Mataram Zoltan Venekey

segunda-feira, 7 janeiro, 2008 às 22:58 | Publicado em André Antônio | 35 Comentários
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– Já soube? Um cara se jogou do CFCH.

Uma garota disse isso num tom cujo pesar não conseguiu esconder excitação a um amigo que chegou atrasado à sala de aula.

– Sério? – Ele sentou-se ao lado dela, enquanto o professor falava. Os olhos arregalados de falso espanto conseguiram menos ainda esconder a excitação.

– Humrum, sério – ela se apressou a responder – foi essa madrugada, de 3 horas da manhã.

– Meu Deus… mais um…!

 

Em 6 de novembro de 2007 os estudantes da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), principalmente aqueles que estudam em centros próximos ao prédio do Centro de Filosofia e Ciências Humanas (CFCH), ou nele próprio, tiveram, além dos assuntos corriqueiros, outro, sobre o qual falar: mais um aluno havia caído do CFCH, uma construção de 15 andares e a mais alta do campus.

 

A resposta do amigo da garota teve menos indignação que ironia e chacota. A UFPE, como a maioria das universidades e instituições de ensino no mundo, possui suas próprias lendas internas. Uma delas é justamente a de que o CFCH serviria menos para interessados em Aristóteles do que para estudantes depressivos que almejam tirar a própria vida. De fato, desde que o campus da universidade, em Recife, começou a funcionar, várias pessoas pularam do prédio, mas a quantidade e a freqüência das mortes (dados que parecem não ter sido registrados por ninguém, ou apagados, de modo que nem na internet são encontrados), levando em conta o ano de fundação dele, não devem ter sido tantas a ponto de justificar a fama do CFCH.

O assunto surgia não raro nas mesas de bares, por exemplo. Um estudante de física falou uma vez a seus colegas, quando foram beber uma cerveja depois da prova de Cálculo 1: “ah, vocês souberam? Estão querendo instalar um trampolim no CFCH”. Todos riram e um deles retrucou: “o problema é que, quem quiser usar o trampolim, vai ter que enfrentar uma fila enorme”. Mais risadas.

A fama era tamanha, que, dentro da UFPE era quase impossível usar a palavra “suicídio” e seus derivados em conversas informais: “caso eu não ganhe esse premio eu me jogo do CFCH”… “tudo bem, queridinha: eu venho com esse vestido mas vou direto pro 15º do CFCH”… “OK, vá estudar Baudrillard, mas não recomendo as salas mais altas do CFCH para isso”… Durante uma aula vespertina, os alunos de uma sala ouviram um grito distante. Duas amigas se entreolharam e um rapaz na fila de trás disse “não foi nada, deve ter sido alguém caindo do CFCH”, no mesmo tom de “deve ter sido alguém que tropeçou”. Elas riram.

Essa fama inflamou tanto o imaginário dos alunos que é possível encontrar descrições como a seguinte, tirada do blog http://davyonweb.blogspot.com/ , de um estudante chamado Davyson: “Já conheço o 15º andar do CFCH – Foi no dia 25/10/07, antes da aula de Sociologia (Ivan), fui lá com meu amigo Ygor (Colega de sala tbm), tipo, a sala é muito gótica, tem umas gravuras toscas de personalidades do século passado tipo Freud e outros caras lá, e na hora que eu estava lá em cima bateu uma frio no estomago, então comecei a brincar, com a onda de quem iria se jogar, mas eu não o fiz”. Numa postagem seguinte, Davyson refere-se ao famoso livro de Émile Durkheim: “Prova de Sociologia: Desta vez não cairá O Suicidio, mas se eu me jogar do 15º e cair, terá Suicidio – Nunca fikei tão apavorado em toda minha história de Dayvson ‘Estudante’ com uma provinha, mas desta vez, o fumo é grosso…”

E, de acordo com tal imaginário, os que se jogam são sempre alunos de filosofia, que pensam e “viajam” demais. Não é absolutamente verdade, pois estão na lista dos que não usaram nem o elevador nem a escada pra descer do CFCH até mesmo alunos de Ciências Exatas. Mesmo assim, uma estudante do CEFET-PE (escola vizinha da UFPE), quando o assunto foi suscitado, não hesitou em dizer: “é lógico que eles pulam! Imagine você entrar numa sala de aula e ficar ouvindo o professor ficar se perguntando ‘quem sou eu’ o tempo todo…” Quando a morte do dia 6 foi noticiada no site Pernambuco.com, um dos comentários abaixo da notícia, em resposta a outros era o seguinte: “Existe suicídio em qualquer parte/sociedade/comunidade do mundo. Não é necessário ser ‘estranho’, ‘fazer cênicas’, ou ‘fazer filosofia’ (visto q nos casos anteriores, as pessoas eram de Filosofia). Isto é esteriotipação. Não acho válido qualificar essas pessoas e, muito menos, fazer chacota. Quanto à violência, realmente é lamentável. Porém não é só Pernambuco que sofre com ela, é o Brasil” (C.M.).

Isso porque os outros comentários diziam que o estudante que caíra na madrugada do dia 6 cursava Artes Cênicas, era estranho e se chamava Zoltan Venekey.

 

– …mais um…tava demorando já…! – O garoto continuava ignorando o professor.

– E sabe quem foi? Aquele cara que usava a calça na altura do peito.

Quando a amiga terminou de pronunciar as últimas letras da última palavra, a expressão facial do garoto já estava em processo de passar de excitada para completamente terrificada.

Quê?

Ela confirmou, assentindo com a cabeça.

 

No Centro de Artes e Comunicação (CAC), prédio que hospeda o curso de Artes Cênicas, não seria considerado absurdo dizer que “todo mundo conhecia Zoltan Venekey”. Não porque ele era o aluno mais popular do local. Mas precisamente pelo contrário.

