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	<title>Se Joga Brasil!</title>
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		<title>A cansativa expressão do ser</title>
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		<pubDate>Thu, 10 Jan 2008 12:16:58 +0000</pubDate>
		<dc:creator>braunebastos</dc:creator>
				<category><![CDATA[Vítor Roma]]></category>
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			<content:encoded><![CDATA[<p>Não são poucas vezes em que vemos e admiramos o que se encontra longe e ignoramos o que está logo abaixo do nosso próprio nariz. Isso parece se tornar uma verdade ainda mais forte quando o assunto é o mundo artístico, principalmente suas últimas tendências. Quase sempre estamos com nossas atenções votadas para os templos mundiais das artes, como o <i>Metropolitan Museum of Art </i>em Nova Iorque ou o <i>Louvre</i> em Paris. Ironicamente, não se precisam ir tão longe para ir longe da nossa região, afinal o centro das artes no Brasil é São Paulo com seu MASP, que, com um jeitinho bem brasileiro e infame, conseguiu ser destaque no noticiário mundial recente. E o que vale para a arte, também vale para os artistas. Temos dificuldades em avaliar nossos artistas plásticos, parece que todos precisam primeiro conquistar aprovação de fora para serem admirados pelos compatriotas.</p>
<p>Mas há assim muita coisa acontecendo em termo de arte bem perto da gente, e para conferir o que está sendo feito, entrei em contato com Bruna Rafaella, uma artista local de 24 anos, natural do município de Vitória de Santo Antão, de traços angulares e raros olhos, e que obteve seu diploma no curso de Artes Plásticas pela Universidade Federal de Pernambuco recentemente, em 2006. Ela marcou o nosso primeiro encontro em um apartamento que seria usado como set de filmagem para um curta-metragem local no qual ela participou nos bastidores como assistente de cenário.</p>
<p><b>10% inspiração, 90% transpiração</b></p>
<p>Era quase 9 da noite quando eu já me encontrava na esquina do prédio do apartamento em que seria executada a filmagem, dois rapazes entravam e saiam carregando diversos pacotes, quando me olharam e perguntaram se eu era quem eu sou, se apresentaram como Eduardo, vulgo Duda, de estatura mediana e barba fechada, e o outro se chamava Antônio, loiro, magro, alto, de olhos azuis, que mais tarde descobri ser irmão do diretor do filme.</p>
<p>Logo depois, chega uma van enorme, com Bruna e mais pessoas que para ajudar na preparação do cenário, como, uma jovem Lu que fazia parte da equipe do filme e Luísa, que como Eduardo, estava lá pelo prazer de dar uma mão mesmo,além de muito equipamento. Bruna me pôs a parte rapidamente sobre o filme, que era a estória de um casal, cuja mulher guarda um segredo em uma caixinha e o marido se tornar alcoólatra em sua angústia para saber o que há na caixa. Até então, o título provisório do filme era &#8220;Caixa-preta&#8221;. Também explicou que seu dever como assistente de cenário era deixar o lugar com um jeito e atmosfera que combinasse com o filme.</p>
<p>Subimos no apartamento, logo vemos porta-retratos dos ilustres desconhecidos que cederam o apartamento e se encontravam em uma viagem, mas a empregada doméstica se encontrava lá para supervisionar o caos.</p>
<p>Logo começaram a preparação do cenário, todos ajudando a carregar cadeiras, centros, sofás, etc. Quase todos os móveis sofreram alguma mudança. Até mesmo livros que refletissem as ocupações dos personagens foram postos nas estantes. O ápice dessa odisséia foram duas telas enormes, emprestadas por uma galeria, que tinham 1,80m de altura por 3m de largura. Não couberam nos elevadores e quase que ocorria o mesmo na escada do prédio, um conjunto de manobras sincronizadas, que salvou a noite, teve que ser desenvolvido para as telas poderem ser trazidas pela escada.</p>
<p>Sem dúvida, todo esse esforço se mostrou mais revelador do que qualquer coisa que poderia ser dita por qualquer um que participou da arrumação do cenário. Parece comum a idéia que se tem que artistas são criaturas puramente boêmias, que só trabalham e criam quando uma inspiração mágica baixa, porém apenas uma noite preparando uma sala de estar para uma filmagem pões essa idéia abaixo.</p>
<p>Quando questionada sobre trabalhar no meio cinematográfico quando sua formação em artes plásticas é mais associada com pinturas, esculturas e exposições, Bruna tem a resposta na ponta da língua, <i>&#8220;</i><i>Tenho uma enorme satisfação pessoal em me envolver com vários meios  profissionais das artes</i>&#8220;, mas filosofa um porém &#8220;<i>Às vezes fico um pouco em crise com isso, porque parece que nosso sistema tende a estar mais aberto a absorver pessoas cada vez mais especializadas. A tendência que surge disso é ‘marginalizar&#8217; o ser múltiplo que insiste em me perseguir&#8221;.</i></p>
<p><b>Desencontros</b></p>
<p>Na manhã seguinte visitei o set mais uma vez para finalmente ver as filmagens no apartamento que já possuía o espírito do filme. Logo que a porta do elevador, fui atordoado por uma forte luz, uma luminária tipo &#8220;canhão de luz&#8221; estava à posta logo à frente, seguida por vários outros equipamentos. Pessoas indo de um lado ao outro, algumas usando as bermudas que com mais bolso que já vi na vida, nem posso imaginar a miríade de utensílios que deveriam estar naqueles tantos bolsos.</p>
<p>Mas foi fácil achar o diretor naquela correria, tinha os mesmos traços nórdicos do seu irmão-ajudante Antônio, e uns 10 cm a mais, sendo enorme, quase 2m de altura. Enquanto Bruna não chegava, eu tentava achar o momento certo para abordar o diretor, mas ele parecia tão focado no que fazia que parecesse não haver jeito de abordá-lo.</p>
<p>Mas, cerca de meia hora após minha chegada, Lu me expulsa educadamente, afirmando que, como a quantidade de pessoas no set é algo como uma conta exata, minha presença pode prejudicar a filmagem. Digo que compreendo, apesar da decepção formigando na minha cabeça, ela provavelmente nota isso no meu semblante, mas permanece impassível, não posso querer reclamar por alguém ter um forte profissionalismo, ainda mais quando artistas locais sempre estão lutando para serem levados a sério e Bruna ainda demoraria a chegar. Então me retirei, pensando no lado positivo, no almoço que se aproximava.</p>
<p>Algumas semanas depois, Bruna me avisou sobre uma exposição de curtas-metragens no Cinema do Parque, cujo um dos muitos filmes exibidos era dirigido pelo seu próprio namorado, Daniel Aragão, e atuado somente pelo casal. Ela chegou faltando apenas alguns minutos para começar seu filme, cujo título era &#8220;Por andarem distraídos&#8221;. O curta enfoca a natureza de relacionamentos amorosos, de como começam puros e espontâneos e depois são corroídos por cobranças e expectativas. O casal é mudo, apenas representando cenas do começo e fim da relação, enquanto uma narradora recita o poema que explica o título do filme, com um jazz tocando ao fundo. O filme, que poderia ser facilmente piegas, revelou-se muito bem executado e foi recepcionado calorosamente pelo público. Mas Bruna só soube disso depois, pois ela sumiu durante a exibição do filme, primeiro pensei que ela tinha ido ao banheiro, mas ela não se encontrava em canto algum do recinto.</p>
<p>Somente no outro dia que entramos em contato, ela revelou o motivo do desaparecimento: vergonha. Ela, que se mostra vaga sobre a natureza do seu trabalho e obra, afirma categoricamente &#8220;Não sou atriz!&#8221;, explicando em seguida &#8220;Olha, eu nunca atuei formalmente, isso devo deixar bem claro&#8230; tudo que fiz (no filme) foi resultado de algumas indicações, e a personagem era praticamente eu mesma&#8221;.</p>
<p>Ela também reclama da competição que há entre o pessoal de cinema e o de artes plátiscas, &#8220;Cinema, é impressionante. Por circularem mais recursos monetários nessa área, surge um grande preconceito por parte de ambos os lados que se definham&#8230; diálogo entre essas áreas, nenhum&#8230; acho q  sou um E.T. por querer fazer tudo ao mesmo tempo&#8221;.</p>
<p><b> </b></p>
<p><b>Pau pra toda obra</b></p>
<p>Quando o assunto envolve dinheiro e suporte, não há caminho fácil. Já é duro criar algo original, e mais ainda algo que seja original e que consiga ter um mínimo de apelo comercial. <i>&#8220;</i><i>Um artista trabalha e muito pra poder se estabelecer&#8230; não é só a embriaguez do sucesso não, é duro depender de editais públicos. O  Sistema comercial privado de arte é um porcaria onde dondocas ricas que adoram aparecer na coluna social ficam com 50% do valor da sua obra no momento de compra&#8230;Infelizmente só tenho galeria aqui em Recife. Nem tenho meu portifólio bem feito.&#8221;</i></p>
<p>Quanto à questão da imprensa local, a cidade do Recife mostra uma com espírito moderno, <i>talvez por uma sobrevivente verve burguesa liberal, receptivo a arte contemporânea. &#8220;Entrei em 2006, na segunda formação desse grupo com eles fiz pelo menos quatro exposições consideráveis com registro da imprensa, sendo uma delas minha primeira individual&#8221;</i>, comentando sobre o projeto intitulado Branco do Olho, que originou várias exposições de instalações de arte contemporânea no Poço da Panela, zona norte da cidade. Mas quando questionada sobre certo ranço regionalista por parte do Estado, que prefere apoiar projetos culturais estereotipados, ela confirma, &#8220;<i>Pois isso existe e muito forte, toca artes plásticas também&#8230; é um saco, mas a gente tem q sair pela tangente, e tem várias formas que nos amparam&#8221;</i> e <i>continua &#8220;Tipo, outro dia fui numa reunião com ministro de cultura e representantes de um dos órgãos de cultura que vieram aqui, e o que eles queriam eram frevo, maracatu e circo. Também houve um edital de não sei das quantos aí, e o circo, os maracatus e frevos ganharam a maior parcela de grana.&#8221;.</i></p>
<p><i> </i></p>
<p>Ela também reclama que essa indiferença em relação à arte contemporânea é muito forte entre a população, <i>&#8220;É muito louco isso, público muito restrito, não há formação de público que arte moderna e contemporânea precisa. Mas agora o maracatu está lá fazendo barulho, um monte de playboy tocando ensurdecedoramente no Recife Antigo e um monte de gente vendo, um monte de turista feliz&#8221;</i>, admitindo com amargor a utilidade comercial de se evitar mudanças de paradigma.</p>
<p>Com tantas dificuldades, o artista local precisa ser no mínimo versátil, e não somente em fazer projetos em áreas diferentes, mas às vezes ter que apelar para um emprego, como se pode dizer, mais convencional. Nossa artista faz uma pequena lista do que já fez, <i>&#8220;Estagiei em museus como mediadora cultural, dei aulas para educação infantil no Colégio Boa, já que o curso era de licenciatura. Eu também trabalhei com restauração e conservação de obras de arte&#8221;</i>, revelando-se uma garota pau pra toda obra. Mas ela tem discorda totalmente desse rótulo de ser &#8220;tudo&#8221;, e prefere o outro extremo: <i>&#8220;Acho que não sou artista, não sou nada na verdade. Vivo e trabalho através de extasia. Se isso é bom ou ruim, não sei&#8221;.</i></p>
<br /><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/categories/sejogabrasil.wordpress.com/56/" /> <img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/tags/sejogabrasil.wordpress.com/56/" /> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/sejogabrasil.wordpress.com/56/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/sejogabrasil.wordpress.com/56/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/sejogabrasil.wordpress.com/56/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/sejogabrasil.wordpress.com/56/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/sejogabrasil.wordpress.com/56/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/sejogabrasil.wordpress.com/56/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/sejogabrasil.wordpress.com/56/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/sejogabrasil.wordpress.com/56/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/sejogabrasil.wordpress.com/56/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/sejogabrasil.wordpress.com/56/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/sejogabrasil.wordpress.com/56/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/sejogabrasil.wordpress.com/56/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/sejogabrasil.wordpress.com/56/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/sejogabrasil.wordpress.com/56/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=sejogabrasil.wordpress.com&amp;blog=2450824&amp;post=56&amp;subd=sejogabrasil&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Ela nunca andou de metrô</title>
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		<pubDate>Wed, 09 Jan 2008 20:22:43 +0000</pubDate>
		<dc:creator>jornalismoufpe2006</dc:creator>
				<category><![CDATA[Raquel Lasalvia]]></category>
		<category><![CDATA[estação]]></category>
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		<description><![CDATA[Ela e grande parcela da Região Metropolitana do Recife desconhecem os caminhos e descaminhos do metrô da cidade. O trem está chegando à plataforma. Quem é passageiro, fica. Primeira Estação Já estávamos na metade de novembro, mas eles ainda comemoravam o Halloween. Carlos e César trabalham como promotores de festa. Haviam chegado de Machado, uma [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=sejogabrasil.wordpress.com&amp;blog=2450824&amp;post=55&amp;subd=sejogabrasil&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><i>Ela e grande parcela da Região Metropolitana do Recife desconhecem os caminhos e descaminhos do metrô da cidade. O trem está chegando à plataforma. Quem é passageiro, fica.</i></p>
<p>Primeira Estação</p>
<p>Já estávamos na metade de novembro, mas eles ainda comemoravam o Halloween. Carlos e César trabalham como promotores de festa. Haviam chegado de Machado, uma pequena cidade do interior de Pernambuco, perto de Limoeiro, localizada a 77 Km do Recife. Foram organizar o Dia das Bruxas, a pedido de um velho amigo, cabeleireiro na cidade.</p>
<p>Enfim, voltavam para casa. Entraram no ônibus em Limoeiro com destino a Recife e desceram na barulhenta Avenida Dantas Barreto, extenso corredor de ônibus, permeado por lojas e ambulantes. Carlos carregava uma bolsa de chita e César uma enorme sacola de plástico, daquelas onde são colocados grãos no mercado público. Caminharam até a Estação Recife &#8211; ponto inicial do traçado férreo &#8211; localizada às margens do rio Capibaribe, perto da Casa da Cultura, no bairro de São José.</p>
<p>Depois do embarque no metrô, o destino final seria Prazeres, em Jaboatão, onde Carlos morava. Alto, moreno, de cabelos compridos feitos de tranças castanhas, usava óculos escuros ao estilo Chico Science. César era mais baixo, cabelos curtos. Confessou-me que adoraria deixar o emprego de promoter de festas e cursar Ciências Biológicas na universidade.</p>
<p>A Estação Recife é monumental. Concreto e aço espalhados em uma arquitetura ao estilo moderno sobre os passageiros. Da catraca de bilhetagem aos trilhos, um enorme vão, escadas rolantes e rampas. Cinco minutos até o real embarque. O funcionamento do metrô acontece das 5h às 23h. Porém, a Metrorec &#8211; empresa que administra o metropolitano de Recife &#8211; disponibiliza um carro às 23h10 e outro às 23h20. A tolerância é por causa dos cinco minutos gastos pelo passageiro.</p>
<p>No canto direito à entrada, o mapa da via férrea com as vinte estações da linha centro, por onde o metrô trafega. César e Carlos irão desembarcar na Estação Barro. Até lá, serão seis estações e uma paisagem peculiar. Comprados os bilhetes a R$ 1,20 cada, os amigos seguiram ao embarque. Dez minutos apenas até o Barro. O metrô tem o privilégio de não se deparar com sinais fechados, trânsito e engarrafamento. É um transporte rápido, seguro e confortável &#8211; nem tanto nos horários de pico -, de uma pontualidade singular aos padrões brasileiros.</p>
<p>Como eram três horas da tarde, o metrô sairia em no máximo sete minutos e meio. E saiu em menos que isso. A maioria dos assentos estava livre. César e Carlos puderam sentar-se tranqüilamente e assentar suas bagagens junto às pernas. Da janela à direita, o ostensivo Fórum Desembargador Rodolfo Aureliano, com suas enormes colunas marrons vitrificadas. Chegavam à Estação Joana Bezerra, contornada pelo bairro do Coque. Um dos pontos centrais de passagem do metrô. Diariamente, cerca de 24 mil passantes sobem e descem as rampas daquela estação rodeadas de brises de concreto. Era de se esperar que um grande contingente de passageiros embarcasse nos vagões. Isso não afligiu Carlos. César apenas precisou puxar a sacola para perto de seus joelhos.</p>
<p>Afogados, Ipiranga, Mangueira, Santa Luzia. Casas disformes vão passando e vêem passar. Separadas pelo muro de concreto e serpentinas de arame farpado. Ruas de barro, outras calçadas. Um ferro-velho ao lado de um campo de futebol &#8211; daqueles que sabemos que é um, por existirem traves demarcando as quatro linhas imaginárias. Os fios elétricos que guiam os vagões riscam o céu &#8211; que, naquele horário do meio da tarde, de tanto azul dói nos olhos. Caem flores cor de rosa berrante pelos muros que cercam os trilhos. Mais precisamente depois da saída de Santa Luzia. Os olhos protegidos pela santa percebem a realidade destoante das flores caídas sobre o esgoto a céu aberto.</p>
<p>A penúltima estação antes do Barro é Werneck. De Edgard Werneck, engenheiro da antiga Great Western of Brazil Railway Company, empresa ferroviária inglesa que tinha sua sede no Recife em fins do século XIX. É costume dos passageiros, assim que saem desta estação, aproximarem-se da porta a fim de garantir o desembarque rápido no Barro. Werneck é uma das sete estações que possuem o Sistema Estrutural Integrado (SEI). O sistema, criado em 1997, permite aos seus usuários pagar uma única passagem de ônibus, descer em um terminal integrado e utilizar o metrô gratuitamente. Ou o contrário, como fizeram César e Carlos. Eles compraram os bilhetes de metrô e, ao desembarcarem na Estação Barro, nada pagaram pela passagem do ônibus Barro/ Prazeres.</p>
<p>Segunda Estação</p>
<p>A Estação Barro estava menos barulhenta que o de costume. O quase silêncio vinha da proibição do comércio ambulante no terminal de integração. Assim que os transeuntes desciam pelas rampas da plataforma ou dos ônibus que chegavam, deparavam-se com um mar de pequenas mesas de madeiras, lotadas de pipoca, bombons, doces, laranja cravo, coxinha, picolé e os mais variados quitutes e guloseimas do varejo. Aos gritos de &#8220;Pipoca a dez, pipoca a dez&#8221; e outros slogans, era irresistível não gastar as moedas do bolso.</p>
<p>Maria do Socorro (ou melhor, Help) &#8211; estudante de jornalismo da Universidade Federal de Pernambuco &#8211; era uma compradora assídua dos salgados e docinhos vendidos por uma senhora velhinha de ar cansado. Assim que rodava a catraca, na saída da estação, lá estava ela: baixinha, de cabelos brancos, sempre de saias. Sentada em um banquinho de madeira, quase escondida por uma enorme vasilha transparente, na qual dividida em 6 compartimentos, colocava coxinhas de galinha, lolitas, tortinhas de coco, pão de queijo, biscoito doce e empada de camarão. Cada um a 10 centavos entregue em um pequeno saco de plástico. &#8220;Na hora da fome, meio-dia, sempre comprava jujuba e os salgadinhos e docinhos daquela velhinha. Eram gostosos e baratos&#8221;, conta Help.</p>
<p>Verdade que o Barro é um reduto de estudantes da universidade. É desta integração que sai o &#8220;Barro/ Macaxeira &#8211; via Várzea&#8221;, que, pela esburacada BR, chega ao campus universitário e seus arredores. Diariamente, Daniele percorre os espaços da estação. Em Campina do Barreto, Olinda, onde reside, pega um ônibus com destino ao terminal integrado de Afogados. Toda agoniada, de cabelos negros encaracolados e piercing no nariz, espreme-se no meio de muitos para entrar pela confusa porta do vagão. No desembarque, na Estação do Barro, não é diferente. Principalmente naquele horário, às 8h da manhã, que faz o metrô ser insuportável. O Barro/Macaxeira terá a mesma situação, senão pior. Se der sorte, aparece um ônibus sanfonado, com um maior número de assentos. Caso não, é melhor esperar outro, sentada nos banquinhos de cimento, com laranja cravo às mãos. Decerto, já deve ter perdido a primeira aula na faculdade, do seu curso de Rádio e Tevê.</p>
<p>Há cerca de um mês, a polícia militar, a mando da EMTU &#8211; Empresa Metropolitana de Transportes Urbanos &#8211; proibiu a senhora dos quitutes, os vendedores de laranja e todos os outros comerciantes de venderem seus produtos. &#8220;De tardezinha, umas cinco horas, a polícia apareceu chutando as mesas e colocando todo mundo pra fora&#8221;, conta Dona Luzinete, mostrando as costas machucadas pelas grosseiras botinas de algum policial. Do lado de fora do terminal de integração, com sua barraquinha de pipoca, bombons e afins, encostada nas grades que circundam a Estação Barro, Dona Luzinete fala dos acontecidos. &#8220;Tinha gente que fazia comércio aqui há uns vinte anos, vivia disso&#8221;. Desde que ficou desempregada, há dois anos, ela achou por bem se tornar comerciante autônoma na integração. Com 48 anos, seria difícil conseguir outro emprego. Moradora das imediações, decidiu colocar a mesinha de madeira no terminal. Era mais uma ambulante.</p>
<p>O que restava agora nos espaços, onde antes era ocupado pelos gritos e colorido do comércio, é uma placa azul com letras brancas de fôrma: PROIBIDO COMÉRCIO AMBULANTE. Além de um vigilante da Soserve, empresa de vigilância terceirizada da Metrorec. O que existe, agora, são dois quiosques. Um de sorvete e picolés e outro de salgados Bragança.</p>
<p>Assim como Dona Luzinete, outros ambulantes persistem. E estão ocupando, lentamente, o lado de fora da estação, nas calçadas, junto à grade fronteiriça. Ela afirmou que até pagaria uma taxa, caso a EMTU decidisse regularizar o comércio que ali existia. &#8220;Foi violento. Uma correria. Meu filho foi levado pra delegacia e eu me machuquei&#8221;. No dia seguinte, o fato estava nos jornais. Dona Luzinete e outros comerciantes foram em Cardinot, contar suas versões da história.</p>
<p>Enquanto me levantava da cadeira de plástico, onde eu conversava com a vendedora pelas grades de alumínio, a velhinha dos doces e salgadinhos, organizava calmamente, a mesa com sua enorme vasilha de plástico. Esperar o Barro/Macaxeira já foi mais saboroso.</p>
<p>Terceira Estação</p>
<p>Baleado no estômago e no fígado, Edgard Werneck corria atrás de seu agressor. Já não tinha forças para continuar. A dor e a quantidade de sangue perdido era maior do que a raiva que tinha por João Viana. O engenheiro caiu desmaiado a 200 metros das escadarias do edifício sede da Great Western. Joaquim de Assis Ribeiro correu para acudi-lo. Cerca de 20 dias depois, Edgard morre no Hospital Centenário do Recife, onde havia sido internado e operado.</p>
<p>Cinco anos mais tarde, em 1930,  a Estação Areias tem seu nome mudado para Edgard Werneck, em homenagem ao engenheiro. Pois era naquela região que ficava a oficina da empresa ferroviária. Em 1924, Edgard foi contratado pelos ingleses por se destacar na profissão, trabalhando na Estrada de Ferro Central do Brasil, com sede no Rio de Janeiro. Ao iniciar seus serviços na Western, com a ajuda do amigo Joaquim de Assis, descobriu desfalques efetuados por comerciantes juntamente com funcionários da empresa. A diretoria encerrou as falcatruas. E o que antes era prejuízo, tornou-se lucro. A mando dos acusados, João Viana atirou em Werneck no dia 8 de junho de 1925, nas escadarias do prédio da companhia.</p>
