehehehheheh
Muita onda!
Comentário por Ana Letícia — Quarta-feira, 9 Janeiro, 2008 #
Parabéns Diogo! Você conseguiu retratar extamente toda a nossa tragetória até aqui.
“O que er nada virou bastante”
Comentário por Luzinete de Andrade — Quarta-feira, 9 Janeiro, 2008 #
eeeeeei po… ficou bastante sim.
valeu, diogo!
Comentário por gregorio perman — Quarta-feira, 9 Janeiro, 2008 #
Diogooo
adorei
agora dps disso tomara que REALMENTE dê certo né?
torce por a gente!!
hehe
e detalhe: eu nem sabia o que era grêmio
^^
Comentário por clarinha — Quarta-feira, 9 Janeiro, 2008 #
Parabéns pelo seu blog!
Muito Legal, Adorei…
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Abraços e Sucesso!
Comentário por alessandrolisboa — Quarta-feira, 9 Janeiro, 2008 #
muuuuuuuuuuuuuuito bom
quem diria que aquela entrevista tão rápida se tornaria um matéria tão surpreendente
ficou ótima
Parabéns
Comentário por Karla — Sábado, 19 Janeiro, 2008 #
Diogo
Exxxcccceeeelllleeeennnnttttteeee matéria !!!!!! Você conseguiu retratar muito bem a trajetória do “Grêmio 2070″. Eu fui assitir à apresentação deles hoje e de fato adorei. Não é por ser minha filha mas o texto estava irreprensível. Parecia até texto de alguém com vários anos atuando na área teatral. E como sou ligado nessas questões “ambientais”, não foi difícil me emocinar. O grupo tem futuro na minha modéstia forma de avaliar. Parabéns Débora!!!! E logicamente parabéns a todos do grupo já que sempre advogo que ninguém faz nada sozinho. O grande mérito é deste time de doze jovens talentos.
E quanto a você filho, meus sinceros parabéns pelo texto acima. Também tenho certeza que estás no caminho certo. Você tem “intimidade” com as palavras e com a escrita. Continue firme e focado nesta tua trajetória profissional. Mas vou para por aqui senão acabo escrevendo mais que você..rsrsrs bj do pai
Comentário por Marconi Madruga — Segunda-feira, 21 Janeiro, 2008 #
Muitooo bom!Matéria simplesmente PERFEITA!Nosso grupo teatral conseguiu vencer as barreiras e graças a Deus deu tudo certo!A peça foi um SUCESSO!Com meses de convivência viramos muito mais que colegas de palco,uma FAMILIA!
Parabéns pela maravilhosa matéria!
Como Clarinha aii em cima disse,”nem sabia que eu fazia parte de um gremio!HAHAHAHAHAH…”
Pois bem,”o que era nada,virou bastante” e disso eu tenho certeza!Seguiremos sempre juntos,afinal familia é familia né?!
amo vcs ♥
Comentário por Fernanda Lauar — Sábado, 26 Janeiro, 2008 #
Genteee ‘
Adoreeei a Materiiia ‘
só que eu tô com uum probleminhaa ‘
Num seei comoo escolheer nomes paraa oo gremiio ‘
Me ajudaa ‘
Presizoo de um beem legaal ‘
qe convencaa a galeraa de quee eu fareei tudo de mais perfeitoo .
Beijoo ;*
Comentário por Izis — Terça-feira, 1 Abril, 2008 #
Parabéns pelo seu blog!
Muito Legal, Adorei…
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Abraços e Sucesso!
Comentário por brennofaro5 — Domingo, 5 Outubro, 2008 #