 

Dois alunos recém-ingressos em Jornalismo, por exemplo, conheceram-no depois de uma reunião com estudantes de vários cursos do CAC que tentavam reativar o funcionamento de um cineclube local, o Barravento. Os dois saíram da reunião acompanhados de um veterano do curso de Letras que, no hall do CAC, disse, apontando para um homem sozinho, encostado na parede:

– Pessoal, aquele é Zoltan. Ele é a única pessoa do cineclube original que ainda estuda aqui. Acho que seria legal falarmos com ele.

Os três foram:

-Oi, Zoltan! Esses dois acabaram de entrar em Jornalismo e se interessaram pela reativação do Barravento.

Os novatos o cumprimentaram, ele falou “oi” e logo em seguida um monte outras coisas. As testas dos dois franziram por um segundo ao ouvir. Porque o sotaque era estranho. A voz era abafada. As palavras travavam, não se interligavam fluentemente. E Zoltan falava de uma forma enérgica demais. Por isso não conseguiram se concentrar no que ele dizia. Como quem ouve alguém arranhando um quadro-negro com unhas de ferro, os dois apenas discerniam palavras espaçadas, sem conseguir esconder o olhar desconcertado:

 

É importante essa iniciativa… filmes… tem muitos filmes… vida cultural…

 

O estudante de Letras interrompeu para dizer que “infelizmente” precisava ir e, quando Zoltan continuou falando sem mostrar sinais de que terminaria logo, os dois calouros se entreolharam discretamente pedindo socorro

 

…na gestão passada… umas idéias inovadoras… quem tem que fazer essas coisas somos nós… não podemos depender…

 

até que um deles disse:

– Eita, ta na hora de a gente ir né?

O outro olhou o relógio: – humrum.

– Pronto, então… vamos ver se isso dá certo né?

-É! É! – Concluiu Zoltan sem perder a energia.

A tentativa de reativar o cineclube falhou. E um desses calouros falou no dia seguinte a um amigo:

– Conheci um cara muito estranho ontem – e depois de dar a descrição de Zoltan, o amigo respondeu:

-Ah, sei quem é! Já o vi várias vezes por aqui. Como é o nome dele?

– Hmmm… esqueci.

 

A aparência destoante de Zoltan fez até com que fosse criada para ele, antes de sua morte, uma comunidade no Orkut chamada “Amigos do Zoltan”. Mas quem lê os tópicos da comunidade percebe facilmente que vários de seus membros não eram amigos do “homenageado”. Apenas gostavam de falar sobre aquela figura estranha que perambulava entre eles na Universidade e de rir ao relembrar os momentos da semana em que ele tentava ser ouvido e levado a sério.

Essa aparência também fez Zoltan vítima das mais variadas descrições, até depois de sua morte. “A.R.” comentou, também no Pernambuco.com: “Ele se destacava dos outros por usar calça jeans de cintura alta e andava bastante apressado, tinha uns cabelos lisos, longos e presos , usava óculos de grau alto e de aro preto, também andava com livros grossos. Eu já passei perto dele muitas vezes. Sabe, infelizmente isso aconteceu”. Já “T” sintetizou: “Ele era conhecido por sua aparência anti-social (nerd), sotaque carregado e idéias de extrema direita” O autor do blog http://www.locoporti.blog.br/, que estudou com Zoltan no colégio Vera Cruz, assim o descreveu: “Era estrangeiro, não lembro se iuguslavo, polonês ou tcheco. Por essa condição de estrangeiro, que lhe conferia um sotaque meio abobalhado (embora falasse um português mais correto que muitos dos meus colegas daquela turma hoje em dia); por ser gago, estrábico e quase cego; por não conseguir se enturmar; por ter um comportamento que sugeria uma deficiência mental”.

Esse ex-colega de classe poderia continuar citando várias nacionalidades. Mas Zoltan era húngaro. E, se alguém deseja fazer uma biografia dele a partir das informações retalhadas e desconexas que se escutam pelos corredores do CAC ou se lêem pelos sites (ou pela comunidade do Orkut “Amigos de Zoltan”) na Internet, o máximo que pode conseguir é um texto como o parágrafo seguinte: aos 13 anos, Zoltan e sua família fogem de seu país natal, perseguidos pelo comunismo (pois eram de direita). Chegam ao Recife, no Brasil, onde ele vai estudar no colégio Vera Cruz. Ingressa na UFPE no curso de Jornalismo, contra a vontade de seu pai, que o queria engenheiro. Aparentemente insatisfeito com o curso e com as perspectivas da profissão, desiste e ingressa na licenciatura em Artes Cênicas (há, contudo, quem diga que antes ele também perambulou pelas graduações e História e Música), onde estudava até o dia 6 de novembro.

Mais que sua história, no entanto, as pessoas que falavam sobre Zoltan preferiam mencionar, como se viu, sua esquisitice, mas também, sua inteligência. Esses são alguns comentários postados na notícia de sua morte no blog “Acerto de Contas”: “Muito inteligente, porém bastante depressivo. Lamentável tal acontecimento!” (P); “Cursamos o 3º ano no Colégio Vera Cruz. Zoltan sempre foi bastante culto. Chegava até a desafiar os professores de história e geografia algumas vezes. Sempre na dele. Gostava muito de MPB” (L.V.); “Lamentável receber esta triste notícia… Zoltan era o que considero ‘uma enciclópedia ambulante’. Um homem culto, gentil, reservado, tímido, inteligentíssimo. Durante as poucas oportunidades que tive de conversar com ele no ônibus ou na parada pude sempre aprender algo! Ele era assim… Falava o que sabia, o que observava, o que questionava” (E).