<p>O Brasil ainda não se tornara república, quando a Great Western of Brazil Railway Company implantou em Pernambuco a Estrada de Ferro Central do estado, em 1885. O traçado férreo ligava o centro comercial do Recife ao município de Jaboatão. No decorrer dos anos, a ferrovia foi sendo estendida, chegando ao seu extremo &#8211; Salgueiro, sertão pernambucano &#8211; em 1963. Antes disso, Ascenso Ferreira já havia escrito os famosos versos &#8220;Vou danado pra Cantende, vou danado pra Catende, com vontade de chegar&#8230;&#8221; a caminho de sua cidade natal, Palmares. Incorporada a União em 1950, a Great Western passou a se chamar Rede Ferroviária do Nordeste. Ao chegar aos derradeiros anos da década de 70, a crise do petróleo e seus derivados forçou o Governo Federal a propor a implantação de transportes alternativos com economia de combustíveis, dando ênfase a transportes sob trilhos. Assim, os antigos trens seriam suprimidos e em seu lugar seriam construídos metrôs, abastecidos por energia elétrica. Em 1983, o Projeto do Metropolitano do Recife estava em vias de sua concretização.</p>
<p>Até este ponto, eu estava sentada, esforçando-me para apreender o máximo da história. O engenheiro César Cavalcanti, professor do departamento de Arquitetura e Urbanismo da UFPE, especialista em transportes, contava-me pausadamente a cronologia da implantação do metrô da cidade, com suas devidas contextualizações. Estávamos em uma das salas da coordenação do curso.</p>
<p>&#8220;O metrô teve um custo total de 417 milhões de dólares, cerca de 20 milhões de dólares o quilômetro. Um custo baixíssimo&#8221;, afirma o professor. Como foi aproveitado o traçado férreo já existente, da Estrada de Ferro Central, os gastos com a implantação do transporte foram menores. O que foi uma faca de dois gumes. Pois, de acordo com César, o trajeto atual do metrô não está de acordo com a dinâmica da cidade do Recife. A cidade cresceu para o norte, sul e sudeste e, o metrô trafega pelas regiões oeste e sudoeste. &#8220;Quando esboçaram o projeto do metrô, não houve nenhuma preocupação em atender o maior número de pessoas&#8221;, salienta o professor. A prova disso é tanta que, atualmente, o metrô atende 190 mil usuários por dia, quando sua estrutura poderia atender a cerca de 400 mil pessoas diariamente. &#8220;Eu diria que o nosso metrô sofre de ociosidade&#8221;, atesta César Cavalcanti.</p>
<p>Em 1985, foi inaugurado o primeiro trecho sobre os quais o metrô trafegava: Recife/Werneck. Posteriormente, em 1987, o metrô já abastecia a população do trecho Recife/Jaboatão e Recife/Rodoviária, completando 21 Km, pelos quais 25 carros, com quatro vagões cada, deslizavam sob os cabos elétricos e sobre os trilhos de ferro. Para quem percorre tal trajeto nos dias de hoje, o metrô oferece duas linhas centrais: Linha 1 &#8211; Recife/Camaragibe e Linha 2 &#8211; Recife/Jaboatão. Ambos os trens saem da Estação Recife, percorrendo caminhos distintos ao cruzarem a Estação Coqueiral. Como existe apenas uma via férrea, as diferentes linhas revezam sua saída. Nesta nova configuração, a linha centro possui 25,7 Km de extensão. Mas ainda existem a Linha Sul, que está em processo de expansão, e por enquanto o metrô apenas circula pelo trecho Recife/Imbiribeira, e a Linha Diesel, na qual um trem movido a diesel liga o bairro do Curado ao município do Cabo de Santo Agostinho.</p>
<p>E este ainda não é o traçado férreo mais apropriado.</p>
<p>Quarta Estação</p>
<p>Júlia nunca andou de metrô. Não, até aquele momento. E mesmo assim, ela não andaria como passageira, mas como observadora. A simpática Júlia é estudante de arquitetura da UFPE. Como ela, outros alunos seguiam até a Estação Barro, guiados por César Cavalcanti para uma aula <i>in loco </i>da disciplina de Transportes Urbanos.</p>
<p>Com cabelos pretos curtos e fala apressada, Júlia conta que evitava utilizar aquele transporte. Quando estudava na Universidade Católica, no centro do Recife, a estudante &#8211; moradora do bairro da Estância, próximo a Av. Recife &#8211; pegava dois ônibus para poder chegar à faculdade. Sobre os trilhos, seria mais rápido percorrer o caminho. Na Estância, entraria em um ônibus com destino à Estação Santa Luzia. Pegava o metrô, desembarcaria na Estação Joana Bezerra e, por meio do sistema integrado, subiria no &#8220;Circular/Conde da Boa Vista&#8221; gratuitamente. E, justamente por causa disso, a estudante não fazia esse percurso. Tudo porque, nos arredores da Joana Bezerra, está localizado o bairro do Coque, conhecido na cidade como um dos mais violentos da região. Sua mãe, com toda preocupação que lhe é conferida, não permitia que a filha circulasse por aqueles caminhos. Como a paisagem do cotidiano transformou-se ao trocar de universidade, nem se quisesse, Júlia utilizaria os vagões do metropolitano, pois os espaços de agora não coincidem com os trilhos de ferro.</p>
<p>Durante a aula exploratória, a aspirante a arquiteta deslumbrou-se com o tamanho daquilo tudo: &#8220;este pé direito não precisava ser tão grande&#8221;. Ao embarcar nos carros, sorriu infantilmente. Infelizmente, Júlia não sentia a funcionalidade do transporte, apenas escutava as observações pertinentes de seu professor.</p>
<p>Última Estação</p>
<p>Morador do Coque não paga bilhete de metrô, nem passagem de ônibus. Pelo menos, não quando o sol cega, calorosamente, a visão dos que ali passam. Do meio-dia às 14h, os policiais que vigiam o terminal integrado da Estação Joana Bezerra deixam seus postos para almoçar. Diversos passageiros aproveitam a ocasião e se espreitam pelos caminhos, nos quais só deveria passar ônibus.</p>
<p>Elisângela e sua filha Rhaissa não precisaram driblar a vigia. Haviam chegado à plataforma pelo sistema integrado de ônibus. Vinham da Praia do Pina. Rhaissa carregava um saco de pipocas e sandálias sujas de areia. Seus cabelos exalavam maresia. Em plena segunda-feira, mãe e filha voltavam para Camaragibe, ponto extremo da linha, depois de uma &#8220;escapulizadinha&#8221; para o litoral. O caminho até lá duraria, no máximo, 30 minutos. Na Estação Coqueiral, o metrô seguiria pela linha à direita da bifurcação. Jaboatão seria o caminho à esquerda.</p>
<p>A alguns metros de Rhaissa e Elisângela estava Claudionor. Rodeado por bagagens, amigos e familiares, ele esperava humildemente o metrô, para o embarque definitivo com destino a Estação Rodoviária. Claudionor estava indo para Cabo Frio, no Rio de Janeiro, morar com o irmão e procurar alternativas de trabalho. &#8220;Sou servente, faço de tudo&#8221;, conta timidamente. Ele pouco utilizava o metrô. Apenas quando trabalhava em Areias, saía de Dois Unidos, onde não mais reside, e pegava o transporte para chegar ao serviço.</p>
<p>Naquele dia, em especial, Claudionor não embarcaria no vagão de volta. Subiria em um ônibus, que não pertence à integração. Fugiria das linhas de ferro e iria percorrer paisagens diferentes das costumeiras. Por mais concreto que seria seu destino, ele também seria incerto. O trem chegou na plataforma Joana Bezerra. Claudionor entrou no vagão, acompanhado pela afeição dos amigos e familiares. Da Joana Bezerra ao Barro, Tejipió, Coqueiral, Alto do céu, Curado, Rodoviária. Recife ia se distanciando. As estações passavam e a paisagem do subúrbio contemplava o viajante. O rosa das flores do campo de futebol amarelado misturava-se com o verde das folhas sob as casas infinitamente coloridas. O indefinido do esgoto e da sujeira no meio do cinzento concreto. O azul reunia tudo isso. Mergulhado nas cores, o passageiro partia. O céu fugia. O céu de Claudionor fugia.</p>
<p>Foi percorrendo as plataformas que percebi. Estações e trens são sempre os mesmos. Histórias não. Nem passageiros. Alguns são de sempre, outros de às vezes, diversos de uma única vez. E quem é cúmplice desse trajeto é a voz suave e clara que indica o itinerário e o nome das estações.</p>
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		<title>Bem vindos ao Holiday!</title>
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		<pubDate>Wed, 09 Jan 2008 17:23:43 +0000</pubDate>
		<dc:creator>jornalismoufpe2006</dc:creator>
				<category><![CDATA[Marco Túlio Zahn]]></category>
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			<content:encoded><![CDATA[<p>São 16h30min da tarde da segunda feira em uma típica primavera recifense. O sol brilha despejando seus últimos raios nos raros banhistas da praia de boa viagem. Da minha janela, soprado bela brisa marítima, espio a massa de felizes desocupados que perambulam pela orla. Era a segunda vez que eu apreciava a vista do mar nesse dia. Da outra vez, pela manhã, estava eu olhando para a mesma paisagem, enquanto fazia uma reportagem sobre o edifício Holiday, famigerado prédio de moradores de baixa renda bem no coração de boa viagem. Pensei em toda aquela gente que conheci enquanto sentava diante do meu monitor de cristal liquido para redigir o texto. Comecei a escrever:</p>
<p>O Holiday impressiona pelo tamanho. Na medida em que me aproximava dele, a sensação era como se ele inchasse diante de meus olhos, como se quisesse me manter a distancia pela intimidação. É claro que essa não foi a intenção do arquiteto que o projetou. A intenção primordial de seu projeto foi de atrair as pessoas e não de repeli-las. Pessoas majoritariamente de classes privilegiadas que vinham para passar alguns dias na praia. Pessoas que moravam no interior e que vinham fazer faculdade na capital.</p>
<p>Do glamour atraente de outrora restou pouco. A quantidade de estabelecimentos comerciais que pipocam nas redondezas do edifício dá ao Holiday uma idéia de unidade autônoma que faz um visitante como eu se sentir quase um estrangeiro. Parece um bairro dentro de outro bairro! Tem de tudo um pouco. Padaria, barbearia, salão de beleza, loja de roupa, bar, capela. Pra ilusão ficar completa só faltava uma enorme placa sinalizadora como aquelas que se vêm nas entradas de algumas cidades e que comumente trazem uma mensagem receptiva. Algo como: &#8220;Bem Vindos à Cidade do Recife&#8221; ou &#8220;Bem Vindo à Caruaru a capital do forró&#8221;.</p>
<p>Passados 50 anos desde a sua inauguração, definitivamente o prédio sofre hoje com o peso dos anos que testemunhou. O azul e rosa desbotados que cobrem a fachada e a quantidade de roupa dos moradores extendidas pelas incontáveis varandinhas desviam a atenção da impressionante arquitetura modernista e do belo formato de meia lua.</p>
<p>Na primeira vez que eu fui ao Holiday, a primeira preocupação foi com a vestimenta. Decidi ir o mais simples possível para não chamar atenção. Ao chegar ao térreo, me aproximei do que parecia ser o porteiro (parecia por que ele não estava usando uniforme, mas estava atrás de um balcão pequeno).</p>
<p>-Olá, sou jornalista e estou escrevendo uma reportagem sobre o prédio.</p>
<p>-Fala com aquele senhor que ele é o síndico!-. Disse o rapaz de 25 anos apontando para um senhor idoso de chinela havaiana e camisa pólo rosa desbotada.</p>
<p>O síndico estava conversando com outro senhor idoso de terno sobre alguma coisa relacionada à situação legal do prédio. Esperei eles terminarem de conversar para abordá-lo.</p>
<p>Muito receptivo, o seu Wilton me disse que eu poderia ficar a vontade para explorar o prédio como quisesse. Mas que seria melhor se eu voltasse na segunda-feira. Depois de observar mais um pouco o edifício, resolvi seguir o seu conselho e voltei na segunda.</p>
<p>Ao voltar lá, desta vez, menos preocupado com a roupa e com o celular que da ultima vez, falei novamente com o porteiro.</p>
<p>-Há quanto tempo você trabalha aqui?-.</p>
<p>-Faz um mês, é que me mudei agora a pouco de gravatá pra cá!- Ele apertou a minha mão quando disse que também era de gravatá.</p>
<p>&#8220;Ta morando aqui por quê?&#8221;, &#8220;Como é o convívio com os outros moradores?&#8221; foram algumas perguntas que fiz a ele. Fiquei impressionado com a quantidade de informações pessoais ele me revelou. Aliás, das pessoas que entrevistei, ele não foi o único que demonstrou sentir uma grande necessidade de ser ouvido. Ele disse, por exemplo, que tinha vindo a recife para se operar, pois ele sofrerá um acidente de carro. Ele estava, de fato, com um curativo bem grande no pescoço. Além disso, ele falou que tinha, recentemente, se separado da mulher com quem ele tem duas filhas que ficaram em gravatá com a ela.</p>
<p><i>-</i>Tava dirigindo na BR, cheio de cachaça no quengo voltando da festa com a nega. Tava indo meio rápido. Quando me abaixo pra pegar a garrafa de cana que tinha caído no chão que levanto bato no meio fio! Páááá! E capoto!- Contou.</p>
<p>-(&#8230;) O pior é que pouco tempo depois do acidente minha mulé me deixou pelo meu melhor amigo. Aí vim morar aqui em recife pra me operar&#8230; mas principalmente pra esquecer da humilhação né?-</p>
<p>-Mas ela estava contigo dentro do carro?- Perguntei.</p>
<p>-Não, não. Eu tava com outra nega!- Confessou revelando um sorriso malicioso que rapidamente virou um sorriso de resignação.</p>
<p>Depois de me despedir ele me fez prometer que faria para ele um email e orkut por que queria aprender a usar a internet.</p>
<p>Em seguida fui apresentado à filha do Sindico, Dona Marta, ex-vendedora, que me levou para ver o restante do prédio. Fomos de elevador ao 17º andar.</p>
<p>Se o Holiday em algum aspecto lembra um prédio luxuoso com certeza é por conta da vista. Lá do alto se tem uma visão privilegiada de toda cidade. Á frente, a vastidão do oceano. Dos outros lados, recife aos seus pés.</p>
<p>Depois fomos ao apartamento dela no 16º andar. Onde ela me serviu uma água tão gelada que fez minha cabeça doer.</p>
<p>Orgulhosa, ela me explicou as melhorias que ela e seu pai fizeram no prédio.</p>
<p>-As paredes internas estão sendo pintadas e dois dos três elevadores estão funcionando. Quando meu pai assumiu, nem elevador tinha.</p>
<p>-E quanto á inadimplência?</p>
<p>-Apenas 30% dos moradores pagam aluguel em dia. (&#8230;) Muitos ficam devendo por meses ate anos!- Disse ainda:</p>
<p>- Aqui tem muito drogado e vagabundo. Mas a polícia tem sido muito prestativa.</p>
<p>Antes de me despedir disse que queria voltar outro dia para entrevistar mais moradores. Ela me disse para voltar na quarta-feira, dois dias depois. Achei estranho o pedido. Ela me explicou que era por que dia de terça feira tinha missa na capela. Não entendi bem a relação, mas não questionei. A Quarta era boa para mim também.</p>
<p>Voltei na quarta-feira. A preocupação com a vestimenta agora bem distante. Falei com o contador e com mais duas pessoas que estavam na portaria. Soube que não eram moradores, mas proprietários de apartamentos.  Todos eram unânimes quanto às melhorias que haviam sido efetuadas e elogiaram o síndico. Parecia que todos tinham a mesma opinião. Fato que começou a me preocupar. Percebi também que filha do síndico estava um pouco incomodada com a minha presença. Quando ia me aproximando de uma jovem para perguntar se ela gostaria de ser entrevistada, Dona Marta me intercepta.</p>
<p>-Rapaz, dá pra você voltar outro dia?</p>
<p>-Algum problema?- Perguntei.</p>
<p>-É que você veio num dia meio ruim. Meu pai está doente e eu não to podendo te dar assistência.</p>
<p>-??</p>
<p>-É que to sem tempo de ajudar você a achar gente pra entrevistar. Ficar aqui em baixo conversando com os funcionários tudo bem. Mas se for pra falar com os moradores&#8230; Eles não vão querer!- Desconversou.</p>
<p>-Aquela moça ali mesmo com quem você ia falar vai te dar uma idéia errada do prédio e eu não queria isso!</p>
<p>-E a senhora queria que eu voltasse quando?</p>
<p>-Sexta-feira!-</p>
<p>Por mais que tenha ficado frustrado resolvi não discutir. Pelo menos ela me prometeu que quando eu voltasse na sexta eu não seria interrompido e poderia entrevistar quem eu quisesse.</p>
<p>Voltei na sexta-feira. Por sorte Dona Marta não estava. Resolvi subir os andares por conta própria. Agora sim pude conhecer o Holiday.  Por mais que eu tinha apreciado a assistência de Dona Marta no 1º dia, o que eu queria era sentir como era morar ali. Só agora tive essa oportunidade.</p>
<p>Sozinho, subi os andares, agora de escada. Somente agora pude entender do que tratavam as notícias que eu tinha lido na internet. O mau cheiro era quase insuportável em alguns andares. O chão da escada era manchado com alguma substancia preta imunda. Os moradores que passavam torciam o nariz ao passar por ali.</p>
<p>Ao chegar no 3º andar, onde o cheiro não era tão forte resolvi parar para esperar. De dentro de um dos apartamentos, sai uma senhora apenas de toalha, surpreendentemente, não muito preocupada em esconder a sua nudez. Subi mais um andar. Passa uma jovem de aproximadamente 30 anos, franzina, de cabelo descolorido, aparentemente curiosa com a minha presença. Perguntei a ela se ela queria responder a algumas perguntas.</p>
<p>Muito simpática, ela me disse que se chamava Flávia Vilas e que mora no apto 1225 com os dois filhos, já faz 1 ano e meio. Disse que ela viera de Campo Grande com o marido para trabalhar como vendedora de lanches na praia.</p>
<p>-Vim com o meu marido pra recife achando que ia ganhar mais dinheiro, mas foi uma ilusão. Hoje to separada dele. Ele mora no 6º.</p>
<p>-Aqui tem muito problema. A noite sempre se escuta alguém vomitando no corredor. O síndico ta fazendo muita coisa, só que tu sabe né? Uma andorinha só num faz verão.</p>
<p>Depois de me despedir falei com mais uma senhora negra muito sorridente que ia passando por mim. Ela disse se chamava Rosinete e que morava no apto 911. Disse também que estava um pouco apressada para fazer compras, mas que se eu quisesse podia passar no apartamento dela mais tarde para conversar.</p>
<p>Desci até o térreo. O ritmo estava particularmente frenético nesse dia. Muita gente entrando e saindo. Uma jovem que estava parada me chamou a atenção. Perguntei se ela queria ser entrevistada. Ela explodiu numa gargalhada:</p>
<p>-A ultima coisa que eu quero é falar com jornalista.</p>
<p>Disse que se era por causa de medo de ser identificada ela poderia ficar tranqüila que o nome dela não seria publicado. Até guardei meu caderno de anotações.</p>
<p>-Então ta! Vamos sentar ali!- Disse ela apontando para um banco não muito longe dali.</p>
<p>Logo depois de nos sentarmos constatei que o banco era constrangedoramente pequeno o que nos deixava muito próximos um do outro. A moça tinha 26 anos e era bastante atraente apesar do olhar cansado e do cabelo mal cuidado. Muito a vontade, ela usava um vestido curto decotado que valorizava os seios dela. Fingi que estava à vontade também. Mas a verdade é que eu estava muito incomodado com a quantidade de pessoas passando e olhando. Resolvi tirar o meu caderno de anotações. Disse que era só para me ajudar a lembrar de alguns detalhes mais tarde.</p>
<p>-Há quanto tempo você mora aqui?</p>
<p>-Faz seis meses. Morava no pina com algumas amigas mas fui expulsa de lá.</p>
<p>-Por que foi expulsa? Posso saber?</p>
<p>-Aí você já está querendo saber demais.</p>
<p>Depois de alguns instantes:</p>
<p>-Fiz um &#8220;avião&#8221; e fui expulsa, ora!</p>
<p>-Avião?</p>
<p>Ela me explicou que &#8220;fazer um avião&#8221; era conseguir drogas para alguém. Fiquei confuso, mas resolvi não insistir.</p>
<p>-Você mora aqui sozinha?</p>
<p>-Mora eu e mai 10 mulé e uma cachorra cega!</p>
<p>Depois de conversar mais um pouco, ela, derrepente, se levanta e vai embora em direção à praia.</p>
<p>Quando me levantei do banco reparei que tinha uma senhora idosa, baixinha, muito interessada com a minha presença.</p>
<p>Fez um gesto como se me chamasse.</p>
<p>-Ei! Psiu! Vem cá!- Disse a pequena anciã com a testa franzida.</p>
<p>Aproximei-me.</p>
<p>- Já faz uma semana que te vejo aqui. Sempre anotando coisa. Que história é essa hein?-</p>
<p>-Mas minha senhora, eu sou jornalista. Estou escrevendo uma reportagem sobre o Holiday!-</p>
<p>-Nãããooo! Vários jornalistas já vieram aqui e é sempre rapidinho: vem, anota e vai embora! Mas tu ta vindo aqui direto. Sempre te vejo aqui em baixo. É o que? É pra falar com as moça bonitinha é?</p>
<p>Tranqüilizei ela dizendo que eu queria ter uma visão mais abrangente sobre a vida aqui no Holiday e para isso eu precisava entrevistar todo tipo de gente, sem discriminação.</p>
<p>- Não me leve a mal, mas é que isso aqui é a minha casa. Quando a gente vê alguém de fora na nossa casa a gente quer saber quais são as suas intenções né?</p>
<p>Depois de esclarecer tudo me despedi.</p>
<p>Fui ao Holiday, primeiramente, com muito preconceito. Na minha ingenuidade, achava que eu estava adentrando em um mundo paralelo. Um lugar onda a exceção é a regra. Onde o crime é algo banal e a miséria se impõe triunfante. Foi grande a minha surpresa ao ver que essa não é a única realidade. Que a história de muitas das pessoas que ali moram não eram muito diferentes das histórias de qualquer outra pessoa. Eram histórias sobre conquistas, vitórias, derrotas, amores e tristezas. Havia decepção, mas também havia esperança nos olhos daquele povo, sonhos.</p>
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		<title>Pisando em um chão de estrelas</title>
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		<pubDate>Wed, 09 Jan 2008 17:23:02 +0000</pubDate>
		<dc:creator>braunebastos</dc:creator>
				<category><![CDATA[Leilane Cruz]]></category>
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		<description><![CDATA[- Olá, meu nome é Vilma Carijós, sou coordenadora do Centro de Educação e Cultura Daruê Malungo. A gente desenvolve há dezenove anos um trabalho pedagógico com crianças, adolescentes e jovens daqui da comunidade. Quando os alunos do ensino médio do CEFET vieram visitar o Daruê Malungo, tiveram acesso a este pequeno recorte da história, [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=sejogabrasil.wordpress.com&amp;blog=2450824&amp;post=54&amp;subd=sejogabrasil&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>- Olá, meu nome é Vilma Carijós, sou coordenadora do Centro de Educação e Cultura Daruê Malungo. A gente desenvolve há dezenove anos um trabalho pedagógico com crianças, adolescentes e jovens daqui da comunidade<i>.</i></p>
<p>Quando os alunos do ensino médio do CEFET vieram visitar o Daruê Malungo, tiveram acesso a este pequeno recorte da história, ilustração do trabalho desenvolvido lá. Em um dia, batucaram ciranda, coco, maracatu. Marcaram os passos das nossas danças populares. Assistiram ao espetáculo, apresentado todos os sábados para a comunidade. Mas&#8230; Um dia talvez dê apenas uma pista sobre o significado deste lugar, cuja grandeza um certo mangueboy, cidadão do mundo, tentou eternizar.</p>
<p>Pelos idos de 1988, Gilson Santana, ou Mestre Meia-noite &#8211; como é chamado na capoeira -, decidiu ensinar às crianças de Água Fria, Fundão, Beberibe e Chão de Estrelas o que aprendera nas rodas de capoeira e em sua participação no Balé Popular do Recife. O grupo de capoeira deu origem ao reforço escolar, que deu origem à pré-escola, que foi crescendo e formalizou-se ONG  em 1990 e tornou-se um Centro Cultural.</p>
<p>Foi assim, pelas demandas surgidas na prática, a criação de cada atividade. A escolinha para os irmãos pequenos que tinham de acompanhar os alunos mais velhos. As aulas de português para as crianças que aprendiam capoiera e ainda não sabiam ler. Foram (são) alfabetizadas desse jeito: &#8216;m&#8217; mais &#8216;a&#8217; é igual a &#8216;ma&#8217;, de maracatu. O &#8216;b&#8217; mais &#8216;e&#8217; é igual a &#8216;be&#8217; de berimbau. As referências à cultura que aprendem tornam a assimilação &#8211; e a formação cidadã &#8211; mais fáceis, como bem escreveu Paulo Freire.  Desde cedo, entram em contato com as raízes afro-pernambucanas, as quais compõem a atmosfera de todos os ambientes da casa do Daruê Malungo (companheiro de luta, na língua iorubá).</p>
