Pisando em um chão de estrelas

Quarta-feira, 9 Janeiro, 2008 at 14:23 | In Leilane Cruz | 1 Comment
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- Olá, meu nome é Vilma Carijós, sou coordenadora do Centro de Educação e Cultura Daruê Malungo. A gente desenvolve há dezenove anos um trabalho pedagógico com crianças, adolescentes e jovens daqui da comunidade.

Quando os alunos do ensino médio do CEFET vieram visitar o Daruê Malungo, tiveram acesso a este pequeno recorte da história, ilustração do trabalho desenvolvido lá. Em um dia, batucaram ciranda, coco, maracatu. Marcaram os passos das nossas danças populares. Assistiram ao espetáculo, apresentado todos os sábados para a comunidade. Mas… Um dia talvez dê apenas uma pista sobre o significado deste lugar, cuja grandeza um certo mangueboy, cidadão do mundo, tentou eternizar.

Pelos idos de 1988, Gilson Santana, ou Mestre Meia-noite – como é chamado na capoeira -, decidiu ensinar às crianças de Água Fria, Fundão, Beberibe e Chão de Estrelas o que aprendera nas rodas de capoeira e em sua participação no Balé Popular do Recife. O grupo de capoeira deu origem ao reforço escolar, que deu origem à pré-escola, que foi crescendo e formalizou-se ONG  em 1990 e tornou-se um Centro Cultural.

Foi assim, pelas demandas surgidas na prática, a criação de cada atividade. A escolinha para os irmãos pequenos que tinham de acompanhar os alunos mais velhos. As aulas de português para as crianças que aprendiam capoiera e ainda não sabiam ler. Foram (são) alfabetizadas desse jeito: ‘m’ mais ‘a’ é igual a ‘ma’, de maracatu. O ‘b’ mais ‘e’ é igual a ‘be’ de berimbau. As referências à cultura que aprendem tornam a assimilação – e a formação cidadã – mais fáceis, como bem escreveu Paulo Freire.  Desde cedo, entram em contato com as raízes afro-pernambucanas, as quais compõem a atmosfera de todos os ambientes da casa do Daruê Malungo (companheiro de luta, na língua iorubá).

Em cada centímetro quadrado, está exposta a história do lugar. Os portões, pintados de amarelo e vermelho, as cores do Centro, têm desenhos geométricos que lembram a África. O atelier, logo na entrada, cheio de pinturas dos próprios alunos, retratos de negros ou entidades africanas. No corredor, fotos de antigos alunos, espetáculos, cartazes produzidos nas oficinas.

No salão, presos no teto, três grandes pedaços de tecido. Em cada um se distingue uma sílaba da palavra daruê. Do lado esquerdo, a figura de Bob Marley pintada. “Lamento Negro”. Uma poesia pendurada na parede. “Homenagem ao Mestre Meia-noite”, de Lepê Correia. No chão, bem no meio do espaço, o círculo de madeira em que se fazem as danças, com estrelas brancas marcadas nele.

            No caminho entre o terminal do “Chão de Estrelas” e o Daruê Malungo não  se vê muito além de uma comunidade como muitas outras: o campo de futebol, a padaria, o posto de saúde, as casas parecidas, as pessoas na rua. A não ser, talvez, por uma certa movimentação na entrada da rua Passarela.

O tráfico é um dos grandes problemas com que lidam cotidianamente os moradores. Ao mesmo tempo em que soltam pipa na rua, as crianças convivem com o comércio de drogas, e ingressar nele é, por vezes, a trilha que seguem. “Esta aqui acabou de sair da prisão. Tráfico. Quando ela foi solta, pediu esta foto da época que era do Maracatu. Levei uma cópia do álbum e dei de presente para a mãe dela”, diz Vilma, enquanto mostra a foto da aluna em um livro produzido pelo Unicef com instituições de vários países. Cordenadora do centro e esposa de Meia-noite, ela conduz há muito as ações do Daruê. “A gente lamenta quando há um caso desse tipo, mas não podemos evitar que aconteça”.