 

Quê?

A amiga confirmou, assentindo com a cabeça.

– Meu Deus – o rapaz conseguiu dizer lentamente e com a voz fraca – eu o estava vendo freqüentemente porque, toda vez que saía da aula para ir àquele banheiro que fica depois das salas de Design e Artes Plásticas, perto do auditório do CAC, eu o via sentado no parapeito colado com a porta do banheiro. Quando passava, ele, que aparentemente estava com o pensamento longe, ficava me olhando. Às vezes eu percebia que ele estava cantarolando baixinho uma música. Mesmo assim, a impressão que me dava era que ao redor dele sempre estava tudo silencioso demais – exceto por um barulho perturbador dos ventos vindos do jardim do CAC.

 

O mesmo estudante que não lembrou o nome de Zoltan mais uma vez ouviria sua voz numa palestra sobre jornalismo cultural, no auditório do CFCH. No meio da apresentação, ele levantou e, chamando a atenção dos que sentavam nas fileiras lotadas, começou, em voz alta, a contestar algo que uma das palestrantes, a professora de comunicação social Ângela Prysthon, havia falado. E novamente o calouro não conseguiu se concentrar no que ele dizia:

 

…políticas culturais… o jornalismo tem algumas funções… ação é necessária… formação do jornalista…

 

Mas ele conseguiu discernir o que Zoltan falou quando Prysthon disse que a pós-graduação em comunicação da UFPE preocupava-se muito com a formação cultural de seus alunos: “quem faz graduação em outro curso – eu, por exemplo, que sou de cênicas – pode fazer essa pós-graduação?”. Depois da resposta afirmativa da professora, ele voltou a sentar e – não sem que suspiros de alívio fossem ouvidos ao redor – a palestra pôde continuar.

 

Outra característica de Zoltan que era mais que perceptível – embora fosse talvez a que mais incomodasse as pessoas, que, no que se refere a características, preferiam se deter na dissonância e na inteligência dele – era sua energia para se envolver em atividades (principalmente quando o assunto era algo relacionado à cultura e sua democratização) e sua criatividade para criar projetos com os quais alguém raramente se empolgava.

Depois que o corpo de Zoltan foi achado do lado de fora do CFCH, as pessoas visivelmente mais afetadas com a morte foram uma parte dos alunos de Artes Cênicas. No CAC, eles formaram um grupo que vagava silenciosamente pelos arredores da Sala de Dança, ou sentavam no chão, perto da coordenação da graduação de Comunicação, sem falarem nada, como se fossem uma seita medieval ou pré-rafaelita de membros encapuzados exclusiva para iniciados. Muito a contra-gosto, uma das pessoas desse grupo, a aluna Adriana Maria da Silva, 6º período, declarou:

– Ele era sempre muito engajado em tudo o que fazia. Não acredito que tenha se matado.

 

– exceto por um barulho perturbador dos ventos vindos do jardim do CAC…

– Humrum… – a amiga tinha um olhar perdido, onde se podia notar um pouco de fascínio. – E você não sabe do mais estranho…

Nesse momento o professor, que estava no meio da aula, lançou um olhar severo aos dois e em seguida voltou a falar, fazendo gestos exagerados.

Mas o rapaz cutucou a amiga e sussurrou:

– Fala!

Ela hesitou, olhando cautelosamente para o professor e disse baixinho:

– O corpo dele foi encontrado nu.

 

Dois dos jornais locais levantaram a hipótese de homicídio: o Jornal do Commércio do dia 7 chamou o ocorrido de “morte misteriosa”: “Suspeita-se de suicídio. Mas o fato de Zoltan estar nu chamou a atenção dos peritos do Instituto de Criminalística, que estiveram no local durante a manhã”. A Folha de Pernambuco do mesmo dia: “Ainda não há hipóteses concretas sobre o que poderia ter acontecido com o estudante. Não se sabe, ao certo, se ele foi assassinado ou mesmo, se teria motivos para cometer suicídio”.

 

Aqueles que, depois da morte, tentam pensar em Zoltan, lembram de um fato: poucas semanas antes do ocorrido, ele tinha começado a andar com outro rapaz. Era jovem, de pele escura, barba. Os dois eram vistos andando pelos corredores do CAC, sempre conversando, às vezes sentavam no jardim. O calouro que tinha esquecido o nome de Zoltan e que o tinha visto na palestra certa vez pegou ônibus com outro amigo e os dois viram Zoltan e o rapaz conversando animadamente nos assentos perto do cobrador. A conversa era sobre música pop. Os interlocutores estavam achando muito divertido. Entre risadas era possível distinguir coisas como: “…há há ha… mas esse é um som bom… ah você precisa ouvir… Marya Carey… eu ouvi faz um tempo… ela gritava muito no palco há há há… há há há há…”

Aí o novato comentou:

– É, parece que aquele cara estranho finalmente arranjou um amigo.

Zoltan também começou, pouco antes de sua morte, a ser visto com muita freqüência na Livraria Cultura. No CAC, ele andava carregando sacolas novas da Cultura, com muitos volumes avantajados. Ninguém estranhou, porque isso condizia com a inteligência de Zoltan e com sua energia e engajamento para novos projetos. No entanto, “A” fez o seguinte comentário na comunidade do Orkut referida antes:

“Na última vez que eu conversei com Zoltan foi sentado debaixo da escada da livraria cultura… conversamos sobre Nelson Rodrigues, sobre a morte de Bruno Tolentino, e Zoltan me contou que há pouco havia subido as escadarias do CFCH para pular do décimo quinto andar… mas mudara de idéia olhando a paisagem.

Eu falei muito e longamente sobre o sentido da vida, que um suicídio é uma desobediência e violação das leis divinas e aparentemente Zoltan havia desistido da idéia.