<p>Em cada centímetro quadrado, está exposta a história do lugar. Os portões, pintados de amarelo e vermelho, as cores do Centro, têm desenhos geométricos que lembram a África. O atelier, logo na entrada, cheio de pinturas dos próprios alunos, retratos de negros ou entidades africanas. No corredor, fotos de antigos alunos, espetáculos, cartazes produzidos nas oficinas.</p>
<p>No salão, presos no teto, três grandes pedaços de tecido. Em cada um se distingue uma sílaba da palavra daruê. Do lado esquerdo, a figura de Bob Marley pintada. &#8220;Lamento Negro&#8221;. Uma poesia pendurada na parede. &#8220;Homenagem ao Mestre Meia-noite&#8221;, de Lepê Correia. No chão, bem no meio do espaço, o círculo de madeira em que se fazem as danças, com estrelas brancas marcadas nele.</p>
<p><b>            </b>No caminho entre o terminal do &#8220;Chão de Estrelas&#8221; e o Daruê Malungo não  se vê muito além de uma comunidade como muitas outras: o campo de futebol, a padaria, o posto de saúde, as casas parecidas, as pessoas na rua. A não ser, talvez, por uma certa movimentação na entrada da rua Passarela.</p>
<p>O tráfico é um dos grandes problemas com que lidam cotidianamente os moradores. Ao mesmo tempo em que soltam pipa na rua, as crianças convivem com o comércio de drogas, e ingressar nele é, por vezes, a trilha que seguem. &#8220;Esta aqui acabou de sair da prisão. Tráfico. Quando ela foi solta, pediu esta foto da época que era do Maracatu. Levei uma cópia do álbum e dei de presente para a mãe dela&#8221;, diz Vilma, enquanto mostra a foto da aluna em um livro produzido pelo Unicef com instituições de vários países. Cordenadora do centro e esposa de Meia-noite, ela conduz há muito as ações do Daruê. &#8220;A gente lamenta quando há um caso desse tipo, mas não podemos evitar que aconteça&#8221;.</p>
<p>O centro mostra-se uma opção a mais para a solução do problema. As atividades da escola formal são complementadas pela convivência com uma cultura própria, com o aprendizado de manifestações, em certa medida, de resgate da identidade. Ele se torna para os alunos um lugar do qual não se quer sair antes de as portas efetivamente fecharem.</p>
<p>Diariamente, eles (são cerca de 120 crianças e adolescentes matriculados) circulam pelas três salas de aula, a sala de costura, a secretaria, a cozinha e o salão principal. Pela manhã, das 7h30 até as 11h, oficina de leitura, aulas de percussão, dança, artes plásticas. À tarde, das 13h30 até as 17h, capoeira, artes, dança, doces e salgados, crochê, oficina de leitura.</p>
<p>Todos, inclusive os educadores, têm uma camisa amarela &#8211; com &#8220;Daruê Malungo&#8221; escrito em vermelho, estrelas vazando as letras &#8211; e uma bermuda vermelha longa, com listras amarelas nas laterais. Nada de shorts curtos ou abdômens à mostra. Os limites não raro inexistentes em casa são estabelecidos aqui. &#8220;Fora, eles não têm muitos limites. Os responsáveis freqüentemente não podem acompanhar o desenvolvimento do filho por causa dos problemas mais urgentes do dia-a-dia&#8221;, constata Crisnalva Quintino, assistente social.<b>   </b></p>
<p><b> </b></p>
<p><b>            Cris</b>, 28 anos, trabalha há um ano e quatro meses no Daruê. &#8220;No começo, senti um pouco de resistência por parte das mães e de alguns voluntários&#8221;, diz. &#8220;Começei fazendo visitas domiciliares todas as semanas, para entender o contexto familiar de cada aluno. Identificava a dinâmica da casa, a relação da mãe com os filhos e destes com o padrasto&#8221; (geralmente os companheiros das mães não são os pais biológicos das crianças).</p>
<p>A estrutura familiar delicada é um dos fatores que dificultam a adaptação das crianças. Por isso, &#8220;os educadores e coordenadores procuram impor respeito aos alunos e fazê-los obedecer às regras. E esta é uma tarefa difícil. Há ocasiões, inclusive, em que as próprias mães apóiam os erros dos filhos e vêm reclamar por eles terem sido repreendidos&#8221;, pontua.</p>
<p>Mas, apesar de situações como esta ocorrerem, é evidente a falta de participação das mães no cotidiano do Daruê. &#8220;Logo no início do meu trabalho, apliquei questionários com perguntas do tipo &#8216;O que você acha do Daruê?&#8217;.  Elas respondiam que achavam positivo o fato de seus filhos não estarem na rua, o aprendizado dele; mas nunca se envolvem nas atividades daqui. Uma vez, fizemos a divulgação de um curso de fabricação de doces que iria ser oferecido às mães de alunos. Era gratuito e forneceríamos todo o material. Só duas mães se inscreveram.&#8221;</p>
<p>A comunidade, apesar de reconhecer a importância do Daruê, não participa e, por vezes, critica as iniciativas. &#8220;É um espaço muito bom, mas mal aproveitado até pelos alunos, que às vezes não se dedicam às atividades. Apesar disso, de serem um pouco fãs do &#8216;esforço mínimo&#8217;, eles se empenham, por exemplo, nos ensaios; pois querem se apresentar, querem se mostrar para a comunidade.&#8221;</p>
<p>As apresentações dos fins de semana, em que as danças ensaiadas durante as aulas são mostradas, contam com cenário,            figrino e coreografias criados com a ajuda dos alunos (ou pelos próprios). São uma amostra do trabalho desenvolvido pelo grupo de dança das crianças e adolescentes,  do Maracatu Nação Estrelar (das crianças) e da companhia de Dança Daruê Malungo (dos alunos mais antigos e professores).</p>
<p>Em um sábado com a presença de visitantes, uma aula de Meia-noite antes do espetáculo. Dia especial, em que todos, comunidade, alunos, ex-alunos, professores, visitantes, participaram da dança. Após o aquecimento, Frevo, Maracatu, Caboclinho, Ciranda se sucederam ininterruptamente. A mudança de estilo era ditada pelo som que saía dos amplificadores. Nenhuma palavra do professor, apenas a passagem  lenta de um passo para outro, pé pra lá, pé pra cá. Devagar e depois no ritmo da música.</p>
<p>Ao fim da aula, forma-se um círculo. Meia-noite se apresenta e, antes de convidar todos a verem a apresentação, conta um pouco da história do centro. Trajetória de dedicação e afeto.</p>
<p><b>Ângela</b>, 27 anos, já até dançou no Daruê. &#8220;Minha mãe me proibiu, tinha preconceito com as danças. Voltei já adulta, para fazer um curso de bordado. Aí uma das meninas que trabalha na cozinha teve de se ausentar e eu substituí. Acabei virando quase uma secretária. Cuido da arrumação, das crianças, atendo o telefone e ajudo no camarim em dias de espetáculo.&#8221;</p>
<p>É quase uma dedicação exclusiva. &#8220;Chego às 6h30 da manhã e saio lá pelas 20h. Todos os dias. Eu gosto daqui, aprendi muito com o trabalho e continuo aprendendo. É bom para mim e para os meus filhos. Eles saem da escola direto pra cá e só vão embora quando eu e meu marido vamos.&#8221; O companheiro, com quem tem quatro filhos, não entendia a dedicação dela. &#8220;Ele reclamava da minha falta de tempo, mas desde que começou o trabalho aqui, faz o mesmo que eu.&#8221;</p>
<p>A ligação dos integrantes com o centro cria uma certa atmosfera de familiaridade. Desde os próprios idealizadores &#8211; ainda hoje Jandira, irmã  de Meia-noite, dá aulas para as crianças &#8211; até os alunos, muitos já filhos (e até netos) de voluntários e ex-alunos, é fácil perceber uma intimidade peculiar com o Daruê. &#8220;Uma coisa que eu descobri durante as aulas foi o fato de muitos deles serem da mesma família. Quando fui fazer a primeira chamada, vi que muitos tinham o mesmo sobrenome. Aí me diziam &#8216;Ah, ele é meu primo, ela também. Aquela é minha vizinha&#8217;&#8221;, observa Carolina Lopez, voluntária.</p>
<p><b>Carol</b>, 20 anos, é estudante de jornalismo nos Estados Unidos, e veio fazer uma pesquisa para concluir o intercâmbio. &#8220;Eu queria algo envolvendo jornalismo, crianças e adolescentes. Descobri o contato daqui e decidi fazer um jornal escrito por eles.&#8221;</p>
<p>&#8220;Os alunos foram receptivos, apesar de alguns adolescentes se recusarem a participar. Eu tive três semanas para fazer o projeto e dei um prazo para a entrega dos artigos, que eram para o fim da segunda semana.  Esta falta de tempo causou problemas, pois, além de eles não gostarem ou não serem acostumados a escrever, muitos tinham dificuldades com o texto e não pude auxiliá-los o suficiente.&#8221; Apesar disso, o resultado acabou sendo satisfatório. &#8220;Queria que o jornal fosse um reflexo da vida na comunidade. E ele acabou sendo. Muitos temas escolhidos por eles só pododeriam ter sido abordados da forma como foram por um morador.&#8221;</p>
<p>Está sempre ali esta realidade um tanto crua, que eles retrataram. Por isso &#8220;acho o Daruê muito importante para a comunidade. Se eles não estivessem aqui, o que estariam fazendo? Estar aqui ajuda-os a pensar em alternativas para a vida.&#8221;</p>
<p>&#8220;As pessoas chegam mais ou menos assim, por acaso, e vão ficando; como foi o caso de Sérgio, professor de artes pláticas, que veio fazer uma pintura; ou da professora de Bordado, chamada apenas para fazer um figurino. E vão constuindo este centro&#8221;, diz <b>Vilma</b>. Na administração desde os primeiros anos, é daquelas personalidades fundamentais para tudo funcionar. Nunca pára. Sempre resolvendo aquelas pendências de quem faz o &#8220;trabalho braçal&#8221;.</p>
<p>Os moradores, as próprias mães não ajudam nas atividades. Muitas vezes apenas criticam o trabalho e só se envolvem quando têm a expectativa de receber algo em troca. Já vieram aqui até funcionários da Unicef, que prometeram apoio, se emocionaram com o trabalho. As ajudas, no entanto, são poucas. A maior parte das pessoas apenas aplaude.</p>
<p>&#8220;Se fôssemos depender de doações, não sobreviveríamos; e o cachê das apresentações mal é suficiente para pagar os dançarinos. O dinheiro que utilizamos vem dos projetos que conseguimos aprovar. Quando isso não acontece, os professores continuam o trabalho.&#8221;</p>
<p>&#8220;Apesar de tudo, nestes quase vinte anos, nunca foram suspensas as atividades.&#8221;</p>
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		<title>Na trilha do Conselheiro: utopia do ser(tão)</title>
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		<pubDate>Wed, 09 Jan 2008 14:27:52 +0000</pubDate>
		<dc:creator>jornalismoufpe2006</dc:creator>
				<category><![CDATA[Fellipe Luís]]></category>
		<category><![CDATA[Fellipe Fernandes]]></category>
		<category><![CDATA[Os sertões]]></category>
		<category><![CDATA[Quixeramobim]]></category>
		<category><![CDATA[Teatro oficina]]></category>

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		<description><![CDATA[Quarta-feira, 14 de novembro de 2007, Quixeramobim. Antes de tudo: ser tão. Os sertões de todos os mundos. Onde todas as estrelas se deitam. A cidade sabia que alguma coisa grande estava pra acontecer em suas terras: Quixeramobim não será a mesma. A rádio local convocava os moradores para comparecerem no teatro montado no clube [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=sejogabrasil.wordpress.com&amp;blog=2450824&amp;post=50&amp;subd=sejogabrasil&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Quarta-feira, 14 de novembro de 2007, Quixeramobim. Antes de tudo: ser tão. Os sertões de todos os mundos. Onde todas as estrelas se deitam. A cidade sabia que alguma coisa grande estava pra acontecer em suas terras: Quixeramobim não será a mesma. A rádio local convocava os moradores para comparecerem no teatro montado no clube municipal. Na hora prevista, os portões abriram e o público entrou. Alguns estranharam a disposição dos lugares, o palco-passarela: aquilo não era um teatro normal. Mas depois de alguma espera o espetáculo iria, enfim, começar. A luta, agora, era sem batalhas, a arma era a arte: libertação. Os atores-guerreiros entoam seus hinos de combate, o ar do sertão agora cheira à antropofagia: <i>Meu cavalo tá pesado, meu cavalo quer voar. Meu cavalo tá pesado, meu cavalo quer voar. Atuar, atuar, atuar pra poder voar.</i> Inicia-se a tragycomédiorgya.</p>
<p>A cidade de Antônio Conselheiro abriga há uma semana os atores que preparam o palco, os corpos e as mentes para a maratona de vinte e seis horas de espetáculo. O povo sente a movimentação: ares diferentes; novas cores. A prefeitura municipal disponibiliza o ginásio esportivo para aqueles que querem um teto para levantar acampamento.</p>
<p>Depois de várias idas e vindas, um grupo de estudantes de Pernambuco iria, de uma vez por todas, acompanhar os quatro últimos dias de apresentação. Alguns deles já haviam assistido pelo menos uma das peças que compõem Os sertões, quando a trupe do Oficina esteve em Recife, dois meses antes. Mas Zé Celso, o Conselheiro cultural brasileiro, anunciou e convocou, através do site oficial do Oficina, jovens de todo país para transcenderem juntos na terra de Antônio. O convite foi aceito de sorriso largo: há muito alguns desses jovens esperavam por algo parecido &#8211; seriam testemunha de um episódio singular na história cultural brasileira</p>
<p>Na madrugada da quinta-feira, eles apareceram aos poucos. A partida, que deveria ser às cinco horas da manhã, só aconteceria depois de algumas horas de atraso. A Sprinter que os levaria aos sertões da vida esperava na Praça do Derby. Vieram em grupos, ou sozinhos &#8211; chegavam de festas, bares ou mesmo de casa. Alguns daqueles simplesmente se conheciam, outros eram realmente amigos e uns poucos eram novidades. Dentre as novidades, a mais desconhecida era uma garota de cabelos curtos. Ela chegou acompanhada da mãe, que depois de uma pequena conversa e grandes recomendações foi embora. Surgiram então indagações sobre quem seria tal figura &#8211; &#8220;será que essa é aquela com um nome estranho, algo como Xoxana, que estava em uma das listas?&#8221; &#8211; quando então ela revelou que conhecia uma amiga de um dos aventureiros e, ao ouvir falar que estavam se organizando para viajar, decidiu ir também. Apesar de bastante contida, ela não conseguia esconder a excitação nos olhos. Todos estavam ansiosos, até mesmo o rapaz que dormia sentado no chão da calçada e que permaneceria dormindo boa parte das longas horas da viagem. Esperaram uma décima quarta pessoa que nunca apareceu, seria a tal Xoxana, cujo nome não era bem esse. Assim, depois de algumas esperas, encontros e desencontros, partem de Recife treze jovens para assistirem a empreitada do Teatro Oficina contra o marasmo cultural brasileiro.</p>
<p>Mais do que qualquer outra coisa, Quixeramobim era longe: isso que todos começavam a pensar quando haviam percorrido várias horas e apenas metade do caminho. Alguns atrasos nas paradas programadas e algumas paradas fora da programação fizeram a viagem durar mais do que o previsto. Na Sprinter lotada de malas, colchões e comidas, momentos de euforia e irritação alternavam-se com conversas variadas. Já nas últimas horas de viagem, quando o sol se pôs e a melancolia, em tons de lilás e laranja, tomou conta da paisagem sertaneja, a intimidade &#8211; adquirida pelas vastas horas de palavras gastas sobre os mais variados temas &#8211; era tanta que todos sabiam grande parte da vida, dos sonhos e das conquistas da maioria ali presente. Começaram a perceber que algo novo iria acontecer da mistura daquelas vidas. Tempos depois, uma das viajantes diria para outro companheiro de jornada que &#8220;o sertão virou mar vermelho e Moisés foi abrindo o nosso caminho&#8221;. Era Moisés o nosso motorista. A vida recheada de referências literárias, bíblicas, coincidências que não são de jeito nenhum coincidências, ela continuou.</p>
<p>Treze horas de viagem os fizeram pular dentro do veículo quando viram a placa com o nome da cidade: depois de se perder entre os pequenos municípios do sertão do Ceará chegaram a Quixeramobim com a noite alta. A peça, O Homem I , já deveria estar começando e eles ainda não tinham achado o local onde estava instalado o teatro. Mas a alegria reinava: colocaram a cabeça para fora da janela e começaram a perguntar como faziam para encontrar o espetáculo &#8211; entre um questionamento e outro, cantavam; gritavam músicas que escutaram durante a viagem; gritavam a música de início do espetáculo daquela noite: <i>o anel que tu me deste era vidro e se quebrou, o amor que tu me tinhas era pouco e aumentou.</i></p>
<p>Quando acharam o local, perceberam que o espetáculo estava começando e os ingressos estavam esgotados. Procuraram a produtora responsável, explicaram-lhe toda a situação: depois de treze horas de viagem eles iriam perder o espetáculo que os levou a atravessar quatro estados. Ela liberou treze ingressos para o grupo. No entanto, alguns, na ânsia de assistir à peça já haviam conseguido entrar &#8211; alguns de maneira lícita, outros nem tanto &#8211; mas valia tudo para não perder um verso sequer de poesia cênica. As malas ficaram no carro, depois cuidariam de um canto pra dormir, o importante naquele instante era não deixar passar nenhum momento remanescente da transhumanização que havia sido iniciada no palco improvisado daquele lugar.</p>
<p>Assistiram a peça em pé no fundo da platéia, sentaram-se apenas após o intervalo. Ao ver a peça pela segunda vez puderam perceber que estavam prestando atenção maior no texto, pois já haviam passado pelo choque inicial causado pela linguagem singular utilizada pelo grupo Oficina: agora podiam ouvir as palavras e versos com um sabor mais forte. Assim, ao chegar o final, ouviram Zé Celso recitar o monólogo da última cena e dentro de uma túnica azul o viram se confundir com o Conselheiro do sertão. Suas palavras &#8211; ou as de Antônio &#8211; entraram como manifesto nos ouvidos atentos dos jovens pernambucanos, que saíram do teatro de mãos dadas na ciranda que imperava no fim de O Homem I.</p>
<p>Encerrada a apresentação, hora de encontrar o prometido ginásio. Um rapaz de cabelos desgrenhados &#8211; que iria conosco na Sprinter , completando quinze pessoas, mas não agüentou esperar até a quinta e partiu de Recife na quarta-feira mesmo, sem malas ou bagagens &#8211; conseguiu a chave que estava com outro grupo também acampado no ginásio, três amigos da Paraíba. Chegando ao local cedido pela prefeitura, montaram as barracas &#8211; pareciam uma comunidade: diferentes barracas de diversos tamanho formando um círculo bem no meio do ginásio esportivo. Enquanto alguns foram dormir, exaustos, outros ainda resistiram ao cansaço e foram para a festa anunciada durante a apresentação &#8211; que aconteceria lá mesmo no clube municipal.</p>
<p>No dia seguinte, quando acordaram foram surpreendidos por Moisés que afirmava ter encontrado um restaurante ótimo à beira de um açude. Ele havia levado mais cedo um grupo até esse restaurante e sugeriu que fossem almoçar lá. Sugestão aceita, uma hora depois estavam todos no restaurante do açude. Ao entrar, o ambiente agradou a todos, o calor ali não era tão grande e a música que tocava deixava um clima confortável. Entretanto, em frente à mesa indicada pelo garçom para o grupo, uma gaiola era a casa de um macaco e de um gato. A situação inusitada incomodou alguns jovens que preferiram não comer ali e foram sentar-se nas areias do açude. Alguns minutos depois, uma conversa com o dono do restaurante resolveu a situação e o gato, bastante debilitado, foi libertado.</p>
<p>Depois de algumas horas refrescantes nas águas do açude, resolveram conhecer a cidade. Andaram bastante, com sorvetes nas mãos, à procura de café. Ao perguntarem por lugares turísticos, foram informados que havia uma ponte vermelha bem conhecida, além da casa de Conselheiro. Após as devidas visitações, no caminho de volta para o ginásio, um senhor os abordou e perguntou de que horas o espetáculo deles teria início. Sem entender bem, um dos jovens respondeu que não eram atores, mas acrescentou: sete horas. Dançaram uma música antiga que tocava no carrinho do vendedor de DVD&#8217;s da praça, compraram pão e suco e foram se arrumar para O Homem II.</p>
<p>Como combinado na noite anterior, os treze ingressos estavam separados mais uma vez para o grupo de Pernambuco. Chegaram na hora e sentaram-se na frente. O primeiro ato transcorreu tranqüilamente, circenses e brigas familiares iniciaram a peça e pouco a pouco eles foram absorvidos pelas utopias do Oficina. No intervalo, adivinhando o que estava por vir &#8211; afinal alguns já haviam visto o espetáculo &#8211; fizeram um pacto que se um fosse convidado a tirar a roupa todos os outros teriam que segui-lo. O pacto foi selado com cachaça num brinde a Dionísio e outro a Xoxana, viajante imaginária e futura Deusa de Quixeramobim.</p>
<p>O teatro Oficina é conhecido pela participação ativa da platéia, que faz parte de todo o espetáculo e é convidada diversas vezes a ser personagem da dramatização. Além disso, sua linguagem própria mantém viva a chama de ideais de transgressão, quebra de normas e padrões morais que ainda hoje governam grande parte da população brasileira. São utopias que resistiram à queda do comunismo, à mitificação do movimento hippie, à fossilização do tropicalismo, e que estão ali no palco em forma de música, palavra e ação, prontas para serem abraçadas por aqueles que nos tempos pós-modernos ousam acreditar. A absorção desses ideais leva à transcendência tão invocada por Zé Celso. O mito do bom selvagem se faz presente: a pureza e a plenitude são inerentes ao homem, mas corrompidas pela sociedade. Nessa noite de transhumanização a humanidade é exaltada. Do amor nasce Canudos e dele sairá a força de sua resistência.</p>
<p>Ao dizer sim para todas as utopias, os jovens tiram as roupas. Primeiro um é convidado à passarela, os atores tiram sua roupa enquanto ele fecha os olhos e se entrega à transcendência, quando abre vê que alguns dos amigos cumpriram o acordo e também tiraram aquilo que cobria sua nudez. Assim, outras pessoas também se despem e os atores guiam todos para uma grande roda de celebração. Naquele momento eram todos filhos do paraíso &#8211; irmanados na mesma dança. São agora transhumanos.</p>
<p>Depois de algum tempo, a peça retomou o ritmo original e as Liliths, Evas e Adãos puderam se vestir. Outro momento marcante do segundo ato foi a reverência aos totens. Esculturas de madeira eram reconhecidas como totem através de uma coreografia que culminava num beijo. Após as esculturas, os participantes desse ritual &#8211; dentre os quais estavam alguns dos jovens pernambucanos &#8211; passavam a reconhecer a deidade presente na figura humana e a coreografia se repetia, mas ao invés de madeira beijava-se então outra pessoa. Era a cura através da saliva, a libertação pelo gesto mais humano e representativo do amor, o beijo &#8211; o reconhecimento de Deus no homem -<i> &#8220;</i>ou Deus está no corpo ou não está em lugar nenhum&#8221;, afirmou Zé Celso.</p>
<p>Todos os viajantes de Pernambuco resolveram ir à festa do espetáculo naquela noite. Um bar abrigava os músicos que se preparavam para a chegada do pessoal. Num primeiro momento alguém sugeriu que tomassem cachaça, depois de um acordo decidiram comprar uma garrafa inteira de aguardente. A festa havia começado e o espírito libertário propagado pela peça ainda estava no ar.</p>
<p>Do lado de uma rodoviária que não funcionava, pelo menos não àquela hora da madrugada, estava um pequeno bar sem paredes, apenas colunas. Algumas pessoas dançavam no salão improvisado em frente à banda. Outras, sentadas em mesas de plástico, conversavam animadamente sobre teatro, arte ou qualquer outro assunto. Nesse cenário aconteceu a materialização das utopias do Oficina, a exaltação do amor livre: os jovens pernambucanos beijaram uns aos outros na maior demonstração de desprendimento vista na cidade. Os ideais tomaram forma e foram além do teatro-estádio. Uma platéia olhava atônita o renascimento de utopias. <i>Só a antropofagia nos une.</i></p>