O centro mostra-se uma opção a mais para a solução do problema. As atividades da escola formal são complementadas pela convivência com uma cultura própria, com o aprendizado de manifestações, em certa medida, de resgate da identidade. Ele se torna para os alunos um lugar do qual não se quer sair antes de as portas efetivamente fecharem.

Diariamente, eles (são cerca de 120 crianças e adolescentes matriculados) circulam pelas três salas de aula, a sala de costura, a secretaria, a cozinha e o salão principal. Pela manhã, das 7h30 até as 11h, oficina de leitura, aulas de percussão, dança, artes plásticas. À tarde, das 13h30 até as 17h, capoeira, artes, dança, doces e salgados, crochê, oficina de leitura.

Todos, inclusive os educadores, têm uma camisa amarela – com “Daruê Malungo” escrito em vermelho, estrelas vazando as letras – e uma bermuda vermelha longa, com listras amarelas nas laterais. Nada de shorts curtos ou abdômens à mostra. Os limites não raro inexistentes em casa são estabelecidos aqui. “Fora, eles não têm muitos limites. Os responsáveis freqüentemente não podem acompanhar o desenvolvimento do filho por causa dos problemas mais urgentes do dia-a-dia”, constata Crisnalva Quintino, assistente social.  

 

            Cris, 28 anos, trabalha há um ano e quatro meses no Daruê. “No começo, senti um pouco de resistência por parte das mães e de alguns voluntários”, diz. “Começei fazendo visitas domiciliares todas as semanas, para entender o contexto familiar de cada aluno. Identificava a dinâmica da casa, a relação da mãe com os filhos e destes com o padrasto” (geralmente os companheiros das mães não são os pais biológicos das crianças).

A estrutura familiar delicada é um dos fatores que dificultam a adaptação das crianças. Por isso, “os educadores e coordenadores procuram impor respeito aos alunos e fazê-los obedecer às regras. E esta é uma tarefa difícil. Há ocasiões, inclusive, em que as próprias mães apóiam os erros dos filhos e vêm reclamar por eles terem sido repreendidos”, pontua.

Mas, apesar de situações como esta ocorrerem, é evidente a falta de participação das mães no cotidiano do Daruê. “Logo no início do meu trabalho, apliquei questionários com perguntas do tipo ‘O que você acha do Daruê?’.  Elas respondiam que achavam positivo o fato de seus filhos não estarem na rua, o aprendizado dele; mas nunca se envolvem nas atividades daqui. Uma vez, fizemos a divulgação de um curso de fabricação de doces que iria ser oferecido às mães de alunos. Era gratuito e forneceríamos todo o material. Só duas mães se inscreveram.”

A comunidade, apesar de reconhecer a importância do Daruê, não participa e, por vezes, critica as iniciativas. “É um espaço muito bom, mas mal aproveitado até pelos alunos, que às vezes não se dedicam às atividades. Apesar disso, de serem um pouco fãs do ‘esforço mínimo’, eles se empenham, por exemplo, nos ensaios; pois querem se apresentar, querem se mostrar para a comunidade.”

As apresentações dos fins de semana, em que as danças ensaiadas durante as aulas são mostradas, contam com cenário,            figrino e coreografias criados com a ajuda dos alunos (ou pelos próprios). São uma amostra do trabalho desenvolvido pelo grupo de dança das crianças e adolescentes,  do Maracatu Nação Estrelar (das crianças) e da companhia de Dança Daruê Malungo (dos alunos mais antigos e professores).

Em um sábado com a presença de visitantes, uma aula de Meia-noite antes do espetáculo. Dia especial, em que todos, comunidade, alunos, ex-alunos, professores, visitantes, participaram da dança. Após o aquecimento, Frevo, Maracatu, Caboclinho, Ciranda se sucederam ininterruptamente. A mudança de estilo era ditada pelo som que saía dos amplificadores. Nenhuma palavra do professor, apenas a passagem  lenta de um passo para outro, pé pra lá, pé pra cá. Devagar e depois no ritmo da música.

Ao fim da aula, forma-se um círculo. Meia-noite se apresenta e, antes de convidar todos a verem a apresentação, conta um pouco da história do centro. Trajetória de dedicação e afeto.