Em todo caso, eu relatei o caso a Edson e falava a Lux para integrarmos mais Zoltan no grupo.”

O que será que ele estava lendo? Obras que ajudassem suas atividades engajadas? Obras depressivas que levassem ao suicídio? A Livraria Cultura não pode mostrar a ninguém a lista com os livros que ele esteve comprando (eles foram registrados, porque ele tinha o Cartão “Mais Cultura”, que possibilita bônus a cada compra).

 

A paisagem vista do 15º do CFCH é de fato muito bonita. O elevador do prédio não chega a esse andar. É preciso descer no 14º e subir dois lances de escadas empoeiradas. Elas dão acesso a um corredor do lado esquerdo do qual existem as salas raramente habitadas dos professores do Departamento de Filosofia. Do lado direito, um parapeito sem proteção alguma a partir do qual a força da gravidade é tão grande que ninguém consegue, por muito tempo, se debruçar e ficar olhando diretamente para baixo. Fazendo-se isso, contudo, é possível ver os alunos da Universidade do tamanho de formigas andando pelos atalhos em direção às suas aulas, às xérox, aos seus encontros, aos seus lanches… levantando a cabeça e olhando um pouco mais além, há uma vista panorâmica do bairro da Várzea: um subúrbio cheio de casas, vendas e bares… mais além, do lado direito, pode-se ver uma colina baixa e contínua, deserta, com a grama começando a ficar seca por causa do sol forte de Recife… do lado esquerdo, à distância, depois de um vasto campo verde, uma fábrica que parece de brinquedo com telhados triangulares solta fumaça no horizonte. Acima dela, um sol muito brilhante, cujos raios podem ser sentidos com intensidade pelo observador, no parapeito do 15º.

À noite, enquanto ainda há aula na Universidade, ainda é possível ver os estudantes-formigas se movendo entre os postes acesos do campus. As luzes do bairro da Várzea, contudo, são poucas e fracas. A colina não é mais visível, nem a fábrica. Mas se pode ver, agora, muito, muito longe, uma série de luzezinhas que provam que em Recife há bairros dignos de uma metrópole. Enquanto há aula, pode-se ouvir ecos das risadas dos estudantes; motores de carros chegando e saindo; música de algum bar. Quando as aulas terminam, no entanto, não há ninguém no campus. E no 15º, apenas um vento voraz – uma voz que não deixa nenhuma outra se pronunciar.

No dia 6, quando muito se falou na morte de Zoltan, um dos subtópicos mais recorrentes foi a série de conjecturas a respeito de como teriam sido as horas antes da queda. Teria Zoltan ficado sentado nas escadas empoeiradas escuras, a cabeça baixa, as mãos nos cabelos? Teria sentado abaixo do parapeito, encolhido pela força dos ventos noturnos? Teria corrido ao longo do corredor, gritando e rindo, num ato de loucura?

 

Teria havido mais alguém lá com ele?

 

Um dos comentários no Pernambuco.com expressa essas inquietações: “Só consigo pensar no sofrimento desse rapaz de ter ficado lá a madrugada toda, como dizem. Hoje cedo, pelos corredores, disseram que ele se escondeu lá dentro à noite e ficou lá todo esse tempo até pular… Muito triste! Não consigo parar de pensar nos sentimentos dele nesse tempo que ficou escondido até pular de fato” (N).

Fazem parte dessas conjecturas o modo como ele conseguiu acesso ao CFCH às 3h da madrugada. A maioria acredita que ele se escondeu em algum lugar do prédio antes de ele ser fechado (o que ocorre às 22h30). No entanto, o coordenador de segurança da UFPE, Armando Nascimento, disse à Folha de Pernambuco que, por volta da meia-noite, vigilantes que fazem a segurança do prédio reconheceram o estudante, que andava pelo pátio externo do CFCH, próximo ao portão de entrada: “pediram para que ele se retirasse do campus porque aquela hora era perigoso estar ali, já que não havia mais ninguém. Viram quando Zoltan foi em direção à saída da Universidade, e depois não o avistaram mais. Algumas horas depois, após escutarem um estrondo, encontraram o corpo nu, em estado lamentável. O prédio fica fechado durante toda a noite e os elevadores não funcionam. Para entrar no CFCH é preciso escalar, pelo menos, até o primeiro andar. Ainda não sabemos como ele poderia ter subido, sem ter feito a manobra e como ele caiu do edifício”.

 

As pessoas que acreditam na hipótese de suicídio – a maioria – são quase unânimes ao tentar esquadrinhar um possível motivo: foi a solidão, a falta de convívio com outras pessoas, a rejeição, o abandono completo que o teriam levado a pular do 15º. O autor do último blog mencionado, por exemplo, escreveu: “Zoltan não era um amigo meu. Estudamos juntos durante o período em que para ele foi possível. Isso porque ele foi massacrado pela minha turma (…) Enfim, esse quadro todo fez com que ele se isolasse até se afastar e desistir do curso de jornalismo. Tentou em seguida ser ator, passou no vestibular para o curso de artes cênicas. (…) Não deixo de pensar que se o comportamento de nossa turma tivesse sido diferente as coisas poderiam ser diferentes também para ele, afinal. Mas quem se importa com isso? Pulou, morreu, limpam o calçamento, fica novo, pra esperar por outro que pule. Eu mesmo poderia ter dado mais atenção nas últimas vezes que nos encontramos. Poderia ter honrado a promessa de ligar ou de passar um e-mail. As coisas teriam sido diferentes? Talvez… a vida é por um triz”. No Pernambuco.com, também, Maria comentou: “Vocês que são jovens deveriam ter mais sensibilidade, pq essas pessoas ditas ‘estranhas’ muitas vezes precisam de ajuda, de um pouco de atenção e principalmente respeito. Afinal de contas, todo mundo tem suas ‘coisinhas ridículas’. É próprio do ser humano. Tratá-los com indiferença, chacota, desprezo, talvez contribua para essa estranheza. Vi esse rapaz poucas vezes, mas sabia de sua inteligência. (…) Saibam que muitas vezes uma palavra de carinho pode salvar alguém…pensem nisso (…)”. Paradoxalmente, poderia-se dizer que Zoltan foi morto pela coisa que ele mais gostava de estudar: a cultura.