<p>Esse fora apenas o começo de uma noite que terminaria na piscina de uma associação municipal, de onde alguns dos personagens dessa história foram expulsos pelo vigia do lugar, às seis horas da manhã, completamente bêbados e despidos. Antes disso, no caminho do bar para a associação, uma das garotas desse grupo &#8211; ao passar por um jardineiro que podava a copa de uma árvore &#8211; resolveu compartilhar com ele o momento que vivia. Então, num imperativo, ordenou que parasse o que estava fazendo e descesse as escadas. Atônito, o homem seguiu os comandos da garota de ares tropicalistas, que no instante seguinte retirou os óculos dele e lhe deu um beijo. Ela agradeceu e saiu. Após essa noite, a liberdade compartilhada pelos pernambucanos era completa, o relacionamento do grupo atingiu um nível nunca antes vivenciado por nenhum daqueles jovens: não havia mais tabu algum.</p>
<p>O dia seguinte começou com um dos rapazes pondo a cabeça para fora da barraca e perguntando o porquê de sua calça estar molhada. Fomos pra piscina &#8211; alguma barraca gritou. Aos poucos foram acordando e se dando conta da triste realidade: não tinham água para beber nem para tomar banho. O calor parecia ter triplicado: a cidade estava prestes a derreter, ou a explodir, pensava o rapaz a procura de um lugar para tomar banho. Uma velha senhora cedeu seu banheiro para uma das garotas do grupo que antecipou a vinda de outros, a velha consentiu.</p>
<p>Um dos rapazes estava atrasado. Terminara correndo de arrumar o cabelo desarrumado, algumas garotas o esperavam na esquina para ir almoçar. Quando se aproximou delas notou que conversavam com um menino que segurava no braço esquerdo uma velha bola de basquete. Era Cesinha, um garoto de nove anos que morava com os pais numa casa perto do ginásio. Ele prometeu ensinar um caminho fácil para chegar ao supermercado e ao teatro. No percurso, muito mais perto que aqueles que eles conheciam, Cesinha impressionou a todos com sua desenvoltura. Ele fora treinar no ginásio como de costume e encontrara aquela comunidade acampada, como muitos fariam no dia seguinte. Falante, o menino contou que morara muito tempo em Manaus, mas que preferia Quixeramobim por conta da família e dos amigos.</p>
<p>Os sertões fora a primeira peça vista por ele. Cesinha foi com seus pais assitir A Terra e o Homem I e iria novamente naquele dia. A música e a beleza plástica do espetáculo o impressionaram bastante, bem como a participação da platéia &#8211; mas afirmou ter medo de participar pois achava que seria forçado a fazer alguma coisa ruim no palco. Ninguém te obriga a fazer nada não &#8211; tranqüilizaram os jovens. Cesinha contara muitas histórias sobre seus pais, sobre o treino de basquete e sobre a cidade em geral. Segundo ele, metade da população estava encantada com o mundo completamente novo apresentado por Os Sertões e a outra metade achava que tudo aquilo não passa de perversão &#8211; uma afronta à moral e à religião.</p>
<p>A Luta &#8211; parte I mal fora iniciada e muitas das pessoas da platéia já começavam a dar sinais de cansaço: a maratona de peças e farras é bastante exaustiva, disse uma das meninas. Mas naquela noite boa parte da trupe que foi do Recife a cidade de Conselheiro, não saiu do palco-passarela, onde encontraram o menino da bola de basquete, que havia desfeito a má impressão da interação com os atores.</p>
<p>A festa que seguiu à apresentação foi animada, com direito a lambada e a frevo no mesmo bar da noite anterior. Um senhor de longos cabelos brancos, e barba igualmente longa e branca, tirava fotos de todos com uma câmera digital: dizia registrar o Woodstock sertanejo. Quando o dia já estava claro uma parte do grupo recifense resolveu atravessar o rio quase seco que passava embaixo da famosa ponte metálica. Foram de uma margem a outra, passando por toda a vegetação encharcada, melando-se de lama e rindo até cair no chão. O dia nascia azul em Quixeramobim.</p>
<p>O primeiro a acordar bebeu um pouco de água e voltou a deitar. De repente viu alguém entrar no ginásio, levantou e perguntou o que o homem queria, ele respondeu que tinha duas cartas que gostaria de entregar a um dos rapazes e a uma das garotas do grupo; disse o nome do rapaz e da menina apenas uma breve descrição. Parte do grupo resolvera dormir aquela última noite numa pousada, pois já não agüentavam o calor que fazia no ginásio. Sendo assim, nenhum dos dois destinatários estavam ali naquele momento. O homem agradeceu e partiu. Mais tarde, as cartas se revelariam uma tentativa de converter os dois jovens à vida religiosa, afirmando que eles pareciam ser os únicos passíveis de salvação.</p>
<p>Aquele era o último dia na cidade, uma certa tristeza assolava os que lembravam desse fato. Depois de passarem a tarde no restaurante, resolveram desarmar as barracas e arrumar as malas, para por tudo na Sprinter antes do espetáculo, facilitando assim a partida que seria às três horas da madrugada da segunda-feira. O último banho fora tomado na pousada. Deixaram ali, tudo preparado para a partida.</p>
<p>No caminho para o teatro, passaram por um culto, uma missa e uma roda de capoeira. Estavam, eles também, a caminho de um ritual. Para ser mais fatal, para a finalização de um ritual. A Luta &#8211; parte II encerrava a mega-montagem e significava o fim da viagem. Só haviam conseguido negociar com Moisés até às três horas, como a peça deveria acabar mais de uma hora da madrugada, isso significava que aproveitariam pouquíssimo da última festa. Chegaram ao teatro na metade do primeiro ato, assistiram à peça resistindo ao cansaço que tomava conta de todos &#8211; em alguns momentos saiam do teatro e deitavam um pouco na arquibancada da praça de alimentação. Finalmente, os atuadores entoaram a última música, todos juntos num só coro, cantavam como numa seresta: <i>Ah! Sertão tão sem ser sertão. Rocha viva, voando ando. Ser estando, ser estando&#8230; Serestando&#8230; Tão sem ser&#8230;</i> A platéia emocionava-se e batia palmas. Uma mulher, contando os seus quarenta anos, deixou escapar lágrimas, que foram enxugadas por uma das atrizes. Durante os cinco dias de apresentações, os atores formaram laços com a platéia &#8211; pareciam compartilhar um relacionamento íntimo. Lágrimas contidas, a atriz abraça a espectadora, que se despede com um emocionado boa sorte. Alguns dos atores também choram. Até que eles saem da passarela, sob muitos aplausos &#8211; que são seguidos por um silêncio.</p>
<p>Foram todos para o bar de sempre: os últimos vivas à Xoxana. Ninguém parecia acreditar que tudo iria acabar em poucos minutos. A festa estava com o mesmo clima de transgressão, mas o momento de despedida se aproximava. Contudo, o tempo foi passando e Moisés não apareceu, havia dormido demais. Só surgiu às cinco da manhã com dia claro. Ainda assim, tentaram negociar outro horário, um pouco mais tarde. Nada feito: hora da despedida. Despediam-se da vida que levaram ali, dos amigos adquiridos e dos amores conquistados. A dor do amor rompido gritava em um dos rapazes: já na Sprinter, o retorno para um último adeus. Estava faltando uma garota de cabelos ruivos. Moisés afirmou que não poderia esperar, era o aniversário de seu filho. Assim, voltaram também treze jovens, no lugar daquela de cabelos ruivos o rapaz de cabelos desgrenhados.</p>
<p>Depois de algum tempo, o silêncio dominou a sprinter. Alguns dormiam, outros apenas contemplavam o sertão que deixavam para trás. Uma velha realidade os esperava de volta. Quixeramobim ficou no contorno do horizonte &#8211; eles tinham a certeza que assim como a cidade, jamais seriam os mesmos. A trilha que percorreram não aceitava retorno, foram transhumanizados pelas utopias do Conselheiro Zé Celso. Pouco a pouco foram acordando do sono, ou do transe. Minutos depois estavam a gritar, a cantar, a fazer arte. Programaram uma viagem para Bonito, para o Maranhão, para o Rio de Janeiro e para Saturno. O ritual antropofágico jamais será apagado &#8211; dali pra frente seguem sempre ser estando.</p>
<p><i>Material dos ventos ventre, saudade do futuro-passado, no presente subsolo vazando o desejo, serestando sertanejo despedaçando cada pedaço, juntando novo, no novo abraço.</i></p>
<p>Era o fim da tragycomediorgya.</p>
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		<title>Os mais céticos exclamariam: “Quanta ascensão, nem parece um filme nacional!”</title>
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		<pubDate>Wed, 09 Jan 2008 13:20:51 +0000</pubDate>
		<dc:creator>jornalismoufpe2006</dc:creator>
				<category><![CDATA[José Bruno Marinho]]></category>
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		<description><![CDATA[A imagem do Brasil no exterior é, de fato, permeada por clichês e estereótipos. O olhar estrangeiro capta, a priori, o que lhe é diferente, o que lhe é estranho, eliminando todo o restante. Isso porque idéias pré-concebidas &#8211; congeladas por filmes que reduzem o diversificado celeiro de nacionalidades verificadas no continente a um único [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=sejogabrasil.wordpress.com&amp;blog=2450824&amp;post=48&amp;subd=sejogabrasil&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>   <b>              </b>A imagem do Brasil no exterior é, de fato, permeada por clichês e estereótipos. O olhar estrangeiro capta, <i>a priori</i>, o que lhe é diferente, o que lhe é estranho, eliminando todo o restante. Isso porque idéias pré-concebidas &#8211; congeladas por filmes que reduzem o diversificado celeiro de nacionalidades verificadas no continente a um único tipo &#8220;latino&#8221;, caricatural ao extremo &#8211; são reproduzidas em múltiplas línguas, em escala mundial, educando de maneira notavelmente errônea os espectadores mais desavisados e menos conscientes de até onde aquelas imagens apresentam consonância com a realidade. A estranha relação existente entre o estrangeiro e nós, brasileiros, é caracterizada por uma condição de diferença que, mais do que sentida, foi criada e imposta ao longo dos anos. Não raramente, o olhar de um público estrangeiro sente dificuldades em alcançar o além do clichê e, por isso, inicialmente estranha quando se depara, na tela grande, com uma mulher brasileira com um quê de raciocínio, por exemplo (&#8220;como assim ela não é apenas sensualidade?&#8221;, espectadores de outros países podem se questionar). Porém, durante décadas, muitos preferiram, uma vez passado o estranhamento inicial, reaceitar aquela idéia mitificada que já cultuavam há tempos &#8211; afinal, é mais cômodo e prático se submeter aos tentadores simplismos do senso-comum do que admitir a existência de realidades mais complexas.</p>
<p>No entanto, é justamente na contramão dessa prática de assimilar o irreal que podem ser encaixados os recentes filmes pernambucanos que fazem sucesso diante de platéias estrangeiras. <i>Cinema, aspirinas e urubus </i>(Marcelo Gomes, 2006); <i>Baixio das Bestas </i>(Cláudio Assis, 2007) e <i>Deserto Feliz</i> (Paulo Caldas, 2007) são exemplos de produções cinematográficas locais que conseguem comunicar e que têm seu valor reconhecido sem abandonar uma posição de fidelidade aos ideais de seus realizadores. Ou seja, sem ceder espaço à tentação dos estereótipos que facilitariam a compreensão (ou seria aceitação?) da obra fílmica Brasil afora. E, com isso, distanciam-se daquele obsoleto clichê de paraíso tropical onde o Carnaval, as mulheres bronzeadas e o futebol são onipresentes e imprescindíveis. E vão além: funcionam como um verdadeiro espelho que revela um panorama da história e/ou da sociedade local. Ao retratarem um Brasil a partir de uma realidade social, até certa parte, ainda inédita aos olhos externos, eles fazem do entretenimento um exercício de pensamento e continuam a encantar e a surpreender pessoas das mais distintas culturas e nacionalidades com um cinema de imagens gritantes que convida a pensar.</p>
<p>Na verdade, todo esse vigor do qual se alimenta a caracterização do cinema produzido atualmente em Pernambuco é fruto de um certo descontentamento e uma certa inquietude por parte daqueles realizadores que conviveram, por um longo período de tempo, com a ausência de condições favoráveis e estimuladoras à produção cinematográfica, vendo-se habitando um celeiro marcado pelo marasmo e pelo vazio. Sem uma estrutura de produção, ou seja, em meio à carência de recursos financeiros, técnicos e humanos, assim se iniciou a retomada do cinema pernambucano. Esta ocorreu mais pela vontade e iniciativa daqueles que pretendiam se consolidar na carreira cinematográfica sem precisar se deparar com a migração a outro Estado como condicionante para tal. E menos pela existência de um cenário que acenasse favoravelmente a uma mudança radical. Impulsionado pelo rancor e empenho destes poucos, o cinema pernambucano ressurgiu e, desde então, vêm sendo marcado por um conteúdo visceral, de imagens urgentes e mensagens diretas. Através de filmes autorais, marcados por notável singularidade, a produção cinematográfica local afronta uma indústria e um mercado que rejeitam o diferente e tudo aquilo mais que ainda não foi imposto o suficiente para ser considerado garantia de sucesso e, portanto, digno de investimentos. É como se, mesmo sendo produzidos em meio a tantas limitações, o os filmes pernambucanos fossem dotados de um vigor notável e estivessem sempre à espera que novos olhares (e por que não prêmios também?) surjam para registrar e difundir toda essa vitalidade.</p>
<p>Mais de uma década depois do lançamento de Baile Perfumado (Paulo Caldas e Lírio Ferreira, 1997) &#8211; filme-chave da retomada do cinema pernambucano, pois pôs fim a um período de quase 20 anos sem a produção de longas-metragens locais -, a safra recente dos filmes pernambucanos vem sendo bem recebida dentro e fora das fronteiras nacionais. O nível das qualidades e dos acertos dessas obras fílmicas assim como do talento dos seus diretores pode ser medido, em especial, por meio da repercussão que obtiveram na maioria dos festivais nacionais e internacionais nos quais foram exibidos. No âmbito nacional, as participações e premiações em festivais vieram a ratificar Pernambuco como uma referência em se tratando de cinema. Nosso estado é tido, atualmente, como o principal pólo de produção audiovisual do País situado fora do eixo Rio &#8211; São Paulo. No panorama internacional, os inúmeros convites e prêmios de festivais trouxeram não apenas reconhecimento, como também prestígio artístico de alto padrão, algo que muitos filmes comerciais e com maior poder de penetração no mercado, ainda que muito tentem, simplesmente desconhecem.</p>
<p>O acesso dos filmes pernambucanos aos mais renomados festivais de cinema do mundo &#8211; Cannes, Berlim, Veneza, Roterdã, entre outros &#8211; tem se revelado freqüente nos últimos anos. Em 2003, Cláudio Assis viu-se participando, com o seu <i>Amarelo Manga</i>, do Festival de Berlim. Dois anos depois, foi a vez de Lírio Ferreira promover a estréia do seu longa <i>Árido Movie</i> na presença da platéia do Festival de Veneza.               Em fevereiro do ano passado, Cláudio Assis surpreendeu novamente com seu mais recente filme, <i>Baixio das Bestas</i>, que conquistou um dos três Tigers de Melhor Filme da 36ª edição do Festival Internacional de Filmes em Roterdã, na Holanda. Além do troféu, o cineasta pernambucano dividiu, com os outros dois vencedores, a premiação total de quase dez mil euros oferecida pelo festival que já se consolidou como um dos eventos mais importantes do cinema independente mundial. No discurso de premiação, o júri creditou sua escolha pelo longa-metragem brasileiro como um dos premiados do ano à &#8220;crueza, energia e força visual em uma história contundente no processo de degradação moral e social de um Brasil de excluídos&#8221;. Além de valorizar o cinema visceral praticado por Assis, tal prêmio atraiu publicidade ao seu mais novo filme. Como conseqüência da consagração no festival, <i>Baixio das Bestas </i>foi exibido nos cinemas e na televisão pública da Holanda e mais: adquiriu a atenção dos produtores de outros festivais de cinema não apenas para a obra em si, mas, sobretudo, para o iniciante cineasta, o qual passou a gozar do respeito por parte dos profissionais da área. No dia seguinte à premiação, Cláudio Assis acordou com mais do que um prêmio de um festival que contou com mais de 300 filmes (entre curtas e longas) competindo entre si e foi prestigiado por cerca de 370 mil pessoas. Na verdade, ele encontrou em suas mãos o passaporte rumo a um caminho menos árduo na heróica jornada de conseguir financiamento de produtoras e co-produtoras para os seus projetos futuros.</p>
<p>Uma das maiores honrarias já experimentadas pelo cinema pernambucano data, porém, do lançamento estrangeiro de <i>Cinema, Aspirinas e Urubus</i>. O primeiro longa-metragem de Marcelo Gomes adquiriu mais de 40 prêmios em festivais nacionais e internacionais. Com uma história de ambientação regional &#8211; porém, de alcance universal -, o filme conquistou aplausos das mais diversas nacionalidades, arrancando também elogios nos idiomas os mais distintos. Exibido em 2005 na mostra <i>Un Certain Regard </i>(&#8220;Um Certo Olhar&#8221;) do Festival de Cannes, <i>Cinema, Aspirinas e Urubus</i> recebeu o Prêmio da Educação Nacional, concedido pelo Ministério de Educação da França. Em nota à imprensa, o júri da premiação justificou a escolha final de conceder o prêmio ao primeiro filme de Marcelo Gomes &#8211; entre aproximadamente 1.600 produções cinematográficas inscritas em tal mostra paralela &#8211; por enxergar no longa um cinema raro, incisivo e rigoroso, situado no terreno fronteiriço entre documentário e ficção e possuidor de numerosas trilhas artísticas e pedagógicas que fazem de <i>Cinema, Aspirinas e Urubus </i>um exemplo incontestável de uma obra de arte.</p>
<p>No Festival de Cannes, a repercussão do filme, que traz a história de uma amizade construída entre um nordestino humilde e um alemão fugitivo da guerra, foi particularmente grande. No discurso da entrega do prêmio ao cineasta pernambucano, os jurados afirmaram terem sido surpreendidos diante de um interessante e peculiar tratamento cinematográfico de uma história humana carregada de esperança e que oscila com maestria e segurança entre uma abordagem quase documental e um olhar extremamente poético. &#8220;Nós fomos seduzidos pelos dois personagens, tanto pela interpretação dos dois atores [o brasileiro João Miguel e o alemão Peter Ketnath] como pela composição e pela evolução dos personagens que eles interpretam, além da ambigüidade da sua relação com os outros e a reclusa dos clichês&#8221;. E, partindo da premissa de que &#8211; durante a realização de um filme &#8211; o diretor lida constantemente com expectativas e intuições que só serão correspondidas (ou não) quando da exibição da obra a um público, Marcelo Gomes deve ter, de fato, ficado tão emocionado quanto satisfatoriamente alegre com as palavras finais do discurso do júri acerca da sua primeira produção cinematográfica. Aquelas diziam: &#8220;Ainda que pertença a uma cinematografia pouco difundida, esse filme, que se insere na tradição cinematográfica do <i>road movie</i> e se inspira no neo-realismo, possui uma característica essencial do cinema, que é a capacidade de mudar o nosso olhar sobre o mundo&#8221;.</p>
<p>Em recente entrevista à Folha de S.Paulo, o diretor pernambucano traduziu em palavras toda a sua satisfação com os elogios da crítica francesa ao seu primeiro filme e com a premiação conquistada em Cannes. Questionado sobre o que representava para ele, um diretor nordestino que produz fora do eixo Rio &#8211; São Paulo, chegar ao ponto de ter logo seu primeiro longa reconhecido em tal festival, Gomes respondeu: &#8220;Eu acho que dá um alento para os cineastas que estão espalhados pelo Brasil. Mostra que é possível fazer cinema, basta ter determinação. Cannes está aberto não só para cineastas que têm uma cinematografia mais estabelecida. Está aberto para cineastas que vêm de Pernambuco também&#8221;. Não apenas Cannes, caro Gomes. Outros festivais também. Os fatos ratificam que a produção cinematográfica pernambucana, ao se permitir trilhar caminhos mais ousados e experimentais, tem recebido aplausos e elogios do público, contemplação e opiniões favoráveis por parte da crítica e premiações numa freqüência que surpreende e numa quantidade que impressiona. E o mais novo responsável por garantir a continuidade dessa fase incontestavelmente histórica e frutífera, tanto quanto inédita, para o cinema produzido e praticado em Pernambuco atende pelo título de <i>Deserto Feliz</i>. O filme do pernambucano Paulo Caldas, que só estreará nas telas nacionais no primeiro semestre de 2008, já construiu, porém, uma trajetória internacional. No ano passado, foi selecionado para integrar a concorrida mostra <i>Panorama</i> do 57º Festival de Berlim, na Alemanha, além de garantir a Caldas o prêmio de Melhor Diretor no Festival Internacional de Guadalajara. Em terras brasileiras, o reconhecimento do valor e das qualidades de <i>Deserto Feliz </i>descortina-se nos vários Kikitos conquistados pelo filme no último Festival de Gramado.</p>
<p>Enfim, o fato é que os cineastas fazem filmes para que estes sejam vistos e, quanto mais pessoas assistem a uma obra fílmica, mais realizado sente-se o seu diretor. Entretanto, por mais qualidades ou méritos que possuam, dificilmente os bons filmes nacionais conseguem impor seu cinema criativo e autoral às salas escuras de tela grande de outros países (e até mesmo em mercados locais) quando desprovidos de uma grande produtora que lhes ofereça a influência e o capital necessários para tal. Nesse panorama, visualizam-se com mais nitidez as vantagens dos filmes locais em participarem dos festivais de cinema situados para além das fronteiras nacionais. Lançar um filme em um festival estrangeiro atrai, inclusive, maiores olhares da imprensa nacional. &#8220;Lá fora, a imprensa brasileira disponibiliza generosa atenção a um filme pernambucano ou de qualquer outra parte do Brasil que esteja participando ou concorrendo num festival internacional. Porém, se esse mesmo filme tivesse sua estréia aqui, numa sala do Recife, ele seria apenas mais um. Não possuiria um atrativo a mais para justificar uma cobertura ampla por parte da imprensa&#8221;, destaca o crítico de cinema Luiz Joaquim. Dessa forma, os prêmios conquistados nessas ocasiões, ou até mesmo apenas o convite para ser exibido em tais festivais, podem se desdobrar em mais olhares atentos ao cinema atualmente produzido em terras pernambucanas. Podem se traduzir também em maiores facilidades para um diretor encontrar interessados em patrocinar seus projetos e suas idéias, além de contribuir, na mais otimista das perspectivas, para que outros e futuros filmes do mesmo país ou estado disponham de semelhante atenção e curiosidade por parte do público, da crítica especializada e da imprensa estrangeira.</p>
<p>E o mais interessante de tudo isso é que a fidelidade dos cineastas pernambucanos à singularidade dos seus projetos e de suas idéias não foi rebaixada a um segundo plano ao longo dessa trajetória por telas estrangeiras. Assis, Caldas, Ferreira e Gomes, entre outros, querem, de fato, conquistar um público para os seus filmes. Porém, eles não fazem concessões. Pelo contrário, distanciam-se ao máximo de qualquer tipo de alteração ou intervenção externa visando a uma aceitação mais fácil e instantânea, afinal desejam conquistar o olhar dos espectadores com o filme que eles próprios idealizaram e fizeram. E, numa ode à verdade, vale destacar que nenhum dos filmes recentemente produzidos em Pernambuco recorre a fórmulas prontas que funcionam como senhas capazes de abrir a caixa registradora das bilheterias. Mesmo diante das dificuldades inerentes à produção e à distribuição de suas obras, os cineastas pernambucanos seguem, embora rastejando, no rumo oposto às tentações de um caminho que retira em liberdade o que disponibiliza sob a forma de facilidades.</p>