Ângela, 27 anos, já até dançou no Daruê. “Minha mãe me proibiu, tinha preconceito com as danças. Voltei já adulta, para fazer um curso de bordado. Aí uma das meninas que trabalha na cozinha teve de se ausentar e eu substituí. Acabei virando quase uma secretária. Cuido da arrumação, das crianças, atendo o telefone e ajudo no camarim em dias de espetáculo.”

É quase uma dedicação exclusiva. “Chego às 6h30 da manhã e saio lá pelas 20h. Todos os dias. Eu gosto daqui, aprendi muito com o trabalho e continuo aprendendo. É bom para mim e para os meus filhos. Eles saem da escola direto pra cá e só vão embora quando eu e meu marido vamos.” O companheiro, com quem tem quatro filhos, não entendia a dedicação dela. “Ele reclamava da minha falta de tempo, mas desde que começou o trabalho aqui, faz o mesmo que eu.”

A ligação dos integrantes com o centro cria uma certa atmosfera de familiaridade. Desde os próprios idealizadores – ainda hoje Jandira, irmã  de Meia-noite, dá aulas para as crianças – até os alunos, muitos já filhos (e até netos) de voluntários e ex-alunos, é fácil perceber uma intimidade peculiar com o Daruê. “Uma coisa que eu descobri durante as aulas foi o fato de muitos deles serem da mesma família. Quando fui fazer a primeira chamada, vi que muitos tinham o mesmo sobrenome. Aí me diziam ‘Ah, ele é meu primo, ela também. Aquela é minha vizinha’”, observa Carolina Lopez, voluntária.

Carol, 20 anos, é estudante de jornalismo nos Estados Unidos, e veio fazer uma pesquisa para concluir o intercâmbio. “Eu queria algo envolvendo jornalismo, crianças e adolescentes. Descobri o contato daqui e decidi fazer um jornal escrito por eles.”

“Os alunos foram receptivos, apesar de alguns adolescentes se recusarem a participar. Eu tive três semanas para fazer o projeto e dei um prazo para a entrega dos artigos, que eram para o fim da segunda semana.  Esta falta de tempo causou problemas, pois, além de eles não gostarem ou não serem acostumados a escrever, muitos tinham dificuldades com o texto e não pude auxiliá-los o suficiente.” Apesar disso, o resultado acabou sendo satisfatório. “Queria que o jornal fosse um reflexo da vida na comunidade. E ele acabou sendo. Muitos temas escolhidos por eles só pododeriam ter sido abordados da forma como foram por um morador.”

Está sempre ali esta realidade um tanto crua, que eles retrataram. Por isso “acho o Daruê muito importante para a comunidade. Se eles não estivessem aqui, o que estariam fazendo? Estar aqui ajuda-os a pensar em alternativas para a vida.”

“As pessoas chegam mais ou menos assim, por acaso, e vão ficando; como foi o caso de Sérgio, professor de artes pláticas, que veio fazer uma pintura; ou da professora de Bordado, chamada apenas para fazer um figurino. E vão constuindo este centro”, diz Vilma. Na administração desde os primeiros anos, é daquelas personalidades fundamentais para tudo funcionar. Nunca pára. Sempre resolvendo aquelas pendências de quem faz o “trabalho braçal”.

Os moradores, as próprias mães não ajudam nas atividades. Muitas vezes apenas criticam o trabalho e só se envolvem quando têm a expectativa de receber algo em troca. Já vieram aqui até funcionários da Unicef, que prometeram apoio, se emocionaram com o trabalho. As ajudas, no entanto, são poucas. A maior parte das pessoas apenas aplaude.

“Se fôssemos depender de doações, não sobreviveríamos; e o cachê das apresentações mal é suficiente para pagar os dançarinos. O dinheiro que utilizamos vem dos projetos que conseguimos aprovar. Quando isso não acontece, os professores continuam o trabalho.”

“Apesar de tudo, nestes quase vinte anos, nunca foram suspensas as atividades.”

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  1. Não há outra palavra para sintetizar este trabalho: Perfeito !!!


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