Depois que o conceito de cultura foi alargado, isto é, depois que ele deixou de significar apenas pinturas, esculturas, belas fachadas e peças de teatro, e passou também a se referir ao “espírito” que está latente em determinada vida social, que é o eixo principal e o guia das práticas cotidianas, das aspirações e sonhos das pessoas dessa sociedade, pode-se entender de fato o que talvez tenha havido com Zoltan. As ações dele, as coisas que ele falava, o modo como se vestia e se comportava mostravam uma total dissonância cultural da sociedade em que tentava se inserir. Zoltan era a prova viva de que o que se pensa como “multiculturalismo” – mulheres, negros, homossexuais, ecologistas – é uma homogênea falácia. E ele nunca tentou ingressar na homogeneidade. Ele sempre foi sincero. E talvez ele tenha se cansado. Tenha desistido. Ou talvez tenham se cansado dele. Talvez ele incomodasse demais.

“A” comentou na comunidade do Orkut “Amigos de Zoltan” que o falecido “(…) é um acidente feliz da cultura brasileira, o fato dele ter vindo por acaso para essa terra sombria merece ser verificado numa mandala astrológica.

(…)O ambiente cultural da universidade era péssimo. Não havia espaço para o Zoltan lá… só para idéias comunistas, de esquerda, da moda e politicamente corretas.

Ele era um erudito num galinheiro de patos falantes.

Mas Zoltan era um formidável Leão, enquanto os outros viam com a lanterna, ele sempre vinha com o Sol.

(…)Neste ambiente, 99% da atmosfera universitária, Zoltan era simplesmente odiado…

(…)Numa das últimas conversas que eu tive com o Zoltan ele me falou que estava triste porque segundo ele a universidade havia sido invadida pelo ‘vira-bosta’.

Zoltan me explicou que o vira-bosta é um pássaro que entra num ninho e começa a jogar os filhotes dos outros pássaros para fora… depois ele toma conta do ninho inteiro.

Zoltan me disse que a universidade havia sido invadida por pessoas que não eram fiéis ao ideal de educação verdadeiro, mas à baderna, a ociosidade, a militância e a farsa.

Muitas pessoas nunca suportaram o Zoltan, e uma vez morto, querem enterrar também a sua inteligência.

Não estou fazendo nenhuma politicagem aqui, estou descrevendo com objetividade o grau de isolamento a que Zoltan teve que se submeter por discordar do pensamento acadêmico coletivista”.

Na mesma página, em resposta ao comentário de “A”, “Al” falou: “Depois do ocorrido varias pessoas estão repensando em como trataram o Zoltan de forma injusta, até mesmo um tanto cruel.

No teu depoimento, vc falou que ele já tinha comentado em pular do CFCH. Sinceramente naum acredito que alguém se mataria completamente nu.

Queria saber de vc se o pessoal da faculdade também o tratava da mesma forma estúpida e egoísta com a qual ele foi tratado quando era adolescente. Ele sofreu muito(…).

Uma ultima lembrança marcante: na nossa festa de fim de segundo grau, na antiga Balacuda, todos estávamos vestidos a caráter, mas o Zoltan, muito humilde na época, estava com a sua melhor calca jeans!! Pois eh… lembro de comentários maldosos de pessoas que falavam mal até disso…

Agora, só resta o remorso, daqueles que o perturbaram por tanto tempo, e daqueles, como eu, que via tudo e nunca decidi me chagar mais, ajudá-lo de alguma forma”.

Além da nova amizade e das idas freqüentes à Cultura, nas últimas semanas em que perambulou sobre a terra, Zoltan podia ser visto com um cavanhaque – não uma desleixada barba por fazer. Mas um cavanhaque.

Adriana, a aluna de Cênicas, falou:

– Tive inúmeras conversas com ele. Ele me falava sobre política, ética, cultura, mas nunca (nunca!) falou sobre a vida. Eu e o pessoal de Cênicas decidimos não falar sobre ele. Porque acreditamos que foi homicídio.

Na madrugada do dia 6, teriam tirado a roupa de Zoltan porque incomodava o fato de ele não se enquadrar nelas (ao contrário da maioria) e viver despreocupado com isso – e agir a partir disso! – e o empurraram do CFCH? Ou Zoltan, num gesto simbólico, se livrou das roupas que sempre ressaltaram sua dissonância; se livrou delas da única forma que conseguiu: pulou? De um jeito ou de outro, a questão das roupas permanece. Se Zoltan pulou, não foi porque estava louco. De um jeito ou de outro, Zoltan Vernekey foi morto.

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  1. Puxa!!! Não sei se vibro com esse texto ou se entro em depressão… Acontecimentos trágicos rendem boas reportagens, Capote que o diga, mas se tratando de uma pessoa “proxima”, não que o conhecesse de fato mas ele era uma pessoa pública na federal, é desconcertante. Parabéns André!!! Foi o texto que mais me chamou a atenção. Acabei me lembrando de um colega meu do ensino médio que também era esquisito e maltratado, até hoje estudo com ele na FCAP. Hoje em dia alguns que pegavam no pé dele se arrependeram mas as marcas que deixaram nao saem tão facilmente… Que esta triste história de Zoltan sirva para repensarmos o modo como tratamos nossos semelhantes.