<p>Um exemplo que, sem sombra de dúvida, ratifica tal constatação foi o caso sucedido com Marcelo Gomes. Em meio ao desespero para encontrar financiamento para a finalização de <i>Cinema, Aspirinas e Urubus</i>, o cineasta pernambucano enviou uma versão não-acabada do seu filme para duas distribuidoras americanas. Uma delas devolveu o material sob a justificativa de que provavelmente havia algum problema na fita, pois o início do filme era só silêncio, desprovido de qualquer vestígio de diálogo. E a outra informou que o filme não poderia ser distribuído, visto que, nele, nada acontecia. Seria absurdo concordar e/ou se submeter a tais pensamentos, possivelmente deve ter pensado Gomes. Alguns meses e muitos desafios e obstáculos vencidos depois, a recompensa em numerosos festivais internacionais. Como maior saldo, mais do que a premiação em forma de dinheiro, de troféus e de novos contratos. Em seu lugar, o memorável reconhecimento de quem realmente é capaz de distinguir as qualidades de um bom filme: um grande cineasta. Após o lançamento de <i>Cinema, Aspirinas e Urubus </i>em Berlim, numa mesa de restaurante e na companhia de um chope e de Wim Wenders, Gomes escuta do famoso diretor alemão uma pergunta mais do que representativa (e repleta de elogios nas entrelinhas): &#8220;Marcelo, mas esse é mesmo o seu primeiro longa?&#8221;.</p>
<br /><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/categories/sejogabrasil.wordpress.com/48/" /> <img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/tags/sejogabrasil.wordpress.com/48/" /> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/sejogabrasil.wordpress.com/48/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/sejogabrasil.wordpress.com/48/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/sejogabrasil.wordpress.com/48/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/sejogabrasil.wordpress.com/48/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/sejogabrasil.wordpress.com/48/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/sejogabrasil.wordpress.com/48/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/sejogabrasil.wordpress.com/48/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/sejogabrasil.wordpress.com/48/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/sejogabrasil.wordpress.com/48/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/sejogabrasil.wordpress.com/48/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/sejogabrasil.wordpress.com/48/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/sejogabrasil.wordpress.com/48/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/sejogabrasil.wordpress.com/48/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/sejogabrasil.wordpress.com/48/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=sejogabrasil.wordpress.com&amp;blog=2450824&amp;post=48&amp;subd=sejogabrasil&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>&#8220;E dizem que no Coque só tem marginal&#8230;&#8221;</title>
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		<pubDate>Wed, 09 Jan 2008 12:50:27 +0000</pubDate>
		<dc:creator>jornalismoufpe2006</dc:creator>
				<category><![CDATA[Rafael Mesquita]]></category>
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		<description><![CDATA[&#8220;Ticatacataca, titicatacata, ticatiti&#8230;&#8221; repete o professor ao seu jovem aluno, movendo as mãos, ilustrando a cadência das notas. &#8220;Tenta de novo&#8221;. O garoto se prepara para tocar mais uma vez a passagem da peça, acomoda o violino entre o ombro e o queixo, o professor ergue o braço do instrumento segurado pelo braçinho do menino [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=sejogabrasil.wordpress.com&amp;blog=2450824&amp;post=47&amp;subd=sejogabrasil&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align="justify">             &#8220;Ticatacataca, titicatacata, ticatiti&#8230;&#8221; repete o professor ao seu jovem aluno, movendo as mãos, ilustrando a cadência das notas. &#8220;Tenta de novo&#8221;. O garoto se prepara para tocar mais uma vez a passagem da peça, acomoda o violino entre o ombro e o queixo, o professor ergue o braço do instrumento segurado pelo braçinho do menino &#8220;Se acostume com essa postura.&#8221;</p>
<p align="justify">            Enquanto eles tocam novamente a passagem, parando e fazendo correções, outras crianças nas proximidades se ocupam de outras atividades: uma ensaia a posição dos dedos no violino, outro pequenino se ajeita para tocar um violoncelo que é quase do seu tamanho, uns três estão debruçados sobre o celular do professor, jogando um joguinho simples enquanto esperam sua vez de tocar, e um aparece de vez em quando em cima de uma bicicleta, pedalando sob o sol e entre as casinhas brancas do Projeto Orquestra Criança Cidadã dos Meninos do Coque.</p>
<p align="justify">            Aqui, tem-se a impressão que o vento está sempre carregando alguma melodia, quase como se a produzisse espontaneamente. A qualquer momento encontram-se meninos e meninas com instrumentos em punho, lendo partituras sob a sombra das árvores. O projeto está localizado dentro do 7º Depósito de Suprimentos (7º DSUP), ou &#8220;Quartel do Cabanga&#8221; como é costumeiramente chamado pelos moradores da região. Ele foi idealizado pelo juiz corregedor José João Rocha Targino fruto de um desejo seu de instaurar um trabalho de inclusão social a partir da música em uma comunidade carente. Após ele ter passado certo tempo coordenando outra atividade filantrópica, a Associação Beneficente Criança Cidadã (ABCC), a convite do desembargador Nildo Nery, surgiu nele a vontade de iniciar um projeto como esse. &#8220;Aquilo tornou-se quase uma obsessão para mim&#8221;.</p>
<p align="justify">            O estopim dessa empreitada se deu em uma noite em que o juiz Targino assistiu a um concerto no Auditório do Diário de Pernambuco, regido pelo maestro Cussy de Almeida, com jovens e crianças do Projeto Suzuki do Alto do Céu. &#8220;É isso que eu quero fazer!&#8221; pensou o juiz, que no dia seguinte ligou para o maestro para perguntar-lhe se ele teria interesse em ajudá-lo a iniciar um projeto semelhante com meninos do Coque. O maestro aceitou, mas com uma condição: que o projeto não fosse sustentado majoritariamente pela verba pública. O referido Projeto Suzuki do Alto do Céu arcara com quase dois anos de impasses e entraves orçamentários decorrentes da ineficácia do setor público, da descontinuidade de assistência que sobrevêm com cada nova administração, dentre outras disfunções.</p>
<p align="justify">            Porém, canalizar recursos da iniciativa privada é um processo igualmente tortuoso. &#8220;É dificílimo fazer algo no plano social neste país, principalmente se for um projeto sério&#8230; mas levando um <i>sim</i> aqui e dez <i>nãos</i> acolá começamos o projeto&#8221;, relembra-se o juiz Targino. Surgiram eventualmente algumas contribuições mais substanciais, do presidente da CNI, Armando Monteiro; da Igreja dos Mórmons, do BGN, e posteriormente da Chesf. Um dos colaboradores de maior importância foi o Exército, que doou a escola onde funciona a orquestra. Como ela está nas dependências de um quartel militar, eliminam-se os gastos com segurança, que seriam, sem dúvida, imprescindíveis em outros ambientes, principalmente nos arredores do bairro onde moram as crianças.</p>
<p align="justify">            O Coque é um local estigmatizado pelo selo da criminalidade. Para uma criança de lá, as coisas do cotidiano, o que se vê, são pouco reconfortantes. A pedagoga Dalva lembra-se bem dos primeiros contatos com os meninos recém-chegados ao projeto &#8220;O Coque é um ambiente em que só se fala de bala, de droga&#8230; os alunos chegavam dizendo <i>‘Professora! Derrubaram (mataram) fulano!&#8217;</i>, <i>‘Prenderam fulano ontem, tia!&#8217;</i>,<i> ‘Tia, meu primo tem uma arma, tia&#8230;&#8217;</i> &#8230; eu pedi para eles me prometerem que quando chegassem naquele portão de entrada do quartel eles iriam esquecer aquela parte de lá, iriam vão viver aqui uma coisa diferente, um mundo melhor&#8221;. Em seu primeiro dia de aula, que teve de acontecer na recepção, já que na época ainda não havia sala para ela, D. Dalva pediu aos alunos que escrevessem uma redação sobre &#8220;Quem eles eram, o que está mudando e o que eles desejam ser&#8221;. Em folhas de papel escuro, crespo, igual àquele usado para secar as mãos, as crianças contaram suas histórias:</p>
<p align="justify"><i>Eu ia pra rua brincar com quem não presta&#8230;</i></p>
<p align="justify"><i>Tomava banho de maré, vivia solto na rua&#8230;</i></p>
<p align="justify"><i>Ia catar caranguejo pra comer e alimentar minha mãe&#8230;</i></p>
<p align="justify"><i>Eu me perguntava &#8220;Será que quando eu crescer vou ser uma dessas pessoas que não é nada, que não quer nada com a vida? Só sabe assaltar e matar, roubar&#8230;&#8221;</i></p>
<p align="justify"><i></i></p>
<p align="justify">E os novos sonhos que brotaram neles:</p>
<p align="justify"><i>Quero ser violinista na Orquestra Sinfônica de Berlim&#8230;</i></p>
<p align="justify"><i>Penso no meu futuro, nos aplausos, as pessoas dizendo: olha! Ele é profissional! &#8230; tocar em casamentos de barão e empresários, ser famoso para ajudar minha família e ser o melhor violinista do mundo!</i></p>
<p align="justify"><i>O que desejo ser é uma grande celista, mas também uma grande cidadã.</i></p>
<p align="justify">As fábricas desses novos sonhos são as salas de aula, onde meninos que antes catavam caranguejo e tomavam banho em córregos fétidos descobrem Händel, Vivaldi, Bach&#8230; São salas modestas, seu isolamento acústico é simples: caixas de ovos que revestem as paredes, algumas têm desenhos pendurados, retratando todo tipo de nota e intervalo musical, ou textos escritos pelos alunos com hidrocores coloridos, e em todas as salas há um cartaz com os dizeres &#8220;1-Disciplina. 2-Aproveitamento. 3-Humildade&#8221; Os pilares do ensino no projeto segundo o maestro Cussy de Almeida.</p>
<p align="justify">            &#8220;Disciplina é fundamental. Sem disciplina não se aprende nada, nem arte&#8221; afirma o maestro. De fato, nada prescinde a disciplina em uma escola onde se repete a mesma partitura 200 vezes, no mínimo, antes de se passar para a próxima. Porém, disciplina e infância sempre foram uma díade problemática. Quando chegaram, as crianças eram muito difíceis: encrenqueiras, desobedientes, e cheias da energia inquieta da infância&#8230; deram um trabalho enorme aos professores, e algumas ainda dão. Otávio, professor de viola, sintetiza bem o processo &#8220;Algumas pessoas podem chegar e dizer &#8216;Esse menino é um pestinha!&#8217;, mas é porque não o viram um ano atrás!&#8221; Agora, passado mais de um ano de funcionamento da escola, algumas crianças estão irreconhecíveis de tão serenas. &#8220;De repente, depois de 10 anos, esse menino vira um padre!&#8221;</p>
<p align="justify">            Mas às vezes, quem tem de tomar o caso nas mãos é o maestro. Com todas as situações que ocorreram desde início da orquestra até hoje, ele tem colecionando alguns casos disciplinares bastante curiosos. Um deles: os meninos tinham o hábito de jogar pedras por aí, um dia o maestro pegou uma das pedras, que devia ter quase 1kg, embrulhou em papel de presente e disse a um dos garotos que ele ia ter que carregar a pedra no bolso durante toda a semana, e ainda avisou aos pais que ele dormisse com a pedra embaixo do travesseiro. Somam-se a esse outros casos de punições pouco convencionais, como um em que ele mandou um garoto copiar o hino nacional 30 vezes, tirando de ouvido, nota a nota.</p>
<p align="justify">            &#8220;Aqui não se alisa&#8221; é o axioma do maestro. Mas essa ênfase na disciplina não foi, a princípio, tão bem vista por todos. Porém, ele sabe da importância de seus métodos para edificar nas crianças a disciplina que o estudo da música requer, &#8220;Você é inimigo do menino se não discipliná-lo&#8230; Só não se pode fazê-lo de cabeça quente, porque aí você estaria descarregando suas frustrações e rancores nele.&#8221;</p>
<p align="justify">            Um dos problemas que gera a indisciplina é a falta de autoridade na vida de crianças carentes. Vivendo soltas, com poucas ordens a acatar, não é de se surpreender que elas tenham problemas quando, de repente, se deparam com uma ordem hierárquica que precisam respeitar. &#8220;A gente nota que eles precisam de disciplina quando eles desafiam a autoridade&#8221; diz a psicóloga do projeto, Soraya, &#8220;eles têm dificuldade com autoridade, com todo mundo praticamente, exceto com o maestro&#8221;. Desde junho, data em que ingressou como voluntária na orquestra, Soraya vem realizando as reuniões com os professores e o acompanhamento psicológico dos meninos e meninas da orquestra. Algumas das crianças são encaminhadas por ela a outros profissionais, como fonoaudiólogos e psicólogos, dependendo da natureza e gravidade de seus problemas individuais. Também é uma de suas funções no projeto ministrar aulas sobre temas pertinentes aos jovens, como educação sexual, risco de gravidez, o estatuto da criança e do adolescente, etc.</p>
<p align="justify">            Mas nem todos os problemas dos meninos do Coque podem ser resolvidos pela psicologia. Alunos de escola pública, esses jovens apresentam sérias defasagens educacionais. Há alunos de 7ª e 8ª série que não dominam as quatro operações e crianças já da 1ª série ainda não alfabetizadas. Quem tenta sanar esse atraso é a pedagoga do projeto, Dalva. Ela foi convidada a participar do projeto pelo desembargador Nildo Neire, presidente da ABCC, o projeto macro que engloba a orquestra e também outras iniciativas. Apesar de sua vontade de realizar um trabalho assim, ela teve que recusar a proposta em um primeiro momento pois quis estar ao lado seu pai, no interior do estado, que estava em seus últimos dias de vida. &#8220;Eu queria passar esses últimos momentos com ele&#8230; então disse ao Dr. Nildo que eu não poderia aceitar a proposta dele no momento&#8221;, o desembargador compreendeu, e ela foi ter com seu pai. Passados 10 dias, foi o tempo de Dona Dalva retornar e da vontade de ajudar ressurgir em seu coração, &#8220;Eu nunca deixo passar o que o coração pede&#8221; é sua resposta invariável a pulsões como essa.</p>
<p align="justify">            D. Dalva tem uma aparência simples, olhos pretos atrás de um par óculos e cabelos pretos embaixo de um diadema. Ela senta serena atrás da banca onde presta assistência aos alunos, que são o motivo de aparecer em seu rosto um sorriso estreito de vez em quando, ou um semblante introspectivo. Mas apesar desses gestos contidos, é com vigor que ela conta como foi quando ela enfim aceitou trabalhar na orquestra. &#8220;Eu queria realizar um trabalho voluntário, então eu nem olhei o valor do salário. Dentro de mim eu senti, com muito orgulho: é um trabalho que eu vou fazer e vou fazer por amor.&#8221;</p>
<p align="justify">            A sala de aula em que D. Dalva ministra seu reforço escolar é uma sala comprida, em que há luz do sol entrando pelos combongós da parede, ventiladores grandes e ruidosos girando, armários de metal ao fundo, e um quadro negro em que sempre há alguma coisa escrita à giz, seja da aula do dia ou um rabisco ainda não apagado do dia anterior. Mas nem sempre a sala está cheia. O principal do projeto ainda é a formação musical, então não é raro ver um aluno entrando na sala, carregando um instrumento dentro do case, desculpando-se pelo atraso &#8220;Tava tendo aula de instrumento, professora&#8230;&#8221;. Há também aqueles que são mais dados à musica que às letras. O pequeno Daniel, o mascote da orquestra como é chamado (&#8220;<i>Ele entrou aqui pela fechadura!</i>&#8220;, dizem as outras crianças), consegue ler uma partitura facilmente mas ainda não sabe o beabá.</p>
<p align="justify">            &#8220;De 42 alunos, apenas meia dúzia dominava as 4 operações&#8221; aponta D. Dalva sobre o grupo de alunos recentemente avaliado para admissão no projeto. Há muito para se fazer, mas os resultados têm sido animadores. A vontade de continuar na orquestra é um dos fatores que impulsionam o aprendizado. Um dos alunos, que é também um violinista proeminente da orquestra, Júlio Carlos, chegou a mudar sua caligrafia, de rabiscos incertos de garoto para retas elegantes de artista, tentando igualar a escrita de um de seus professores mais admirados. As crianças contam em suas redações, que vão ficando mais coloridas e ornadas com cada nova oportunidade, como agradecem a Deus (e aos patrocinadores) pela orquestra, sempre radiantes e esperançosas que um dia venham a sustentar sua família com seu trabalho. Nenhuma delas deixa fora de seus sonhos a família; e as famílias, por sua vez, vêem nos pequeninos a realização dos seus sonhos. Como no caso do pequeno Guilherme, que quando toca seu violino em casa (&#8220;<i>Oh, meu netinho&#8230;</i>&#8221; lhe diz sua avó de olhos lacrimejantes) ouve sua mãe dizer-lhe que é ele quem vive o sonho que ela sonhou para si. As crianças todas contam como a orquestra é para elas um mundo novo que lhes dá esperança:</p>
<p align="justify"><i>Agora eu não cato mais caranguejo, porque tenho aula de música com meus professores para me ajudar a ser uma pessoa de bem&#8230;</i></p>
<p align="justify"><i>Agora estou aqui sonhando eu mais velho, tocando, ajudando minha mãe e quem me ajudou.</i></p>
<p align="justify"><i>Já estou tão acostumada de vir que quando não venho me bate uma angústia que parece que estou perdendo algo, e estou.</i></p>
<p align="justify">Uma das alunas, Jéssica Maria, diz ter nascido de novo após entrar na orquestra. Hoje ela tem por melhor amigo o seu violino, a quem confidencia seus pensamentos e segredos. À incerteza, que antes nublava as esperanças futuras dessa menina do Coque, ela responde com &#8220;O violino é minha vida&#8221; em sua redação.</p>
<p align="justify">            Os resultados desse profundo processo educacional não são manifestos somente no aprendizado musical, mas também se convertem na assimilação de valores cívicos. Palavras como &#8220;com licença&#8221; e &#8220;por favor&#8221;, que antes eram raras no vocabulário dos meninos, já aparecem com freqüência em suas frases. É também espantosa a naturalidade com que eles discutem arpejos, bemóis, sustenidos e bequadros, como se tivessem nascido com isso. &#8220;Eles estão apaixonados pela música&#8230;&#8221; comenta a professora de musicalização, Janayna, &#8220;chegam até a brigar por aula!&#8221;.</p>
<p align="justify">            Janayna foi convidada pelo maestro a participar do projeto, e conta que não vê diferença entre seus alunos do conservatório e as crianças do Coque &#8220;As pessoas acham que porque são crianças do Coque são uns marginaizinhos&#8230; mas não são. São crianças como outras crianças. O carinho é parecido, até a indisciplina é parecida&#8221;. De fato, a sala de aula de Janayna se aparenta com qualquer outra sala cheia de crianças: todos se chamando por apelidos que ninguém sabe como começaram, risinhos colorindo os cantos da sala, e pezinhos, que ainda não tocam o chão, balançando nas cadeiras.</p>
<p align="justify"><i>Quem toca o que aqui?</i></p>
<p align="justify"><i>Eu toco violino!</i></p>
<p align="justify"><i>Eu, violoncelo!</i></p>
<p align="justify"><i>Eu também!</i></p>
<p align="justify"><i>Violino, violino, violoncelo, viola, contra-baixo</i>&#8230; vai um deles listando, apontando para todos seus colegas na sala.</p>
<p align="justify">Uns já empunham seus instrumentos com orgulho (<i>&#8220;Olha só o meu!&#8221;</i>), que foram comprados pelos pais em dezenas de prestações.</p>
<p align="justify">Todavia, existem algumas diferenças entre o conservatório e a Orquestra Cidadã. Uma delas é a quantidade de aulas. Enquanto no conservatório o aluno tem duas aulas semanais, na orquestra há aula todo dia. São 5 horas diárias para todos os alunos, divididas entre aulas de teoria musical, canto coral, flauta doce e instrumento. &#8220;Meus primos dizem pra mim que eu vou pro Cotel, ficar preso o dia todo&#8221; diz Wanderson, um dos alunos, &#8220;mas quando eu volto pedem pra eu tocar pra eles.&#8221;</p>
<p align="justify">            Outra diferença sentida pelos professores é a motivação dos meninos. &#8220;Eles têm mais vontade de tocar que os meninos de conservatório têm&#8221; afirma o professor Felipe. Ele está no projeto há pouco mais de 5 meses, e sua entrada também foi a convite do maestro, que fora seu professor particular por 1 ano e meio. Mesmo sendo essa sua primeira experiência no ensino e crianças carentes, ele já afirma que se sente mais à vontade entre elas. &#8220;No início, a educação, o respeito ao professor, eram coisas complicadas&#8221; relembra o professor, que hoje mal precisa se valer da autoridade para se fazer entendido por seus alunos. Eles querem aprender violino. Diferente de alguns meninos que entram no conservatório porque seus pais acham o instrumento bonitinho. O maior interesse desses meninos e seu progresso contínuo têm sido motivo de satisfação para o jovem professor &#8220;Quando eles estudam, tocam seguros, solam na orquestra, isso é muito gratificante&#8230; mesmo se só estudassem seria bom, mostra interesse&#8221;. Em suas aulas, ao ar livre (&#8220;Não gosto de ar-condicionado, dá sono&#8221;), o professor Felipe atende a alguns dos meninos. A didática vai sob medida:</p>
<p align="justify">            &#8220;Você vai brigar com sua namorada&#8230;&#8221; ilustra o professor, que sai tirando com força as notas de seu violino, &#8220;mas depois você pensa ‘foi mal, amor&#8217;&#8230;&#8221; e então desenha com seu arco notinhas chorosas em tom de desculpas. Para um mais novinho (novinho demais pra essa história de namorada) a ilustração é outra. &#8220;Esse som aqui, é como se você estivesse num barquinho&#8230;&#8221;, &#8220;Aqui tem uma pausa&#8230; como se você estivesse subindo uma escada e ficasse cansado&#8221;, &#8220;Esse som aqui é um som gordo, ó só&#8230;&#8221; e assim vão até que o pequenino termina a peça. &#8220;Bom, mas esse é o melhor que você pode fazer?&#8221;, &#8220;Não&#8230;&#8221; responde ele com um sorrisinho acanhado, rodopiando seu arco com o dedo.</p>
<p align="justify">&#8220;Eles querem sair do Coque, querem uma vida diferente&#8221;, diz o professor. O passaporte não é só o pedaço de madeira de onde eles tiram tantas músicas, mas o aproveitamento do que o projeto tem a oferecer. &#8220;Não importa se estuda-se em Harvard se mesmo assim não há um bom aproveitamento por parte do aluno&#8221; salienta o maestro Cussy. Ele mesmo escuta pessoalmente os meninos e meninas, um a um, para avaliar seu progresso.</p>
<p align="justify">            O maestro Cussy de Almeida nutre enorme paixão pela música. Ele acredita que ela está em todo lugar (&#8220;é como oxigênio&#8230; é como Deus&#8221;), mas acredita também que ela não é para qualquer um. Por isso, a aptidão musical, aferida através de testes da noção rítmica, acuidade auditiva, etc., é um critério preponderante na admissão no projeto. Inicialmente, o processo seletivo era: as escolas da região enviavam alguns alunos, baseado em critérios objetivos (assiduidade, média global) e subjetivos (bom comportamento, etc), para serem avaliados pela equipe. De 500 nomes enviados, 130 foram selecionados.</p>
<p align="justify">            &#8220;Desde o início houve uma preocupação muito grande por quem está à frente desse projeto que ele se pautasse sempre por aspectos técnicos, nunca por favorecimentos de qualquer ordem&#8230; o talento sempre se fez prevalecer, e essa, eu diria, é uma das razões de o projeto ter alcançado tanto sucesso&#8221;, destaca o juiz Targino.</p>