  2. foi de leitura nervosa que traguei marlboro sem parar, parando muitas vezes de ler: cada palavra dói um pouco em mim e é preciso respirar. que texto dificil. dificil de digerir. to péssimo. obrigado.

  3. Assim como os daí de cima, também estou um tanto chocado. Eu nunca pensei que Zoltan fosse cometer suicídio, tanto que quando vi o nome da reportagem, achei que tivessem descoberto que não era Zoltan que tinha pulado do prédio, ou algo do tipo. hehe
    Enfim, expresso também o remorso que sinto por tê-lo tratado tão mal me baseando na estereotipação que faziam dele, e na sua aparência. Naquele encontro no hall de entrada do CAC onde falamos sobre o Barravento, concordei com muito do (que entendi) que ele falou, mas no geral, queria mesmo me livrar daquela presença estranha. Talvez eu me sentisse envergonhado em estar conversando com ele, olhando pros lados na esperança de nenhum conhecido aparecer.
    Zoltan não era daqui, era de muito além, espero que ele esteja melhor onde pode estar agora.
    Uma das melhores que li aqui, sem dúvida. Oportunismo, ousadia, criatividade e sangue frio.
    Valeu, André. E parabéns.
    Abraços,
    Diogo.

  4. É difícil eu me concentrar numa reportagem grande, ainda mais quando o assunto não está dentro das minhas preferências, mas vc conseguiu me prender até a última linha com um texto completo e sem voltas, direto e ao mesmo tempo indireto, simplesmente impossível parar de ler.

    Textos assim me lembram porque desisti de fazer jornalismo.

    Parabéns amigo.

  5. Falta de respeito!

    o autor desse texto poderia procurar outra forma de aparecer.

    é uma pena que exista tanta gente preocupando-se em ser sol.

    • É necessário que haja pessoas assim
      É com grande tristeza que hoje, 29 de agosto de 2011, mais um aluno se jogou do CFCH

      • O que pulou no dia 29/08 não era aluno… morava e trabalhava em outra cidade e veio pra cá só pra pular…

  6. “Saibam que muitas vezes uma palavra de carinho pode salvar alguém…pensem nisso (…)”

    Vamos tentar pensar nisso.

  7. num consegui parar de ler… logo eu que naum consigo ler textos lonfos demais… mais um suicidio no cfch hoje e ler esse texto me fez lembrar dos comentarios pelo predio.. fazem de uma notícia chocante algo como um show! este texto foi um soco no estômago… tem muiiiita gente precisando ler! PARABÉNS

  8. Achei o texto importante. não vi oportunismo e sangue-frio [como disse outro comentário que parecia ter intenção de elogiar].

    Antes acho que foi uma ótima oportunidade para se repensar como tratamos os que estão à margem de nossos relacionamentos.

    Esses marginais, não são más pessoas. São marginais por serem rejeitados, evitados.

    Tenho esperança que outros casos possam ser evitados, influenciados mesmo indiretamente pela sabedoria contida messe texto.

  9. Mais um novo caso, uma mulher de aparentimente 55 anos se jogou do CFCH na última quinta-feira dia 23/10/2008, disseram que era do departamento de enfermagem e o mais espantoso o lamentável fato ocorreu as 10h da manhã, período de plena atividade e movimentação na universidade. Pessoas circulavam, estudavam na proximidades do local do acidente.
    Mas não é da tragédia que venho falar, mas de um sentimento de revolta q surgiu em mim após ter visto aqela cena lamentável…Até quando???Quantas pessoas precisarão num ato de desespero, pois é essa pode ser um justificativa lógica para um fato como esse, quantas precisarão morrer de maneira tão trágica para que a universidade tome uma providência???
    Bem gente, é isso…
    Que tanto Zoltan como esta senhora possam emfim ficar em paz…

  10. Parabéns pelo texto. Realmente está tocante e bem escrito; as informações coletadas estão bem organizadas e tal. Não ligue para os que te criticam, te chamando de oportunista. Sei que suas intenções foram as melhores ao escrever o texto. E de fato pode servir para abrir os olhos de algumas pessoas, que olhando apenas para o próprio umbigo, preferem ignorar a dor dos que que estão próximos..isso quando não fazem chacota e ridicularizam quem julgam “estranhos”.
    Poderia escrever aqui por horas..dando meu depoimento acerca do tópico, por compartilhar de muitos desses sentimentos decorrentes de alienação social, timidez excessiva..e humilhação por parte dos colegas..
    Afinal foi uma vida inteira vivendo à margem do convivio social, muitas vezes como recluso, muitas vezes deprimido..muitas vezes pensando inclusive em suicidio como uma forma de acabar com a dor..
    Mas vou me contentar em apenas lhe elogiar..pelo belo texto, bem escrito..pela pesquisa bem executada..
    mas principalmente pela mensagem que vc tenta passar nas entrelinhas, mesmo sendo mal interpretado por alguns.

    Para mim você não foi frio.
    Você soube emocionar.
    E mais importante: fazer pensar.

    Meus parabéns,

    Marcelo Fonseca

  11. MEU AMIGO ZOLTAN

    Uma semana antes da morte de Zoltan, conversei com ele no hall do CAC. Era fim de tarde, começo de noite, falamos bastante sobre Poesia (Zoltan gostava muito de Literatura). Tive a curiosidade de perguntar se ele escrevia poemas, ele disse que sim, que já havia escrito alguns, embora bem poucos. Me confessou, também, com um “frio entusiasmo”, que havia traduzido um poeta húngaro. Eu, amante que sou da Poesia, fiquei de imediato bastante interessado. Pedi, então, para que ele trouxesse as tais traduções para que eu desse uma olhada. Falei até mesmo numa possível publicação. Zoltan, novamente com aquele “frio entusiasmo” que lhe era peculiar nos últimos tempos, disse que me entregaria os textos, assim que me encontrasse novamente. Então, achei por bem pedir o endereço de e-mail dele (pois, caso não o encontrasse na semana seguinte, enviaria um e-mail para ele “cobrando” os poemas). De imediato, Zoltan anotou o e-mail dele atrás no uma nota fiscal que eu tirei de minha pasta. Caminhamos, então, até o pátio em frente ao CAC. Durante aquele minuto, Zoltan ficou em absoluto silêncio, absorto, como que mergulhado em outra dimensão. Então, não mais que de repente, me perguntou quais eram os meus projetos para o futuro (essa pergunta, penso eu, foi fruto, muito provavelmente, da conversa que estabelecemos sobre Poesia no hall do CAC. É quase inevitável que conversas sobre Poesia deixem de suscitar certas questões inerentes à Existência, visto que tocam a alma a fundo). Respondi a ele, com meu conhecido tom “ranzinza-brincalhão”, o seguinte: “Rapaz, eu não espero muita coisa não…” (Abri um sorriso sem graça.) Citei, então, aquele verso de Raul Seixas : “Tanto faz a vida como a morte, o pior de tudo eu já passei.” Ao que Zoltan respondeu um imediato e lacônico: “ Eu também”… Já estávamos relativamente próximos à parada de ônibus do CFCH, quanto Zoltan viu o ônibus dele e correu, correu como quem corre para a Eternidade. Foi a última vez que ouvi a voz inconfundível de Zoltan Venekey,uma das figuras mais inteligentes e autênticas que conheci nos 26 anos de minha existência.

  12. Ao ler o texto,relembro da imagem dele conversando com uma amiga minha(Elaine) que estudava com ele. Realmente a sua aparência era diferente e sua foz chamava atenção,porém pecerbemos que somos criados,moldados para não chegamos perto de estranhos,para não falar com estranhos. Será que ninguém parou para perceber que estranho é essa forma que nos ensinaram?pois nós todos somos iguais e irmãos,merecemos ser tratados com reipeito e atenção.Por que será que as pessoas param para falar umas das outras,pra criticar umas as outras e não para falar dá atenção com amor com carinho? Pois era só isso que o ZOLTAN precisava,nós é que temos atitudes de monstros,quando discriminamos os outros pela a aparência de montro…,nós é que somos estranhos,por semos alheios aos anjos que passaram e passam em nossas vidas e traformamos eles em montros. Até quando?

  13. Eo conheci o Zoltan nos idos de 90 e jamais esqueci ele. esta notícia me pegou de surpresa… estive todo este tempo buscando ele. Que amigo maravilhoso eu perdi! estou arrasada!

  14. “(…)O ambiente cultural da universidade era péssimo. Não havia espaço para o Zoltan lá… só para idéias comunistas, de esquerda, da moda e politicamente corretas.”

    O engraçado é que esse “multiculturalismo” que supostamente matou Zoltan Venekey não aceita quem pensa diferente.De muitos modos é apenas um ardil político pra gente autoritária, formada por ONGs de “minorias”, pleitear quilombos, invasões, quotas, ditadura politicamente correta, enfim.

    Zoltan se foi porque era um estranho no Ninho. Numa Universidade que diz privilegiar a diversidade, soa calhorda, cínico e hipócrita que um estudante não possa ser de direita. Não possa se assumir como tal, porque logo é taxado de extremista, racista e o diabo. Justo Zoltan que tinha amigos negros e mulatos, como eu.

  15. Comentaram comigo que Zoltan estava nu, para se despir de toda a negatividade, de todo o mal que lhe jogaram nos ombros. Livre dos esteriótipos, da indiferença, da maldade. Foi um ato simbólico.

    Zoltan foi discriminado, vítima de chacota e humilhado. Numa Recife provinciana, repleta de mulheres interesseiras a cata do próximo príncipe marombadinho de academia, não tinha uma companheira. Quem o iria querer? Justo ele, tão distante dos esteriótipos mais desejados. Zoltan estava só. Se sentiu discriminado e lamentavelmente, se suicídiou.

    Descanse em paz, grande amigo.

  16. […] continue lendo nesse blog aqui Etiquetado como:capote, matéria, preconceito, suicídio, zoltan […]

  17. Texto de arrepiar! Infelizmente não conheci essa figura. Mas como ele se sentia às vezes me sinto. Pelo fato de ser gótica, sou discriminada. Não estou fazendo questão de amizade, apenas me refiro ao respeito. Inúmeras vezes em sala de aula escuto piadinhas do tipo filha do capeta ou bruxa. Parece idade média não é? Não, não é, é a UFPE!!!

    • Preconceito é indício de ignorância e pobreza de cultura e espírito. Também estudo na UFPE. Ainda sou calouro, mas já sofri bulling no colegial e se tem uma coisa que aprendi com tudo isso é que não se deve dar atenção a esse tipo de pessoas preconceituosas. Elas na verdade se sentem ameaçadas, com receio de perder a mísera atenção que recebem. Então não ligue para o que acham de vc. Seja vc mesma e faça a diferença.

  18. Obrigada pelo apoio. Isso mostra que algumas pessoas não esqueceram de crescer e evoluir a mente.

    • Disponha. Se quiser conversar pode me enviar e-mails. Prometo que serão lidos e respondidos. ailton.lessa@gmail.com.

  19. O que não é comentado no texto é que Zoltan ficava próximo ao banheiro cantarolando, como foi dito, esperando outros homens que lá iam entrar. Ele era um dos responsáveis pela balburdia sexual que acontece nos banheiros da universidade e em especial no CAC.