<p align="justify">Testes trimestrais são feitos para aferir o desenvolvimento e aproveitamento do aluno. Os que não cumprem as metas saem. &#8220;Houve poucas saídas, mas na medida em que se constata que aquele garoto que foi selecionado, quando se vislumbrava que ele tinha uma vocação para a música, e realmente, não a tem, é preciso substituí-lo; sob pena do projeto estar gastando dinheiro em vão, investindo em alguém cuja vocação é outra&#8221;, diz o coordenador, juiz João Targino. É preciso eficiência, há metas a atingir e um orçamento para se dividir, embora isso não seja algo simples, afinal, cada aluno tem seu próprio ritmo de aprendizado; uns dominam rapidamente uma melodia nova, enquanto outros, mais lentos, vão ficando para trás.</p>
<p align="justify">Embora talento todos os alunos tenham, caso contrário não estariam na orquestra, há essa dissonância. E é justamente nessa dissonância que se desenvolve um fenômeno peculiar na orquestra. De repente, um garoto que não tinha auto-estima alguma, residente em um bairro à margem da sociedade, se vê progredindo mais rápido que seus colegas, recebendo aplausos mais sonoros das mais distintas autoridades quando termina seu solo&#8230; o resultado pode ser um acesso de soberba.</p>
<p align="justify">O próprio maestro sabe bem como esse orgulho intoxica a mente dos músicos, ele próprio teria muito do que se gabar: dotado de um talento inato como violinista, o maestro galgou vários prêmios ainda em tenra idade. Estudou no Conservatório Superior de Música em Genebra, onde conquistou o prêmio &#8220;Albert Lulin&#8221;, destinado ao aluno de melhor talento e capacidade de trabalho, para dois anos após receber o cobiçado Prêmio de Alta Virtuosidade do Conservatório de Genebra, onde, dos mais de 2.000 instrumentistas que entram, apenas 4 ou 5 se formam por ano. Mesmo carregando consigo uma trajetória tão gloriosa, o maestro Cussy não esquece da lição que aprendeu logo no início de sua ascensão musical &#8220;Quando eu fui a Paris, com 22 anos, como todo brasileiro eu achava que era bom demais; até que meu professor colocou uma japonesinha de 9 anos para tocar a mesma peça que eu ia tocar&#8230;&#8221;. Por causa desse episódio, ocorrido muito antes de chegarem os cabelos grisalhos à cabeça e as rugas às mãos, o maestro sabe da importância da humildade, o terceiro pilar do ensino no projeto. Juntamente com os outros dois pilares, que são o aproveitamento e a disciplina, forma-se a tríade que alicerça a edificação musical das crianças.</p>
<p align="center">* * *</p>
<p align="justify">            Adota-se no Projeto Orquestra Criança Cidadã dos Meninos do Coque uma adaptação do chamado método Suzuki, cuja eficiência didática tem sido o motivo de sua grande popularidade em todo o planeta. Naturalmente, seria impossível transpor integralmente a metodologia inventada pelo professor Shinichi Suzuki no Japão na década de 40 para um bairro pobre do Recife no séc XXI. No método original, por exemplo, é primordial o envolvimento dos pais com o aprendizado do aluno, indo assistir as aulas, acompanhando seu progresso, etc. Isso não acontece no Coque. Portanto, alterações tiveram que ser feitas, mas o principal do método Suzuki permanece: introduzir meninos e meninas ao estudo da música de forma lúdica. Para muitos, o ensino tradicional da música é um verdadeiro martírio, de tão extenuante e teórico. Alguns alunos passam quase um ano inteiro estudando teoria sem jamais tocarem um instrumento. O Suzuki inverteu a equação: os alunos têm contato com os instrumento logo cedo, aprendem as posições e movimentos de forma trivial, como se fosse uma brincadeira, sem aprofundamento inicial muito denso em teoria. Muitos alunos do método Suzuki, no início do aprendizado, conseguem tocar uma música completa sem nem saber como se lê uma partitura.</p>
<p align="justify">            Esse projeto não é a primeira adaptação do Suzuki em Pernambuco. O já mencionado Projeto Suzuki do Alto do Céu foi o primeiro a trazer essa metodologia de ensino para instruir musicalmente crianças e jovens de uma comunidade carente: o Alto do Céu, situado em Beberibe. Depois de 11 anos funcionando, o projeto terminou em 2005, e seus alunos se depararam com uma escolha: continuar seus estudos no conservatório ou ingressar no mercado de trabalho com os conhecimentos que já detinham. Um dos alunos de viola, Otávio, optara pelo mercado. &#8220;Eu era uma criança pobre, então eu vi uma possibilidade de ter o que eu queria, que era: dinheiro pra comprar isso, pra comprar aquilo&#8230;&#8221;. Hoje, Otávio ensina viola para as crianças da Orquestra Criança Cidadã juntamente com outra professora. A maior preocupação dele, entretanto, não é somente preparar seus alunos no manejo do instrumento, mas prepará-los para a vida. Ele vê o excesso de apresentações, a fama e o dinheiro como estímulos negativos para as crianças. Tendo sido ele também morador de um bairro carente, ele sabe o quanto a perspectiva de dinheiro rápido pode parecer atrativa a uma dessas crianças. &#8220;Você acaba querendo trabalhar por troca e esquece da música&#8221;, afirma o professor.</p>
<p align="justify">            Moço jovem, de 21 anos, ainda com marcas de espinha no rosto escassamente barbado, Otávio adquiriu uma consciência que tenta hoje passar para as crianças. Ele não quer que elas percam a oportunidade de se dedicarem exclusivamente estudo da música, mesmo após concluídos os 5 anos previstos no projeto. &#8220;O estudo da música é eterno&#8230; tudo você pode aperfeiçoar&#8221;. Seu aprendizado pelo método Suzuki começou aos 7 anos, porém, a necessidade de trabalhar, que lhe sobreveio aos 14 anos de idade, pontilhou seu estudo musical de paradas e retomadas. &#8220;Quando você chega aos seus 25&#8230; 26 anos, que é uma idade em que você de fato precisa trabalhar, o mercado só vai querer quem realmente entender do assunto&#8230; se você não entender, você não trabalha, vai ter que viver de bico&#8230; isso eu não quero pra eles. Eu tenho 21 e estou buscando isso agora, e eu sou professor daqui. Então eu não quero que eles passem pelo mesmo processo. Quero que eles cheguem na minha idade com condição de trabalhar&#8221;.</p>
<p align="justify">Otávio não tem diploma, diferente da outra professora de viola, mas ele sabe que a sua maior contribuição aos meninos e meninas da orquestra vai além do ensino de diferentes vibratos, rubatos e staccatos &#8220;A ajuda pra essas crianças do Coque não é tocar um instrumento, é tirar elas dessa realidade, fazer com que elas tenham uma realidade melhor; então essa coisa de dinheiro é muito preocupante, elas vão querer trabalhar e ganhar dinheiro, então a gente tem que colocar uma raiz boa nelas pra que o tronco já nasça direito, e elas venham a ter frutos saudáveis.&#8221;</p>
<p align="center">* * *</p>
<p align="justify">            Certa vez, o governador Eduardo Campos, em uma visita a projeto, perguntou &#8220;Como é que vocês, em 4 meses, alfabetizaram esses meninos e a escola não os alfabetizou em anos?&#8221;, &#8220;É que aqui tem aula!&#8221;, respondeu o coordenador, João Targino, &#8220;Na rede pública é tudo um faz de conta&#8230; os alunos fazem de conta que aprendem, os professores fazem de conta que ensinam, e o Estado faz de conta que paga&#8221;. A Orquestra Cidadã, ao contrário, é gerida como uma empresa privada, voltada para resultados; e diferentemente de tantos projetos e iniciativas solidárias, não tem um caráter assistencialista. Não se pensou em ensinar música aos meninos do Coque apenas para seu deleite pessoal, mas sim para profissionalizá-los. Não é por acaso que a maior parte das cerca de 100 crianças da orquestra é composta por meninos entre 10 e 14 anos, faixa etária que os situa no que se habituou chamar de &#8220;grupo de risco&#8221;. O objetivo do projeto é formar músicos, mais especificamente, de instrumentos de cordas: violino, viola, violoncelo e contra-baixo; cuja demanda é bastante alta no mercado, mas são escassos os músicos para supri-la.</p>
<p align="justify">            O projeto tem duração prevista de 5 anos, o que não significa que ele acabará após esse tempo. O plano é que a primeira turma se forme em 2011, e que uma outra turma tenha entrado até 2009, para que o ensino não se interrompa. Após formados, os meninos podem entrar na Orquestra Sinfônica do Recife, ou na Orquestra Jovem, ou continuar seus estudos em um conservatório. Do ponto de vista musical, o projeto tem progredido acima das expectativas, o aprendizado dos meninos da orquestra em um ano foi igual ao de quase dois anos de conservatório. Entusiasmado com o êxito dos objetivos do projeto, o coordenador juiz João Targino, prevê, esperançoso: &#8220;Veja o nome&#8230; Orquestra Criança Cidadã dos Meninos do Coque&#8230; Orquestra Criança Cidadã dos Meninos dos Coelhos&#8230; dos Meninos do Jiquiá&#8230; dos Meninos do Barro&#8230; dos Meninos de Afogados&#8230; o nome já foi feito para o projeto com essa concepção de que ele cresça.&#8221;</p>
<p align="justify">            Entretanto, à medida que a orquestra progride, também encontra entraves, sendo o mais premente deles de caráter financeiro. &#8220;Chegou ao ponto de eu e o desembargador Nildo anunciarmos uma data para o projeto ser fechado por falta de recursos&#8221; lembra-se o juiz Targino. Com as despesas chegando a R$ 100.000 por mês, e sem uma fonte perene de receita, depende-se da solidariedade alheia para manter-se o projeto funcionando. Porém essa não se encontra em abundância. &#8220;Toda semana aquele projeto é visitado por, no mínimo, 2 ou 3 pessoas das mais importantes de Pernambuco, seja da área jurídica, política, ou empresarial&#8230; então, não é por falta de divulgação que esse projeto está passando por essa situação, é por falta de sensibilidade das pessoas para uma causa, que eu considero, justa.&#8221;</p>
<p align="justify">            Uma das formas de atrair a atenção de patrocinadores novos, assim como de agradecer aos já envolvidos no projeto, é uma apresentação da orquestra. O público e o local variam; as crianças já chegaram a tocar, no mesmo dia, para seus patrocinadores e logo em seguida para seus próprios pais. As noites de apresentação sempre requerem um grande esforço logístico, principalmente por parte dos soldados do quartel onde funciona a Orquestra Cidadã: é preciso sair ainda cedo, colocar todos os meninos e meninas nas vans, providenciar também o transporte dos instrumentos para depois deixar tudo em ordem no local da apresentação. As crianças, por sua vez, passam o resto do dia ensaiando, com uma pausa eventual para o lanche. Dependendo do horário da apresentação, algumas não voltam pra casa antes das 23h. Na apresentação do dia 3 de dezembro, no Teatro Santa Isabel, a movimentação foi grande tanto atrás quanto à frente das cortinas:</p>
<p align="justify">O público ia se acomodando nas cadeiras do teatro. Gente subindo escadas, procurando onde se sentar, caminhando entre corredores, acenando a distância para conhecidos&#8230; Pouco a pouco, todos iam se acomodando, dissipando todo aquele movimento inicial de saltos-altos, rostos maquiados, pingentes, ternos, gravatas e cabelos grisalhos.</p>
<p align="justify">Dentre os expectadores, encontravam-se, além de respeitáveis senhoras e senhores, também algumas crianças. Sentadas ao lado dos pais, em suas roupinhas arrumadas, elas olhavam admiradas para aquele palco e seus ornamentos. Outras crianças, acompanhadas de uma professora, ocupavam os camarotes mais próximos ao palco, elas aguardavam apreensivas, curiosas, o inicio do espetáculo. Viravam-se, conversavam, debruçavam os cotovelos sobre o parapeito do camarote&#8230; Todos e todas ansiosos para que levantassem as cortinas, enfim.</p>
<p align="justify">Após uma longa solenidade de abertura, ergueram-se as cortinas. Atrás dela, cadeiras e instrumentos aguardavam seus usuários. Então, marcharam sobre o palco as crianças e jovens da Orquestra Cidadã, alguns que de tão novos são menores que os instrumentos que tocam. Uma a uma, as crianças vão tomando seus assentos no palco iluminado, erguendo seus instrumentos reluzentes, verificando a afinação, sob o som das palmas vindas da penumbra em que está o público. Entra, então, o maestro. &#8220;Queria um pouquinho de luz na platéia, pode ser?&#8221; As luzes tornam a acender e o maestro sorri, &#8220;Gosto muito de ver gente.&#8221;</p>
<p align="justify">Ele pega o microfone e os meninos e meninas da orquestra se sentam. Primeiramente ele explica ao público que o palco do teatro teve de sofrer pequenas alterações para acomodar a orquestra, pois é um palco italiano, que tipicamente confina a orquestra em uma seção longe dos olhos dos espectadores. Mas o que se queria naquela noite era que todos vissem e ouvissem o resultado da Orquestra Cidadã sobre aquelas crianças do Coque.</p>
<p align="justify">O maestro anuncia a primeira música da noite e se prepara. Batuta ereta, mãos erguidas e espalmadas no ar, um segundo de muitos olhinhos observando atentamente as mãos do maestro, que enfim se movem. Graciosamente, bailando no ar, elas ditam a cadência das notas que vão saindo dos instrumentos, manuseados delicadamente pelas mãozinhas dos músicos. Elas vão, e voltam, criando ondulações num mar de arcos que se movem em uníssono, esculpindo as melodias nota a nota.</p>
<p align="justify">Vêm o final e uma salva de palmas da platéia. Os músicos se levantam com instrumentos em punho e aguardam o sinal do maestro para agradecerem com uma reverência. O maestro anuncia a música seguinte em tom de conversa com o público, contando que eles devem conhecer bem o Minuetto de Boccherini se já viram certo filme da década de 50. E lá vão ele e sua orquestra, com sua batuta saltitante, apontando animadamente para as fileiras de violinos, depois de violoncelos, salpicando a melodia contagiante do minueto por onde passa. As crianças seguem com destreza e concentração, sentadas na ponta das cadeiras. &#8220;Não pode encostar na cadeira, tem prego!&#8221; Costuma dizer-lhes o maestro nos ensaios.</p>
<p align="justify">As peças vão se sucedendo, intercaladas por aplausos maravilhados e por comentários do maestro, às vezes para evidenciar a importância do projeto, e às vezes para provocar o riso no teatro. Toda a platéia se surpreende quando o maestro chama à frente um de seus solistas. Não se percebe ninguém se levantando, por mais que pescoços se estiquem para procurar; até que todos começam a ver um menino pequenino que vem caminhando entre os outros em direção ao maestro. O pequeno Daniel estivera proibido de tocar. O motivo: &#8220;Comportamento&#8221; ele responde com a vozinha de criança de 7 anos. A platéia é toda sorrisos e expressões de ternura enquanto o pequenino violinista toca ao lado do maestro, com seus olhinhos fechados, movendo serenamente as mãozinhas quase totalmente cobertas pelas mangas longas de sua camisa.</p>
<p align="justify">A fascinação do público é tamanha que, quando o maestro sugere cortar o programa para encerrar mais cedo a apresentação, todos respondem que prossiga normalmente, tome quanto tempo for preciso. Outro solista é chamado à frente, um moço jovem. Este, após tocar com grande destreza a música seguinte, é convidado pelo maestro a tocar para o público uma música especial: um arranjo dele próprio de &#8220;Carinhoso&#8221;. &#8220;E ainda dizem que no Coque só tem marginal&#8230;&#8221; assinala o maestro após a apresentação triunfal do jovem virtuoso.</p>
<p align="justify">As últimas músicas do evento foram cantigas e melodias natalinas. Enquanto os meninos e meninas tocavam seus instrumentos, e o recém formado coral se juntava à orquestra, viam-se os espectadores assoviando e cantarolando trechos das canções. Para encerrar a noite, o maestro presenteou o público com o Bolero de Ravel, música trabalhosa, que estava lá para atestar a habilidade dos meninos. Novamente, aquele segundo de prender a respiração, posicionar as mãos, os dedos e os arcos. O sinal é dado e saem as primeiras notas da imortal melodia, que vão se sucedendo, indo e voltando na escala, embalando não só os ouvintes mas também os músicos, que se balançam, de um lado para o outro, abraçados a seus violinos. O maestro ergue os braços e termina a música num acorde alto, sonoro, que enche o teatro todo e levanta o público de seus assentos para aplaudir. A ovação dura minutos a fio, acompanhando a saída dos músicos mirins. As palmas vão se extinguindo, mas depois retornam quando um dos espectadores no fundo grita &#8220;Viva o Coque!&#8221;.<u></u></p>
<br /><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/categories/sejogabrasil.wordpress.com/47/" /> <img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/tags/sejogabrasil.wordpress.com/47/" /> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/sejogabrasil.wordpress.com/47/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/sejogabrasil.wordpress.com/47/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/sejogabrasil.wordpress.com/47/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/sejogabrasil.wordpress.com/47/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/sejogabrasil.wordpress.com/47/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/sejogabrasil.wordpress.com/47/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/sejogabrasil.wordpress.com/47/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/sejogabrasil.wordpress.com/47/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/sejogabrasil.wordpress.com/47/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/sejogabrasil.wordpress.com/47/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/sejogabrasil.wordpress.com/47/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/sejogabrasil.wordpress.com/47/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/sejogabrasil.wordpress.com/47/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/sejogabrasil.wordpress.com/47/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=sejogabrasil.wordpress.com&amp;blog=2450824&amp;post=47&amp;subd=sejogabrasil&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Entre livros e chupitos</title>
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		<pubDate>Wed, 09 Jan 2008 12:49:26 +0000</pubDate>
		<dc:creator>jornalismoufpe2006</dc:creator>
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		<description><![CDATA[&#8220;Santiago de Compostela? Ah, aquela do caminho!&#8221; É inevitável. Como terceira maior cidade religiosa do mundo e com uma suntuosa catedral encravada em seu centro, Santiago de Compostela, cidade que mistura a devoção católica ao esoterismo celta, é sempre lembrada pela quantidade de peregrinos que caminham por belos 800 km, desde a França até a [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=sejogabrasil.wordpress.com&amp;blog=2450824&amp;post=45&amp;subd=sejogabrasil&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>&#8220;Santiago de Compostela? Ah, aquela do caminho!&#8221; É inevitável. Como terceira maior cidade religiosa do mundo e com uma suntuosa catedral encravada em seu centro, Santiago de Compostela, cidade que mistura a devoção católica ao esoterismo celta, é sempre lembrada pela quantidade de peregrinos que caminham por belos 800 km, desde a França até a pequena cidade da Galícia. Completando o cenário, está o campus da Universidade de Santiago de Compostela (USC) que abriga estudantes vindos de todo o mundo. Assim, de um modo geral metade de Santiago são os cajados e a outra metade são lápis e cadernos.</p>
<p>Mas domingo talvez seja o dia menos indicado para se chegar a uma cidade como Santiago. Com um horário comercial incomum e um tanto ingrato, a cidade no domingo é um deserto comparando-se às grandes metrópoles. Poucas pessoas nas ruas, lojas fechadas e, apesar do céu azul, aquela velha e conhecida melancolia de domingo mais acentuada do que nunca. A não ser pela tradicional missa do peregrino e por uma eventual maratona de bicicletas, o movimento concentra-se em alguns bares e restaurantes da chamada <i>Zona Vieja</i> ou <i>Casco Antiguo</i>. Acredite, essa imagem é não exatamente empolgante.</p>
<p>Tudo melhora, entretanto, se você é recebido por alguém como Querubina. A galega de nome engraçado tem 32 anos e um humor inacreditável. Falante, Queru, me encontrou na Praça do Toural e me levou para a que seria minha nova casa por um mês. O contato com Querubina havia sido feito alguns meses antes, através da Oficina de Cursos Internacionais da USC e seria a primeira vez que iria dividir o apartamento com alguém. E para quem já não apostava em um final feliz para o melancólico domingo, o dia até que acabou bem. Minha nova companheira de <i>piso</i> me levou a um passeio noturno pela cidade e me apresentou a uma das mais bonitas vistas que Santiago possui. Na alameda escura, algumas pessoas caminham e conversam tranquilamente, de repente, a paisagem se abre e no meio do escuro está, toda iluminada, a catedral de Santiago. Fiquei sem palavras, mas Queru se apressou, &#8220;Impressionante!&#8221;. Realmente impressionante. &#8220;Bem mais bonita à noite!&#8221;, pensei.</p>
<p>No dia seguinte, eu conheceria a USC, que teve seus primeiros pilares lançados há mais de quinhentos anos. Hoje, dividida em campus Norte e Sul, a instituição já domina o cenário da cidade e é referência em cursos como o de farmácia e filologia. Através de um extenso programa de intercâmbios e da atuação dos cursos internacionais, nos quais se ensina a língua e cultura espanhola, a USC proporciona uma oportunidade de incremento econômico para a cidade e abre as portas para que cada vez mais estudantes possam conhecer a Galícia. Por meio dessa oficina cheguei ao meu primeiro dia de aula. Cinco pessoas e apresentações. Nomes, idades, países e uma pergunta básica: por que Santiago? Com tantas outras boas e famosas cidades na Espanha, por que escolher Santiago?</p>
<p>&#8220;Por que é uma cidade menor e mais tranqüila. Já que vou morar sozinha meu pai preferiu que eu não fosse para uma grande cidade.&#8221;</p>
<p>&#8220;Nasci nos EUA, mas meus pais são de Palmeira, na região costeira da Galícia. Aproveitei a temporada de vista á família e vim estudar aqui.&#8221;</p>
<p>&#8220;Meu professor conhece a responsável pelos cursos internacionais aqui na USC e me indicou a cidade.&#8221;</p>
<p>&#8220;Nasci aqui e com sete anos me mudei para a Alemanha. Vim me preparar em Santiago para ser professora de espanhol em Hamburgo.&#8221;</p>
<p>Cada uma dessas pessoas veio de um lugar diferente, mas embarcou em uma mesma experiência. Gente da Suécia, da Holanda, dos EUA, da França, da Inglaterra, da Alemanha e até do Japão divididos em três níveis de acordo com o conhecimento lingüístico, viajando, estudando e conhecendo pessoas e culturas diferentes.</p>
<p>Todas as manhãs no intervalo das aulas, a <i>Cafetería Club Universitário</i>, ao lado da faculdade de Direito, se enche de estudantes que tentam a todo custo falar espanhol. Alguns simplesmente desistem e encontram algum compatriota acomodado para fugir da língua latina, e contribuir para que se estabeleça uma verdadeira Torre de Babel. Não importa em que língua seja, mas as conversas são regadas a cafés, refrigerantes, croassaint e aos famosos <i>bocadillos</i>, sanduíches feitos com um pão mais rústico e que podem ser recheados de queijo, <i>tortilla</i> ou <i>jamón</i>, espécie de presunto tipicamente espanhol. Satisfeitos ou não, é hora de voltar à classe. Depois disso, os estudantes só se verão livres da gramática ao meio-dia, que estranhamente significa dizer 14 h. Então, hora de almoçar. Opções não faltam, principalmente para quem gosta de frutos-do-mar. Usufruindo da vocação pesqueira da Galícia, os restaurantes em Santiago oferecem pratos como a saborosa Merluza à galega, mariscos e o picante Pulpo (polvo) à galega, sempre regados de muito azeite. Mas a gastronomia em Santiago serve para todos os gostos. É incrível a quantidade de restaurantes turcos e italianos, há também rodízios brasileiros e, em último caso, o já tradicional fast-food americano. <i>Qué aproveche!</i></p>