    • Cara eu não sabia disso! Na semana passada eu passei pela mesma coisa no banheiro do CAC. E ontem mais uma menina se jogou do CFCH!

    • vc é um fdp miserável! O Zoltan nao era gay! O conheci muito bem, ele JAMAIS foi gay e nao admitia este tipo de coisa… lembro-me e muito bem que boa parte da turma dele de jornalismo quando conheci era formada por gays – mas ele sempre se manteve longe de todos e deste tipo de atitude homossexual, tanto que outros gays da turma dele se mantinham longe dele. Agora, cantarolar, ele sempre sempre cantarolava alguma cancao, pois ele sempre me dizia que sempre tinha uma música na cabeca… e por isto cantava… mas dizer que por isto ele estava lá esperando outros homens irem lá para fazer sexo com ele, é de uma mentira lastimável seu covarde! é porque o Zoltan nao está mais aqui para se defender!

    • Isso que disse sobre Zoltan e sobre os banheiros é completamente infundado !!!

  20. poxa!! queria conversar com zoltan….ele era uma pessoa inigualável!
    Será que as pessoas buscam apenas o dom de ser mesquinhas? Oser humano é muito rotulado, rotulam os mais fracos. Se ele se matou, espero que Deus vele por ele…veja que ele nunca teve ninguém por ele. Mas acredito em homicidio… ele era uma estrela diante de um ceu tenebroso…AS PESSOAS SENTE INVEJA!

  21. Acho o seguinte: já que os comunistas miseráveis nao gostavam do Zoltan, que nao venham aqui acusá-lo de coisas que ele nao era! Como do tipo que ele seria gay, depressivo ou covarde. Covardes sao vcs que vem aqui para atacá-lo, porque se acham melhores que ele somente porque estao vivos – por enquanto, pois um dia irao morrer com toda certeza e responder por suas acusacoes contra ele, esteja onde a alma dele estiver neste momento, vcs responderao perante Deus – nao perante os homens, pois os homens sao animalescos, inimigos de tudo que é puro e belo! -, e hao de pagar pelo pecado horrendo de ficar atacando este rapaz! ele foi o melhor amigo que passou pela minha vida, que me amou pela mulher que era e sou. O Zoltan foi um presente de DEUS para mim!

    • Conheci a história desse rapaz pela internet e fiquei muito interessada, apesar de morar bem longe de Recife e da UFPE. Ele parece ter sido uma pessoa fascinante… ou pelo menos o tipo de pessoa que me deixa encantada. Sorte sua ter sido amiga dele!!

    • Eu também gostaria de conhecer mais dele. Sou calouro na UFPE e esse assunto já está costumeiro entre as pessoas. Só ente semestre duas pessoas se jogaram do CFCH. Fizemos um protesto na frente da reitoria. Esperamos que este gesto humanize mais as pessoas.

      • Foi exatamente por causa dos protestos noticiados na mídia que fiquei sabendo da história do Zoltan, Ailton. Esses casos de suicídio no tal prédio do CFCH me deixaram bastante intrigada, aí fui pesquisar na internet e li tudo o que encontrei, inclusive assisti a alguns vídeos da reunião com o reitor. Espero de coração que tomem alguma atitude a respeito…

  22. até hoje guardo as cartas e poesias que o Zoltan escreveu para mim – o conheci em 1996. Eu fui a mulher mais feliz do mundo, pois tive este anjo que passou pela minha vida e me amou com o amor mais puro que alguém já sentiu por mim. Nao há um dia que nao pense nele e nao sinta saudade deste amor de pessoa que foi meu mais lindo amor… um dia, espero encontrá-lo na casa do Pai Eterno! Saudades imensas de ti, Zoltán!

    • Eu me lembro dele falar de você, moça. Uma vez, conversando, ele me falou de um grande amor que teve; não entrou em detalhes, e eu não lhe perguntei por eles. Zoltan não falava sobre si mesmo costumeiramente, e momentos raros como esse eram para ser vividos e não provocados. Esperamos, M., encontrar com ele no Lar bendito.

      • estava pensando nele e chorando, quando um email chegou aqui, avisando que vc tinha colocado a postagem. Eu acho que isso foi ele, para mostrar que ainda está pertinho, e olhando por nós lá de cima da casa de Nosso Jesus Cristo.

  23. Eu fui, honradamente, amigo do Zoltan. Era o único comunista, à época, com quem o Zoltan conversava prazerosamente, e nossas conversas sempre chamaram a atenção dos frequentadores do Laboratório de Informática do CAC. Porque o húngaro era f*da no diálogo, meu irmão! Argumentava e desconstruía argumentos como ninguém na UFPE. Um homem de cultura ímpar, um estranho no ninho do CAC.

    Uma vez me contou sua história. De como sua família saiu perseguida pelo comunismo húngaro quando criança, o tempo em que viveu no Marrocos com os pais, a vinda pro Brasil. Falou-me de sua fé fervorosa num Deus compassivo e misericordioso, mas ainda assim implacável com o pecado. Dizia-se católico, mas ortodoxo, porque a Igreja Latina contaminou-se com o comunismo a ponto de não ser mais a Igreja de Cristo. Palavras dele! Amava a Escolástica e discutíamos sobre Patrística – eu, um simples discípulo de um grande mestre.

    A inadaptação dele ao modus vivendi brasileiro era visível. Mas ainda assim acreditava nessa droga de País. Detestava Paulo Freire e dizia para mim – “João, se vocês não cuidarem da educação infantil, em breve o Brasil será um país de analfabetos”. Uma moça de Arquitetura, ao lado, o hostilizou por falar mal do “patrono da educação brasileira”.

    Você estava certo, Zoltan. Sempre esteve.


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