<p>O almoço é a porta de entrada para a maior delícia, mas às vezes o maior aborrecimento de estar na Espanha: la siesta. Para que vive em países como o Brasil, parece uma maravilha poder desfrutar de duas horas ou mais para o almoço, assim se pode dormir e voltar ao trabalho com ânimo renovado. Mas é só imaginar que se você pode, todos os outros também podem que começa o desespero. Livraria? Fechada. Perfumaria? Fechada. Loja de roupas? Fechada. Das duas às cinco da tarde o comércio de Santiago pára por causa da siesta. As ruas ficam vazias e mesmo que não seja essa sua vontade, só lhe resta dormir. Passado o momento do cochilo, ou do desespero, é hora de conhecer a cidade.</p>
<p><b><i>La ciudad </i></b>- Em volta da catedral um mundo de lendas, consumismo, música e arte. O Casco Antigo é um labirinto de ruelas e arcos pelos quais podem ser gastas tardes e mais tardes. Um dos melhores lugares para se começar a visita por Santiago. A Praça do <i>Obradoiro</i> é o ponto central, faz as vezes das famosas <i>Plaza Mayores</i>. Lá encontram-se o museu da Catedral, o Hotel dos Reis Católicos e a Biblioteca da Universidade. Não é difícil encontrar por lá artistas de rua, em geral gaiteiros que tocam a encantadora música celta em troca das moedas dos turistas. O som quase místico das gaitas celtas se mistura às conversas e acompanha quem explora a <i>Zona Vieja</i> por toda tarde. Seguindo pelas ruas de pedra encontram-se um sem número de praças e rodeadas por construções antigas, mas inacreditavelmente bem conservadas. À medida que se distanciam do Obradoiro, os prédios antigos vão misturando lojas e casas, o que dá um aspecto ainda mais acolhedor ao lugar. Na Praça das Pratarias as vitrines tilintam aos olhos do turista. O brilho da prata bem limpa e iluminada chama atenção de quem passa. A Rua do Vilar é famosa por seus arcos e pelas tertúlias que eram feitas em seus bares. Além disso, a cerâmica, artesanato típico da Galícia está em todas as lojas. São canecas, pratos, cinzeiros e sinos feitos de uma cerâmica branca decorada por símbolos celtas em azul. Parar para o lanche é indispensável. &#8220;Temos chocolate com churros!&#8221; lê-se na porta da maioria dos bares. Ótima pedida!</p>
<p>Extrapolando os limites da <i>Zona Vieja</i> está o verde dos parques. O mais famoso deles, a Alameda é cenário para todo tipo de programa, de cooper à missa. Mas o que acontece de mais diferente no parque é mesmo o <i>Botellón</i>, ou <i>garrafão</i> em português. Trata-se da noite da farra. O alcoolismo dos jovens espanhóis, que parece incomodar tanto seus pais, é aditivado por essas festas. Em Santiago todas as quintas, no fim da tarde, os supermercados ficam lotados e de lá saem os meninos e meninas com suas garrafas. Vinho, cerveja, vodca. Quinta-feira é dia de comemorar. Sem música, sem dança. Só bebida. Proibido em algumas cidades, o <i>botellón</i> e suas ramificações devastam as ruas de Santiago, no dia seguinte só restam as garrafas quebradas e a insuportável ressaca dos alunos na classe.</p>
<p>Mas para quem prefere farras menos extravagantes e mais animadas o que não faltam são bares e boates espalhados pela cidade. Abrem cedo e fecham tarde. Muita música, comida e gente animada. Falação à brasileira, voz alta. E os balcões guardam as pequenas estrelas da noite: os <i>chupitos</i>. Pequenos copos, que se assemelha ao copo da pinga brasileira, servem bebidas de diversos sabores. Canela, banana, pirulito, creme e até absinto. Queridinho dos estrangeiros, a bebida faz sucesso também entre os espanhóis e embala as noites e madrugadas.</p>
<p><b><i>Mochiland</i></b><b>o</b> &#8211; Sexta- feira à tarde. Barulhos de rodinhas na calçada e tickets na mão. Rostos ansiosos, mochila nas costas e pessoas falantes entram em ônibus, trens e aviões. Mas o movimento nas ruas da cidade não dura mais que algumas horas, centenas de estudantes não passarão o fim de semana em Santiago. Seja para o litoral, para uma cidade maior ou mesmo para fazer uma visita a sua cidade natal, as passagens já estão compradas.</p>
<p>&#8220;Já programamos viagens para cada fim de semana dos três meses que vamos passar aqui&#8221;, comenta animada Caroline, americana de 21 anos que fazia curso de outono na universidade e estava de mochila pronta para ir à Salamanca com alguns dos outros estudantes. Viagem essa que, inclusive, lhe custou alguns calos nos pés e várias horas de sono perdidas, mas que, em contrapartida, lhe proporcionou algumas de suas melhores lembranças da Espanha.. Os planos de Caroline correspondem a um hábito bastante comum entre os estudantes, principalmente os não-europeus, que unem o útil ao agradável: as aulas os prendem em Santiago durante a semana, mas os dias livres são aproveitados para conhecer outras cidades ou países dentro da própria Europa. A viabilização de programações como estas só são possíveis por dois elementos básicos: estrutura que é oferecida aos turistas e o preço das passagens.</p>
<p>As oficinas de turismo em cidades como Salamanca, Madrid e Santiago estão por toda a parte. Não é difícil encontrar um mapa que venha legendado no idioma mais acessível ao turista. Além disso, a sinalização nas ruas, as placas e o próprio metrô estão prontos para receber pesoas que vêm do Brasil, da Suécia ou do Japão.</p>
<p>&#8220;A gente estava pensando em ir a Madrid agora em novembro. Mas como as passagens já estavam caras, decidimos ir em fevereiro. Resultado: conseguimos passagens por menos de dez euros&#8221;, diz Daniele, publicitária de 23 anos, enquanto segura o Guia do Viajante brasileiro pela Europa. Brasileira de Salvador, Dani tem o Guia como livro de cabeceira e o estudava em busca dos melhores roteiros e das melhores hospedagens. Noiva de Igor, também publicitário, Dani estava pronta para casar quando os dois resolveram usar o dinheiro do casamento para ir morar na Espanha, estudar e tentar uma vida melhor por lá. Mas, apesar de ralar em busca de apartamento, cursos e empregos os dois não abriam mão da parte mais divertida da viagem: <i>mochilar</i>.</p>
<p>Além das passagens, que podem custar cerca de vinte euros da Espanha para a França, por exemplo, outra vantagem que ajuda o <i>mochileiro</i> a economizar é a hospedagem. Albergues que cobram menos de dez euros por dia estão entre os preferidos quando se quer gastar um dinheirinho a mais para o chupito da noite. São estabelecimentos onde o viajante divide o quarto com no mínimo quatro pessoas e que servem basicamente para dormir e deixar a bagagem. Bastante procurados pelos estrangeiros os albergues estão espalhados por toda a Europa e podem ser muito simples ou mais estilizados, mas como a demanda é enorme é bom se precaver e fazer a reserva com antecedência. Para quem tem um pouco mais de dinheiro disponível e quer mais comodidade e privacidade, a opção mais barata são os <i>hostales. </i>Espécie de hotel-residência, esses estabelecimento são ainda mais fáceis de serem encontrados do que os albergues e podem custar no mínimo 15 euros por dia. Em cidades maiores como Madrid, por exemplo, chega a existir ruas ou bairro quase que completamente tomadas pelos <i>hostales</i>. Fica a dica de Dani, para encaixar as hospedagens, roteiros e passagens disponíveis, vale apostar em um dos guias que são vendidos em bancas ou livrarias. Então, depois de conhecer parques, museus, monumentos, bares e boates é comum que o fim de semana do mochileiro acabe assim: costas cansadas, cara de sono e caminho frio de volta para casa na madrugada da segunda-feira. A aula já não será tão produtiva. Muito menos a viagem.</p>
<br /><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/categories/sejogabrasil.wordpress.com/45/" /> <img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/tags/sejogabrasil.wordpress.com/45/" /> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/sejogabrasil.wordpress.com/45/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/sejogabrasil.wordpress.com/45/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/sejogabrasil.wordpress.com/45/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/sejogabrasil.wordpress.com/45/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/sejogabrasil.wordpress.com/45/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/sejogabrasil.wordpress.com/45/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/sejogabrasil.wordpress.com/45/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/sejogabrasil.wordpress.com/45/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/sejogabrasil.wordpress.com/45/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/sejogabrasil.wordpress.com/45/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/sejogabrasil.wordpress.com/45/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/sejogabrasil.wordpress.com/45/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/sejogabrasil.wordpress.com/45/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/sejogabrasil.wordpress.com/45/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=sejogabrasil.wordpress.com&amp;blog=2450824&amp;post=45&amp;subd=sejogabrasil&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>A Vez da Publicidade Digital</title>
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		<pubDate>Wed, 09 Jan 2008 02:35:21 +0000</pubDate>
		<dc:creator>braunebastos</dc:creator>
				<category><![CDATA[Isabely Barros]]></category>
		<category><![CDATA[Barros]]></category>
		<category><![CDATA[digital]]></category>
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		<description><![CDATA[A era digital provocou mudanças na maneira de consumir e também na maneira como as mercadorias são vendidas. A publicidade inicialmente teve seu formato apenas transferido para o ambiente digital, as formas e o conteúdo eram semelhantes aos apresentados nos meios de difusão tradicionais &#8211; revistas, TV, jornais, rádio -, mantinha-se o objetivo de atingir [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=sejogabrasil.wordpress.com&amp;blog=2450824&amp;post=44&amp;subd=sejogabrasil&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align="left"> A era digital provocou mudanças na maneira de consumir e também na maneira como as mercadorias são vendidas. A publicidade inicialmente teve seu formato apenas transferido para o ambiente digital, as formas e o conteúdo eram semelhantes aos apresentados nos meios de difusão tradicionais &#8211; revistas, TV, jornais, rádio -, mantinha-se o objetivo de atingir milhões de consumidores simultaneamente, com a mesma estrutura. Porém, os publicitários perceberam as diferenças na percepção de marcas entre meios de comunicação convencionais e na Internet e promoveram uma adaptação da propaganda para este novo meio. Fabiana Iglesias, diretora de negócios <i>online</i> da Agência de Multicomunicação e21, diz que havia uma suposição errônea de que o sucesso da propaganda virtual só dependeria de sua transposição para esse meio, realizado pelas mãos daqueles que &#8220;entendem de computador&#8221;, mas um ambiente distinto, que oferece inúmeras possibilidades não poderia ser reduzido à condição de espaço para adaptação de idéias. Os anúncios <i>online</i> têm características como a predominância das imagens sobre os textos, além de possibilitar a utilização de formatos multimídia.  É possível escolher em quais sites, quantas vezes e por quanto tempo um banner será exposto.</p>
<p align="left"> As distinções não implicam, porém, na necessidade de ruptura entre os ambientes virtual e <i>off-line</i>, a integração entre eles é satisfatória para a efetivação de propostas publicitárias plena. Propõe-se uma aproximação gradual, impulsionada pelo futuro de convergência das mídias, catalisadas pela implantação da televisão digital no Brasil, inaugurada em 02 de dezembro de 2007, e pelos aparelhos celulares de última geração, capazes de transmitir e receber uma considerável quantidade de dados. O professor de marketing, e autor do livro &#8220;O Marketing Depois de Amanhã&#8221;, Ricardo Cavallini, estima que em cinco anos, haverá no país cerca de cem milhões de celulares com acesso à internet de alta velocidade, aptos à recepção de ações publicitárias. Neles será possível pesquisar preços de mercadorias ou serviços e adquiri-las rapidamente.</p>
<p align="left"> O consumidor virtual é mais exigente que o consumidor comum, sua conquista é mais árdua porque ele tem a facilidade de selecionar o produto entre várias opções, tem mais acesso à pesquisa comparativa e a consulta de níveis de satisfação de consumidores anteriores. Ele faz uso intensivo da Internet e da comunicação via telefones celulares e dos serviços de mensagem instantânea, os populares <i>messengers</i>. Para os publicitários, um dos maiores benefícios das campanhas na web é a possibilidade de acompanhar o comportamento do consumidor, do momento de sua exposição à campanha, até o clique final da transação, defende Claudia Woods, diretora de estratégia da Predicta, empresa especializada em marketing <i>online</i>. Há ferramentas que permitem saber quantas vezes o anúncio foi consultado, esse contato dá margem a ações de marketing posteriores, mesmo que a compra não tenha sido efetuada no primeiro acesso.</p>
<p align="left"> Os anúncios virtuais crescem mais de 20% ao ano, segundo dados do Interactive Adversiting Bureau (IAB) e da PrincewaterhouseCoopers. Nos Estados Unidos, onde esse mercado encontra-se mais consolidado, observou-se os investimentos em mídia <i>online</i> aumentarem em 23% contra 8% das revistas tradicionais. Este tipo de publicidade é composto de 40% de links patrocinados (produtos e serviços oferecidos através dos sites de busca por meio de palavras-chave), 20% de banners, 18% de classificados e 8% de rich media (formato multimídia).</p>
<p align="left"> Este último setor é o que tem se mostrado mais eficiente e lucrativo, existem empresas na web especializadas na construção desses <i>webcomerciais</i>. A Júpiter Media Metrix, do ramo de medição, auditoria e propaganda online, acredita que nos próximos 4 anos as propagandas em rich media corresponderão a 40% da publicidade digital. A propaganda se constitui de pop-ups de áudio e vídeo e e-mails animados; como atrativo para o público tem o fato de que ele não precisa ir até a página do anunciante para conhecer o produto, prática comum após visualização de banners. Eles unem a interatividade da Internet com características de meios de comunicação como a TV, ainda o destino dos maiores investimentos publicitários.</p>
<p align="left"> A receita com publicidade digital no mundo atingiu os 30 bilhões de dólares em 2007; estimativa da IAB do Brasil aponta para um crescimento superior a 30% no faturamento com publicidade na internet no país, o que significa que ele ultrapassou os 506 milhões de reais.  Ainda assim, representa apenas 2,7% do montante investido nas mídias. Contudo o crescimento é visível quando se percebe que há cerca de cinco anos não havia a necessidade de incluir a web como veículo publicitário.</p>
<p align="left"> A Internet foi descoberta como uma eficiente maneira de se comunicar. Suely Belfort, idealizadora da Revista Noivas Nordeste pôde comprovar isso com a criação de um site para um produto que já existia há 6 anos no mercado. Exportou revistas para Japão, Estados Unidos, Canadá, bem como para São Paulo, Minas Gerais e Brasília, além de registrar aumento superior a 8% nas vendas. &#8220;A internet viabiliza um conhecimento mundial, nunca pensaríamos em enviar uma revista para o Japão ou outro país qualquer, se não fosse a internet&#8221;.</p>
<p align="left"> Pesquisa feita com os 100 maiores anunciantes e as 20 maiores agências de publicidade do mundo constatou que 85% das empresas deseja ampliar seus investimentos nessa área. Daniela Amaral, gerente do Banco Real, em Pernambuco, confere a responsabilidade de parte do 1 milhão e 200 mil novos clientes, em 2007, à importância que a empresa dá à publicidade de seus produtos na web, &#8220;Sobretudo o portal do Real Universitário, com vantagens e promoções  atrai os estudantes, até pouco tempo havia agências nossas que sequer ofereciam serviços voltados para esse público&#8221;. A Ford, a Chrysler, a Pepsi, a Motorola, a Dell, o Itaú, o Bradesco, a GM e a Fiat, também já vêem nas mídias digitais uma satisfatória fatia de mercado. Nos Estados Unidos cerca de 20% do orçamento é destinado a elas.</p>
<p align="left"> Para aqueles consumidores que buscam o produto antes de escolher a marca, o modo mais eficiente é recorrer aos portais de busca, no site que também possui conteúdo próprio, Yahoo, o modelo de propaganda predominante é o de banners. A página inicial se assemelha a outdoors, com links para as páginas dos que anunciam; alguns deles são Dove, Mmartan, Editora Abril, TIM e Ágora Comunicação. Brasileiros com a mesma linha de anúncios são UOL, Terra, IG e Globo.com.</p>
<p align="left"> O Yahoo conta ainda com outro modelo de propaganda, mas o principal exemplo dele é o Google, o sistema de palavras-chave. Elas são escritas no portal e contam com um espaço publicitário para links patrocinados com pequenas propagandas, de cerca de 12 palavras. Elas são vendidas em unidade, com registro de palavras que custam mais de 100 dólares, no Google.</p>
<p align="left"> Tal modelo favorece além dos grandes anunciantes, as pequenas empresas e profissionais liberais que vendem seus serviços, como médicos, advogados, artesãos e motoristas. Marília Ribeiro descobriu então uma maneira de anunciar as bijuterias que produz: &#8220;Costurar minhas próprias roupas e confeccionar acessórios, sempre foi para mim uma diversão. Pegava pedaços de tecido na casa de minha mãe, que é costureira, ou colares e pulseiras que minhas sobrinhas não usavam mais, fotografar o que faço e colocar no Flickr acabou se tornando um negócio, os sites de busca são uma maneira de ser vista&#8221;.</p>
<p align="left"> A receita deste portal com publicidade chega a 9 bilhões de dólares por ano. Ele começa a ganhar força nesse mercado no Brasil, e encontra a concorrência de portais nacionais consagrados, como Buscapé, Bondfaro e o site da Yahoo dedicado a links patrocinados, o Overture. Este tem contrato com portais de busca do IG, do MSN e do UOL.</p>
<p align="left"> Os anúncios <i>online</i> tem vantagem sobre os tradicionais pela interatividade, uma novidade são os sites originais como o <u>jatenteidetudo.com.br</u>, nele, um formato de blog apresenta ao internauta Paloma, uma mulher de 27 anos que já usou todos os produtos que conhecia para tratar de seus cabelos, incluindo as receitas caseiras. Ela desafia seu leitor a sugerir produtos eficientes e divulga vídeos com suas tentativas, frustradas por exatos 15 dias, quando ela descobre Dove. A campanha envolveu seu espectador, gerou nele uma identificação e uma conseqüente participação ativa. A marca tem campanhas de sucesso também convocando mulheres comuns a descobrir a &#8220;real beleza&#8221;, transformando-as em modelos de seus outdoors na Europa; o vídeo posto no <u>youtube.com</u> há 9 meses, foi visto quase 16 mil vezes, consagraram o <i>slogan</i>. Em 2006, a operadora de telefonia Oi, iniciou uma série de vídeos veiculados nos intervalos comerciais de programas televisivos, apresentando as vantagens da empresa sobre as concorrentes. A exibição culmina com o chamado de clientes e funcionários de outras operadoras a consultar o <u>querocopiaraoi.com.br</u> para entender porque ela é a melhor, e então migrar para ela.</p>
<p align="left"> Existem agências especializadas em criação de propagandas para a web, a Click foi a responsável pelo conceito do jogo da Sadia, e por seu local de difusão, o MSN. Esse meio conta hoje com a participação diária de 5 milhões de pessoas e possui em seu cadastro mais de 14 milhões de usuários. A visibilidade é maior que a audiência de muitos canais abertos de televisão.</p>
<p align="left">  Um importante dado para os anunciantes é que a publicidade via canais de mensagens instantâneas, como o MSN Messenger, e portais de relacionamento como o Orkut e o MySpace tem mais credibilidade com os internautas que as campanhas feitas por banners, classificados, <i>rich media</i> ou e-mail. Ainda que não se conheçam, nestes locais elas são tidas como mais confiáveis. A estudante de Design, Aline Pessoa justifica dizendo que &#8220;no Orkut ou no MSN não há o interesse em vender que há nas propagandas, as pessoas são uma consulta se o produto é aquilo que anunciam ou não&#8221;. Fernanda Barbosa, estudante do 3° ano do Ensino Médio, acrescenta que &#8220;quando entramos em comunidades sobre algum assunto, queremos encontrar pessoas que se identifiquem com o tema, que possa falar sobre ele, não tem porque dizer que um hidratante X deixa a pele macia se não for assim&#8221;. Percebendo que esse contato com os consumidores edifica e fortalece o produto, inúmeras empresas criaram seu próprio perfil nesses sites.</p>
<p align="left"> Outro que ganha mais adesão de empresas a cada dia é o Second Life, um game online da empresa LunderLab com cadastro de 750 mil pessoas. O conglomerado de comunicação britânico, BBC, viu no site um modo de fazer propaganda gratuitamente, por isso alugou um espaço virtual para promover o festival de música da Radio One, estação voltada para o público jovem, e veiculou uma reprodução do show em tempo real. A multinacional de artigos esportivos Adidas, criou uma réplica virtual da loja e vende versões digitais de seus produtos para uso dos jogadores. A Toyota disponibilizou uma versão do Scion para testes dentro do jogo. As empresas têm visto nesse universo oportunidades de vender seus produtos, serviços, e de reforçar suas marcas.</p>
<p align="left"> Segundo dados da Câmara Brasileira de Comércio, o Brasil tem 35 milhões de internautas que fazem buscas e pesquisas de preço na internet. Esse número de consumidores em potencial só não é maior pelo acesso ainda restrito à banda larga. Mesmo assim, o brasileiro é o povo que passa mais horas em frente ao computador, são 21 horas e 20 minutos por mês, de acordo com consulta feita pelo Ibope/ Net/Ratings, em janeiro de 2007. O número supera o de países como França e Estados Unidos, onde o acesso é mais amplo. O dado estimula os anunciantes a investir nesse público.</p>
<br /><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/categories/sejogabrasil.wordpress.com/44/" /> <img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/tags/sejogabrasil.wordpress.com/44/" /> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/sejogabrasil.wordpress.com/44/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/sejogabrasil.wordpress.com/44/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/sejogabrasil.wordpress.com/44/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/sejogabrasil.wordpress.com/44/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/sejogabrasil.wordpress.com/44/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/sejogabrasil.wordpress.com/44/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/sejogabrasil.wordpress.com/44/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/sejogabrasil.wordpress.com/44/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/sejogabrasil.wordpress.com/44/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/sejogabrasil.wordpress.com/44/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/sejogabrasil.wordpress.com/44/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/sejogabrasil.wordpress.com/44/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/sejogabrasil.wordpress.com/44/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/sejogabrasil.wordpress.com/44/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=sejogabrasil.wordpress.com&amp;blog=2450824&amp;post=44&amp;subd=sejogabrasil&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>O Imaginário Pernambucano nas olarias do Cabo</title>
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		<pubDate>Wed, 09 Jan 2008 02:03:31 +0000</pubDate>
		<dc:creator>braunebastos</dc:creator>
				<category><![CDATA[Rafael Filipe]]></category>
		<category><![CDATA[Cabo]]></category>
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			<content:encoded><![CDATA[<p align="left"> O elevador descia vagaroso. Era velho, não combinava com a nova fachada do prédio. O endereço era Avenida Boa Viagem, edifício Segóvia, 4700 &#8211; o trecho com o maior Índice de Desenvolvimento Humano do Recife, devido ao elevado padrão de vida comparado ao de países como a Noruega segundo a ONU. Quando se abriram as portas do elevador, entrei num salão com sofás e poltronas de couro e metal e mesas de centro com peças de vidro, um ambiente muito elegante. Por toda parte havia delicados vasos e bolas decorativas &#8211; tudo feito de cerâmica, inclusive as flores. Ao lado de cada peça, havia uma pequena etiqueta que trazia uma gravura de um homem trabalhado e as palavras &#8220;Cerâmica do Cabo&#8221;. No verso, havia a logomarca do projeto Imaginário Pernambucano. Assim que bati o olho, lembrei do encontro que tive com os artesãos que modelaram aquele barro, e com a equipe de designers que trabalhou com eles nas olarias para dar nascimento a cada peça daquelas.</p>
<p align="left"> Estive com os artesãos lá no Mauriti, bairro popular do município do Cabo de Santo Agostinho, Pernambuco. Quem me conduziu até as olarias foi própria a equipe do projeto Imaginário Pernambucano.</p>
<p align="left"> Cheguei por volta das nove horas no Centro Cultural Benfica, prédio anexo da Universidade federal de Pernambuco (UFPE), onde está a sede do Imaginário. Um táxi esperava. Uma mulher de cabelos muito vermelhos e cacheados e curtos e armados e soltos vinha trazendo seus olhos perspicazes, caminhando em minha direção. Usava um vestido justo, que mais tarde eu viria a saber que era habitual ao estilo dela, um colar grande, óculos largos, o rosto bem vermelho. Os movimentos rápidos dos braços curtos, das pernas curtas, da altura pouca do corpo firme, os movimentos diziam tudo sobre o quão enérgica era aquela mulher. Falava alto e sorria muito, livre. Veio com ela um homem magro de cabelos poucos e lisos e curtos e arrumados de lado e suaves. O seu tom de voz era firme. Usava uma calça com bolsos clara, uma camisa de uma cor só, um tênis. Tinha uns vinte e poucos anos, o jovem design, a metade do que aparentava ter a mulher que já esperava na porta do carro, rindo de alguma coisa. Nos cumprimentamos e entramos no táxi.</p>
<p align="left">
<p align="left"> Ana Andrade tinha uma expressão preocupada. Estava indo ao Cabo naquele dia para uma reunião com a prefeitura. Iriam conversar sobre a relação entre o governo municipal e a associação de ceramistas. Enquanto ela resolvesse isso, Erimar iria conversar com os oleiros sobre a relação deles com o projeto Imaginário Pernambucano, depois desses anos todos de parceria.</p>
<p align="left"> Olhe, meu querido, veja bem, me acolheu Ana levando-me para a conversa, estamos muito ocupados com a inauguração do Centro de Artesanato que já foi construído, lá no Cabo mesmo, próximo à estrada. O prédio foi construído com as parcerias entre BNB (Banco do Nordeste do Brasil), a Prefeitura do Cabo, a Copergás (Companhia Pernambucana de Gás) e Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio à pequena e micro Empresa). Dentro do Centro foi possível a construção de um forno alimentado com gás natural. Esse forno vai melhorar muito a queima das peças de cerâmica e com ele será possível fazer a vitrificação sem o uso de chumbo. O apoio da Facepe viabilizou bolsas para entrada de jovens aprendizes no Centro, onde podem progredir nos estudos ao passo que auxiliam os artesãos nas atividades administrativas e gerenciais. Por sua vez, o Instituto de tecnologia de Pernambuco &#8211; ITEP realizou pesquisas sobre a argila e os esmaltes a fim de obter materiais com qualidade superior. Estamos indo lá hoje porque marcamos uma reunião com o pessoal da prefeitura para resolver algumas burocracias que viabilizarão a inauguração do espaço. Temos urgência porque o Centro dará mais visibilidade aos artesãos, e os produtos terão uma qualidade bem superior por conta da queima no forno com tecnologia mais avançada. Hoje estamos correndo com isso, mas já estamos sentindo falta de voltar a trabalhar mais as oficinas de elaboração de novos produtos e demandas de gestão do grupo. Esse era mais o nosso foco quando começamos o trabalho lá com os oleiros.</p>
<p align="left"> A implementação da ação do Imaginário Pernambucano no Cabo, em 2003, se deu por meio de consultorias técnicas e oficinas com abordagens teóricas e práticas onde foram discutidos conceitos como a melhoria da qualidade e do processo produtivo, inclusive com a possibilidade de utilização de novas tecnologias. As oficinas realizadas no Cabo trabalharam cores e o uso de pigmentos naturais, a síntese da forma, acabamentos e texturas, entre outros, a fim de melhorar os produtos existentes e desenvolver novos. Paralelamente, eram feitas reuniões para avaliar o andamento das oficinas tanto com os artesãos quanto com o grupo de profissionais do projeto. Essas reuniões eram muito relevantes para troca de informações e discussões sobre os procedimentos utilizados para resolver as dificuldades dos grupos onde o projeto atuava.</p>
<p align="left"> Já houve tempo, há alguns anos, que o Imaginário Pernambucano tinha uma equipe de mais de vinte pessoas, porque eram atendidas várias comunidades simultaneamente. Atualmente, o trabalho está focado na cerâmica do Cabo de Santo Agostinho e na cestaria de cana-brava de Goiana. Alunos, professores e profissionais de design, história, comunicação, engenharia, administração, desde o início do projeto compõem a equipe. A rotatividade de pessoas é grande, e somente Ana Andrade e Virgínia Cavalcanti estão tocando as ações do Imaginário desde o início do projeto.</p>
<p align="left"> Ana é graduada em Arquitetura pela Universidade Federal de Pernambuco e, realizou nos Estados Unidos, mestrado em Educação pela Temple University (1988). Atualmente ela é professora adjunta da UFPE, no departamento de design, assim como Virgínia. Esta última se formou no curso de Desenho Industrial, também pela UFPE (1991) e possui o grau de doutora em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade de São Paulo (2001).</p>
<p align="left"> As duas professoras revelaram em poucas palavras o propósito de terem fundado, no ano 2000, o Imaginário Pernambucano: trabalhar a valorização da cultura e das tradições locais e oferecer uma oportunidade diferenciada, com o foco na atuação social do design, aos estudantes universitários. Assim, o projeto surgiu como uma realização da Pró-Reitoria de Extensão da UFPE para estreitar os laços entre a academia e a sociedade.</p>
<p align="left"> Tivemos que quebrar muito a cabeça, revelou Ana, para dar conta da diversidade de perfis que fomos encontrando no trabalho com tantas comunidades. No período de 2001 a 2007, foram realizados projetos junto aos centros artesanais de Alto do Moura, Caroalina, Cabo de Santo Agostinho, Conceição das Crioulas, Goiana, Gravatá, Jataúba, Kambiwá, Lagoa do Carro, Rio Formoso, Tacaratu, Timbaúba e Tracunhaém.</p>
<p align="left"> Por isso, foi necessário ter versatilidade para construir uma alternativa eficaz de intervenção que contemplasse todas as comunidades. A solução que veio se apresentando foi a do trabalho multidisciplinar, através de uma metodologia que perpassa cinco eixos norteadores do projeto e mobiliza recursos humanos e financeiros para promover a inclusão social. Nesse sentido, o Imaginário promove a articulação, a formação e o fortalecimento de grupos, incentivando a construção de acordos coletivos e a busca da autonomia, o que atende ao eixo de gestão. A parir dos modos de produção e do ritmo de vida das comunidades, são otimizados os processos produtivos e pensadas melhorias nas condições de trabalho e uso sustentável dos recursos naturais, sendo, assim, contemplado o eixo de produção. O eixo de design se foca na valorização do saber popular, do reconhecimento das tradições, habilidades e uso dos materiais para que artesão e designers possam criar novas linhas de produtos em que formas, cores e texturas reflitam os valores culturais e sociais da comunidade. Fechando o ciclo dos cinco eixos do projeto, entram os trabalhos de comunicação e mercado. Para cada comunidade parceira são buscadas formas de gerar informações capazes de sensibilizar e informar a opinião pública para valorizar o artesanato e os direitos de seus criadores. Isso abarca a demanda do eixo de comunicação. Selando a perspectiva do trabalho, o eixo de mercado direciona a produção das comunidades para segmentos específicos do mercado capazes de reconhecer o valor agregado do produto, garantindo uma remuneração justa e a continuidade do fazer artesanal.</p>
<p align="left"> Desse modo, os espaços de ação articulados pelo projeto Imaginário Pernambucano têm permitido a prática da extensão universitária articulada ao ensino e a pesquisa. Mais do que isso, esses espaços de articulação são um notável diferencial do projeto. Dialogar com iniciativas públicas e privadas, como prefeitura, governo federal, Sebrae, escritórios de arquitetura e decoração, empresas privadas, a fim de galgar autonomia, apoio e financiamentos para as comunidades, tem sido um grande mérito daqueles que trabalham no Imaginário.</p>
<p align="left"> Ana Andrade, naquele momento, terminara de fazer uns rabiscos e passou o papel para que Erimar os lesse. Está faltando alguma coisa, Erimar, para a pauta da reunião? Acredito que não Ana. Estávamos já cruzando a entrada do Cabo, tínhamos percorrido os quarenta quilômetros da estrada que liga aquele município a Recife. Seguindo pela estrada, a uns 50 metros da beira do asfalto, vimos o Centro de Artesanato que tinha pautado boa parte de nossa conversa no carro. Descemos lá. Era como um armazém muito novo: um grande vão, de pintura branca e recente, com várias peças de cerâmica expostas pelo chão e em prateleiras, encostadas nas paredes. O portão dos fundos dava de frente para a porta larga e alta da entrada. Havia uns meninos jogando bola lá trás, no quintal, já fora do prédio. Alguns outros brincavam próximo ao forno a gás de que tínhamos falado &#8211; estava desativado ainda.</p>
<p align="left"> Voltamos ao carro e subimos para as olarias.</p>
<p align="left"> Passamos por uma ladeira muito íngreme, no meio da qual o carro parava, dava uma volta e entrava numa ruela que fazia uma curva no meio da subida, à direita.</p>
<p align="left"> Chegamos onde o coração pulsa, era essa a sensação. Onde se dá a atividade que alimenta todos os outros espaços de que nós havíamos falado ou onde havíamos estado, como a sede no Centro Cultural Benfica, e mesmo o prédio do centro lá embaixo. Havia muitos homens transeuntes, carregando coisas. Para muitos galpões de pau e barro.</p>
<p align="left"> Quando entrei no primeiro galpão, escutei o que estava sendo feito. Por fora e por dentro, havia amontoados de madeira e pedaços de vasos quebrados pelas portas, ou encostados por lá. A grande bagunça dava a impressão de sujeira. Isso se devia ao chão de terra muito desnivelado e entulhado, e aos cheiros dos homens. De qualquer forma, cheguei. E entrei.</p>
<p align="left"> Batemos palmas, Erimar estava comigo, e dissemos &#8220;ô de casa!&#8221;, mesmo sem se tratar de residência. Esse trejeito na fala era por causa do clima, da ambiência de interior. As coisas ali me remetiam a cidades pequenas do agreste ou do sertão de Pernambuco. As paredes se erguiam pequenas, de tijolos, às vezes. Muros de barro, sapé, quase pau a pique. A lembrança do interior era muito forte também por causa do jeito que os homens falavam, e pelo formato do corpo e da cabeça deles. Era impressionante como aquelas pessoas davam o tom do lugar. E, do mesmo modo que as coisas me remetiam à Carpina, Salgueiro, Serra Talhada, Araripina, eu trazia minhas próprias memórias do interior para aquele lugar. Por isso, eu falava daquele jeito, meio matuto.</p>
<p align="left"> Depois dos primeiros impactos de estranheza, vieram os impactos de sedução. Cheguei mais perto para ver, porque realmente não estava acreditando. O som que eu escutava desde que entrei no galpão era de alguma coisa rodando. A imagem que se via era a de um homem sentando dentro de um quadrado que lembrava um fogão à lenha gigante. Sem fogo, é claro. Na sua mão, uma peça de barro ia crescendo para cima, volteada e úmida. Mas aquele som, ainda não dava para saber de onde vinha. Quando quase coloquei a cabeça na altura dos joelhos do cidadão é que tive a revelação. Não era som de fala ou de mãos; era coisa que vinha dos pés.</p>
<p align="left"> Um homem girava uma roda de bicicleta coberta de madeira que estava sob seu pé, deitada na horizontal, apoiada em um eixo que a segurava bem no centro. O movimento que o pé fazia era como o dos meninos e meninas que andam de skate. Esse movimento dos pés, lá embaixo, fazia girar um outro disco de madeira que estava na altura da mão, lá em cima. Este, por sua vez, fazia girar a argila que o artesão ia moldando. A grande novidade para mim foi ver o artesanato sendo feito também com os pés. E ainda mais com aquela engenhoca (conhecida como &#8220;torno&#8221;) muito parecida, na proposta, com uma antiga máquina de costura: as mãos, os pés e os olhos atentos ao mesmo trabalho.</p>
<p align="left"> Tinha um quê ali de casa mal arrumada, como a casa dos meus avós. E aquelas engenhocas e os entulhos me tiravam dali e me jogavam direto em um quarto repleto de tralhas que havia na casa da minha falecida avó, onde havia também um fogão à lenha. O quartinho era exatamente um dos lugares que eu temia quando era criança. E por isso, vivia indo lá, pelas beiradas, para ver a luz entrando pouca, pelos caminhos que encontrava. Nas olarias, os feixes que conseguiam entrar eram, sobretudo, dourados. Tudo era meio amarelo, ou amarronzado, ou enlameado na confusão de tanto barro.</p>
<p align="left"> Erimar sugeriu que procurássemos logo Celé, disse que ele sabia de muita coisa sobre o lugar, que era o mais antigo de todos ali. A figura dele era como a de um mestre e a de um gerente, que organiza tudo, que resolve tudo. Sua aparência calma e séria se refletia no jeito da voz. Contou logo como ele havia chegado ao Mauriti, quando era bem pequeno. Veio com o pai e cresceu aprendendo com ele a arte do barro. Com o tempo, os meninos foram chegando, querendo aprender, e foi chegando também gente querendo as peças. O povo chegava aqui &#8211; Celé foi contando &#8211; com uma revista, e dizia: faça uma peça assim, fazia o desenho, e eu fazia. Fui criando, fui crescendo, tive necessidade de botar mais gente. Necessidade de ensinar. Entrava dinheiro todos os dias. Era uma época boa. Essas palavras poucas de Celé foram mesmo uma síntese da trajetória recente do próprio artesanato lá no Mauriti.</p>
<p align="left"> Segundo Celé, os utilitários como panelas e potes provêm do Engenho Massangana, onde as peças eram feitas através e modelagem manual (sem a utilização do torno) e conhecidas por cerâmica negra, assim chamada, porque teria sido um estilo de produção trazido pelos negros africanos, então escravos.</p>
<p align="left"> Por volta da década de 1950, um menino de 11 anos chamado Celestino iniciava seu aprendizado na olaria de José do Nascimento, burnindo (burnição é uma técnica que utiliza uma paleta metálica ou plástica para dar acabamento à cerâmica). No mesmo local, trabalhavam Abiud Trajano e Clementino Cândido, conhecido como Uca.</p>
<p align="left"> Dez anos depois, no final da década de 60, Celestino (que hoje todos chamam de Celé), já casado e após retornar de Fortaleza-CE, onde morou por dois anos, adquiriu, juntamente com o pai, um galpão com a finalidade de abrir uma olaria. É a partir da década de 70 que começa a se espalhar o número de unidades de cerâmica no Cabo com a ajuda e os ensinamentos de Celé, que repassou sua técnica a outros moradores locais. A produção desta época consistia em objetos utilitários, como a moringa e o filtro de água, e de ornamentação.</p>
<p align="left"> Com a ampliação das olarias, passou a haver concorrência entre os oleiros liderados por José do Nascimento e por Celé, fato que se tornou mais evidente na disputa de um local para extrair a matéria-prima. A argila utilizada para a produção, inicialmente, era extraída do bairro Santa Cruz. Com o passar do tempo, a argila foi ficando escassa por causa das construções civis no local, passando a ser comprada numa propriedade que fazia parte do Engenho Massangana, antes do seu tombamento. A fim de neutralizar seu concorrente, José do Nascimento comprou a propriedade acima citada, deixando Celé sem ter onde extrair a argila.</p>
<p align="left"> Neste momento começava uma luta que continua nos dias atuais: ter a garantia de um local para a extração da argila. Essa situação só foi abrandada após a imprensa registrar as circunstâncias pelas quais os artesãos do grupo de Celé estavam passando. Por causa da reportagem nasceu a Associação dos Ceramistas do Cabo de Santo Agostinho, em 1985, cuja primeira medida, juntamente com o prefeito da época, foi redigir uma carta para ser entregue, ao então governador Roberto Magalhães, relatando a questão da extração da argila em Suape.</p>
<p align="left"> Através desse gesto, a Associação conseguiu um contrato para a exploração das terras durante dez anos. Findo o prazo, a diretoria do Porto de Suape não renovou o contrato e novamente os artesãos ficaram sem ter onde extrair a argila. Mais uma vez conseguiram, através do apoio de líderes políticos, o direito de explorar a área, mas os artesãos temiam nova proibição.</p>
<p align="left"> Hoje, a prática dos ceramistas no Cabo envolve, cerca de vinte e cinco unidades produtivas de pequeno e médio porte, além de, aproximadamente, dez produtores individuais. A Associação possui mais de cinqüenta inscritos, dos quais a maioria é de artesãos que trabalham exclusivamente com cerâmica artesanal, e desses, dez estão ligados ao Projeto Imaginário Pernambucano, inclusive Celé.</p>
<p align="left"> Sempre com um pedacinho de argila fresca em mãos, fui encontrando cada um dos artesãos, em cada um dos seus galpões. E a conversa foi fluindo. Os sonhos foram chegando, no meio do trabalho que se ia contando, na minha frente.</p>
<p align="left"> Clebe mesmo, disse que para o futuro pretendia mais dinheiro, pois com aquilo que ele ganhava, nunca ia sair do aluguel da casa. E a família, como ia ficar? Os filhos, os netos, a esposa&#8230; Sem ter onde morar? Sem ter um lugar tranqüilo, sem perigo de despejo? Já viajei muito, eu gosto muito de viajar. Rio, Fortaleza, Natal, Bahia, já andei muito já, trabalhei em vários estados. Isso, Clebe disse deixando claro que ainda gostaria de pôr o pé na estrada. Não vai por causa da família.</p>
<p align="left"> Leda falou do sonho de ter um ateliê. O seu galpão é o único que tem peças coloridas. E trabalhos que não são feitos no torno. Ela defendeu que a sua autoria é sua riqueza, que suas peças são muito originais e fazem sucesso. O ateliê seria o ponto de onde tudo poderia brotar com mais liberdade, porque no galpão, dividindo a matéria-prima com outros artesãos, dividindo as vendas, os lucros, pagando aluguel do espaço a Celé, há muitas limitações à artista.</p>
<p align="left"> No galpão colado ao de Leda, trabalhava Nena. Um homem. Contou que estava meio mal porque estava com um problema de pressão alta. Tontura, coração batendo mais forte. Mas mesmo assim não podia deixar de trabalhar. Ainda mais que ele era um dos poucos que fazia as peças elaboradas em parceria com o Imaginário. São peças mais finas, e diferentes, não é todo mundo que acerta fazer, e que tem visão para se dedicar a elas. Tem muitos aqui que acham essas peças muito caras e acreditam que não vão vender. Mas são peças pensadas para um público diferenciado, com mais dinheiro. Aquelas oficinas para criação de novos produtos mesmo, vinha aquele design lá do Imaginário e passava a tarde aqui criando com a gente.</p>
<p align="left"> As oficinas de design sempre aconteciam nas olarias com muito improviso por falta de infra-estrutura local. Mesmo planejando e formatando a oficina com antecedência, muitas coisas eram improvisadas na hora pelos oleiros que moravam mais próximos. Alguém arranjava as cadeiras, uma porta quebrada virava mesa, as bases dos filtros viravam assentos caso o número de cadeiras não fosse suficiente, colávamos os cartazes explicativos nos pilares. Sem falar na improvisação dos instrumentos e ferramentas de trabalho dos artesãos, configurando outra característica do artesanato tradicional bastante evidente: a improvisação. Um graveto fixo com argila servia para medir a altura das peças; o nylon servia para cortar; palitos, garfos para criar textura; paletas de garrafa plástica para dar polimento; tubos de caneta para vazar a peça, etc. Não se tinha equipamentos de medição precisos como réguas e compassos, nem gabaritos para fazer marcações nas peças. Faz parte do cotidiano do artesão usar a criatividade para elaborar soluções que o permitam executar a sua idéia.</p>
<p align="left"> Nena contou que seu sonho era trabalhar apenas com aquele tipo de criação e produto mais finos. Gostaria de ter uma vida mais calma, poder descansar mais, ganhar mais dinheiro, e dar melhores condições à sua família.</p>
<p align="left"> Próximas ou vizinhas às olarias ficavam as residências dos artesãos. Os galpões eram como extensões de suas casas. Assim como o espaço físico, as relações sociais e de trabalho também eram extensões das relações familiares. Muitos tinham vínculo de parentesco, como Celé, que era pai de Vânia e irmão de Clebe, que por sua vez casou-se com Leda, irmã de Anísio. Todos artesãos.</p>
<p align="left"> 	Naquelas conversas, o dia passou rápido. Falamos com todos os artesãos ligados ao Imaginário Pernambucano que estavam lá.  A tarde chegava finalmente, trazendo a luz precisa que fazia tudo ali ser de uma cor ocre. Tudo finalmente enlameado como os galpões &#8211; os montes, as casas, as crianças que brincavam acolá, as pessoas que já começavam a passar para comprar pão, o galo, tudo amarelado como o barro.</p>
<p align="left"> 	Estávamos esperando Ana chegar com o carro. Quando chegou, foi logo contando meio afobada: não consegui resolver o que esperava. O pessoal da prefeitura esqueceu da reunião e não nos encontramos. Fui bater perna pela cidade para resolver outras coisas.</p>
<p align="left"> 	É essa disposição de dar viagem perdida e não desanimar que faz a diferença para o projeto já existir há oito anos, e colher tantos sucessos. Ao longo desse período, o Imaginário Pernambucano conquistou reconhecimentos como o I Prêmio Banco Mundial de cidadania &#8211; 2002 (recebido pela comunidade de Conceição das Crioulas na categoria experiências sociais inovadoras); II Salão Pernambuco Design (categoria design e artesanato); Prêmio Planeta Casa &#8211; 2005 (categoria ação social) e Prêmio Conselho Brasileiro de Desenvolvimento Sustentável &#8211; 2005 (categoria projetos acadêmicos). Como bem definiu Nena, improvisar e seguir em frente é como se faz, todo dia, arte e trabalho lá no Mauriti. Para a equipe do Imaginário, é uma arte que precisou ser aprendida e construída, passo a passo, com quinze comunidades espalhadas pelo estado de Pernambuco. O olho aberto e vivo, que é logomarca do projeto, fala da importância de enxergar possibilidades de atuação que estão além do convencional que está posto no mercado de trabalho tanto de designers, historiadores, jornalistas, publicitários, como de artesãos. É o olho aberto de pessoas que encontraram a sua alternativa de inserção mais positiva no mundo.</p>
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